O evento seria às 20h. Mas, a partir das 15h, empunhando rosários e sombrinhas, as ativistas da conservadora Liga da Mulher Democrata (LIMDE) foram ocupando todas as cadeiras do auditório da antiga Secretaria de Saúde (atual Minascentro), em frente ao Mercado Central de Belo Horizonte, naquele 25 de fevereiro de 1964. O local havia sido reservado pela Frente de Mobilização Popular e pelo Comando Estadual dos Trabalhadores, entidades ligadas ao Comando Geral dos Trabalhadores (CGT), em ato preparatório ao Comício da Central do Brasil (ou Comício das Reformas) convocado para 13 de março de 1964, no Rio de Janeiro. Entre os oradores estavam as principais lideranças trabalhistas, como os deputados federais Almino Affonso, Neiva Moreira e Paulo de Tarso, além de dirigentes sindicais como Sinval Bambirra e José Gomes Pimenta. A estrela seria Leonel Brizola, ex-governador do Rio Grande do Sul (1959-1963), na ocasião deputado federal pela Guanabara.

Quem conta é a historiadora e professora da Universidade Federal de Minas Gerais Heloisa Starling, em sua mais recente obra, “A máquina do golpe” (Companhia das Letras, 2026). Ao final do dia, quando o público e os oradores começaram a chegar, não havia mais assentos disponíveis na plateia. Acompanhadas do padre Caio de Castro, um grupo de mulheres ocupou o palco, transformando a mesa do evento em altar. Brizola foi esconjurado. A imprensa nacional deu ampla cobertura ao episódio, que a história registrou, anos depois de muita pesquisa, como a instrumentalização política do rosário por mulheres conservadoras, um movimento que se espalhou pelo país.

A LIMDE era financiada pelo Instituto de Pesquisa e Estudos Sociais (IPÊS), criado em 1961 no Rio, com ramificações nos estados, entre os quais Minas Gerais. Por seu turno, o IPÊS era mantido por grandes empresários e multinacionais, banqueiros, além do governo dos Estados Unidos e agências externas. O objetivo: criar as condições culturais e ideológicas para pavimentar o caminho do golpe, que se consumou na madrugada de 1º de Abril de 1964. No auge da Guerra Fria, sob o mote do combate ao comunismo, apoiadas em setores conservadores da Igreja Católica (à época as neopentecostais não constituíam força política no país), tais mulheres integraram a engrenagem do golpe 64 no Brasil.

Aqueles anos 60 e 70 marcaram um tempo em que as mulheres, não só no Brasil, mas também nas democracias liberais ocidentais do pós-guerra, tendiam de forma estatisticamente significativa a votar mais à direita, em partidos conservadores e tradicionalistas, do que os homens. Nas eleições de 1965 e 1969 da Alemanha Ocidental, a União Democrático-Cristã (CDU/CSU), de centro-direita/conservadora, mantinha uma vantagem consistente entre o eleitorado feminino em relação ao Partido Social Democrata (SPD, de centro-esquerda). A religiosidade e o papel social tradicional – foco na família, filhos, cozinha e igreja – explicavam esse desempenho. Nos Estados Unidos, um dos maiores exemplos de ativismo e voto conservador feminino ocorreu no final da década de 1970, com o surgimento do movimento liderado pela ativista Phyllis Schlafly, que mobilizou milhões de mulheres donas de casa e evangélicas/católicas contra a aprovação da Equal Rights Amendment (Emenda dos Direitos Iguais). Contudo, a partir da eleição de Ronald Reagan em 1980, tem início uma inflexão: os homens passaram a migrar para a direita e o eleitorado feminino a se deslocar gradualmente para o Partido Democrata, iniciando o que a ciência política trata como “gender gap” moderno, ou seja, as diferenças do comportamento eleitoral entre gêneros ficaram marcadas.

Nas últimas décadas, o que nos anos 60 e 70 constituiu um comportamento político-eleitoral feminino de alinhamento conservador foi se transformando na principal barreira de resistência democrática contra o avanço da alt-right global, uma direita não tradicional que desenvolveu diferentes matizes em cada país, em alguns, inclusive o Brasil, registrando uma tentativa de golpe de estado. Essa clivagem de gênero tornou-se um dos fenômenos mais expressivos da ciência política. Foi marcante nas eleições de 2018 e de 2022 e segue presente em 2026. Pesquisa Datafolha divulgada nesta quinta-feira, 22 de outubro, reitera as mesmas relações entre gênero e intenção de voto identificadas em todos os demais institutos de pesquisa. No conjunto da amostra, Lula tem 50% e Flávio 50% das preferências. Mas, entre mulheres, Lula alcança 53% e Flávio, 47%. Entre homens, Flávio registra 56%, Lula 44%.

Além do gênero, a religião é a variável que mais explica o comportamento eleitoral: enquanto Lula tem 59% dos votos entre católicos, Flávio alcança 73% da preferência entre evangélicos. A religião, sobretudo evangélica neopentecostal, guarda uma interpretação da Bíblia Sagrada que reforça a perspectiva da estrutura patriarcal e valores regressivos em relação à pauta da igualdade entre gêneros. As análises estatísticas avançadas sugerem que pertencer à religião evangélica se apresenta como variável instrumental intermediadora para a compreensão da política e a responsabilização de governos, o que tem repercussão sobre a intenção de voto. É assim que ao final das contas a adesão a certas vertentes religiosas tende a representar mecanismo que mitiga a propensão feminina de ter postura crítica e de resistência ao discurso da alt-right global, no caso brasileiro, da direita bolsonarista. Daí se explica a motivação estratégica do PL Mulher, ao promover a ação política de Michelle Bolsonaro junto às mulheres evangélicas.

Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia

Nos Estados Unidos, mulheres jovens, negras, solteiras e com maior escolaridade lideram a rejeição ao movimento MAGA, uma oposição que se intensificou com retrocessos em salvaguardas históricas de direitos reprodutivos. No Brasil, o bolsonarismo encontra nas mulheres um dique de contenção semelhante, mesmo quando sai vitorioso nas urnas: o voto feminino – especialmente entre mães de baixa renda e eleitoras urbanas – expressa forte resistência a uma retórica sexista, que enclausura a mulher aos papéis tradicionais de gênero, que colidem com as conquistas de autonomia, inserção profissional, independência econômica e direitos civis (inclusive o voto) consolidadas desde o final do século 20. Além disso, a aversão ao risco institucional faz com que as mulheres – historicamente mais responsabilizadas pelo cuidado e pela interação com as redes de proteção básica, como saúde e educação pública – rejeitem o desmonte de políticas sociais e o enfraquecimento das salvaguardas de bem-estar. Por tudo isso, a mobilização e o voto das mulheres seguem como o mais firme obstáculo contemporâneo à erosão dos regimes liberais.

compartilhe