Nas eleições municipais de 1988, na capital São Paulo, a nordestina Luiza Erundina, então filiada ao PT, concorria à maior prefeitura do país contra o ex-governador Paulo Maluf e o ex-secretário de Estado de Obras João Oswaldo Leiva, à época apoiado pelo governador Orestes Quércia e pelo prefeito Jânio Quadros. Fundado em 1980, de origem sindical, sem recursos, o PT nunca havia eleito representação para um cargo majoritário e as estatísticas aferidas pelos institutos apontavam, durante toda a campanha, Erundina atrás de Maluf e de Leiva. Ela era a aposta menos provável.
Mas, em 9 de novembro de 1988, seis dias antes das eleições municipais, o Exército Brasileiro invadiu a Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) em Volta Redonda, no Rio de Janeiro, para reprimir uma greve de metalúrgicos, que haviam ocupado as instalações da empresa, que à época era estatal. O episódio ficou conhecido como “Massacre de Volta Redonda”: três trabalhadores foram mortos e dezenas ficaram feridos. A notícia correu o país, na velocidade do contexto comunicacional da época, em que as informações eram mediadas pelos meios de comunicação tradicionais. Houve indignação nacional e forte reação de protestos.
Em São Paulo, aferidos os votos no pleito de 15 de novembro, a surpresa nacional: Erundina havia sido eleita. Entre as explicações que se somaram ao voto de “protesto” contra um regime que concluía a transição para a reabertura democrática e a insatisfação com os governos, estava a repulsa pelo massacre. À véspera do pleito, esse sentimento cresceu e canalizou milhares de “votos de última hora” para Erundina. As pesquisas, realizadas em levantamentos de campo mais demorados, feitos em questionários de papel, que precisavam ser digitalizados, haviam concluído as coletas de dados antes do clímax de revolta que impulsionou a candidatura da então petista.
Se em 1988 fatos marcantes ou tragédias reais de véspera por vezes alteravam a direção do voto, surpreendendo inclusive as pesquisas de opinião política, quase 40 anos depois, na era da tecnopolítica, as eleições são ganhas e são perdidas na última hora. E com uma desconcertante frequência. Para isso, hoje, o fato nem precisa ocorrer. Uma bem elaborada e distribuída notícia falsa, impulsionada por algoritmos opacos, pode alavancar poucos pontos percentuais que separam um derrotado de um vencedor. São eleições cada vez mais apertadas e decididas no detalhe. Que o digam peruanos e colombianos.
Raphael Nishimura, diretor de amostras da Universidade de Michigan, nos EUA.
Três perguntas para...
Raphael Nishimura //estatístico da Universidade de Michigan
É nesse contexto que cabe a pergunta: são as pesquisas de intenção de voto que erramou são fatos que ocorrem posteriores à coleta que impulsionam mudanças na direção do voto que, em disputas apertadas, são suficientes para alterar o resultado das urnas? É exatamente por isso que Raphael Nishimura, estatístico da Universidade de Michigan (EUA), fixou em seu perfil no X a assertiva: "Pesquisas pré-eleitorais não são nem devem ser usadas como prognósticos das eleições." Em entrevista a esta coluna, Raphael explica o porquê.
O que pode explicar as diferenças entre as inferências de pesquisas realizadas na véspera da votação e o resultado real da urna?
As pesquisas do tipo survey fazem inferências sobre uma população num tempo bem definido que é o tempo que corresponde à coleta dos dados. O objetivo é capturar o que o eleitor pensa naquele instante em que é entrevistado. Então, vou usar aquele clichê: é um retrato do momento.
Então quando fazemos uma pesquisa, estamos falando sobre população naquele período em que foi coletado o dado. Se no próximo dia houver mudança, não tem como falar que a pesquisa errou. Por isso, para mim é erro usar as inferências de uma pesquisa como prognóstico de uma população em tempos diferentes, no tempo futuro. Uma parte dos eleitores decide no dia da eleição. Outra parte pode mudar de opinião. Além disso, há outras questões que precisam ser consideradas. Por exemplo, a abstenção é um problema para as pesquisas. Mesmo que o instituto coloque um filtro no questionário, muitos que não comparecem respondem. Já os resultados das eleições são apresentados em termos de votos válidos. Essas diferenças também podem ocorrer por erros metodológicos em várias etapas da pesquisa, da elaboração do questionário ao planejamento amostral e da coleta. Mas não exclusivamente por eles. Há um componente que é o próprio movimento do eleitorado de véspera.
Como avalia a qualidade dos dados apresentados pelas pesquisas que estão sendo realizadas?
Os grandes institutos, em média, têm feito um bom trabalho na medida do possível, das restrições orçamentárias e tempo. Mas há bastante espaço para aprimoramentos metodológicos, por exemplo na coleta dos dados. Há diferentes modos de coleta, online, telefônico, presencial, cada qual com os seus pontos fortes e fracos. Nos Estados Unidos os institutos têm mesclado os métodos de coleta exatamente para que cada um possa suprir as fraquezas do outro. E também há várias inovações metodológicas. A sociedade tem passado por uma revolução digital e informacional e os institutos precisam adaptar métodos para se adequar às mudanças da sociedade. E por fim, falta também um pouco de transparência na metodologia. O registro das pesquisas no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) traz uma descrição rasa, não detalhada, essa é área que deveria ser aprimorada.
Diferentes institutos com emprego de metodologias distintas estão apontando estimativas bem diferentes na eleição ao governo de Minas. Que conselho você dá ao eleitor para que ele busque estimativas mais próximas do que está ocorrendo no eleitorado?
Ao invés de se ater a uma ou outra pesquisa, de se empolgar com um ou outro resultado isolado, é importante olhar para as médias apresentadas pelos agregadores de pesquisa. Em geral, a média ponderada das médias de várias pesquisas realizadas apresenta um retrato um pouco melhor do eleitorado do que uma ou outra pesquisa isoladamente.
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