Do ponto de vista institucional, o Supremo Tribunal Federal (STF) é o grande perdedor da sessão que analisaria a base fática para se abrir investigação sobre as relações do ministro Alexandre de Moraes com o ex-banqueiro do Master, Daniel Vorcaro. Esse tem o dedo podre. Para onde aponta, suscitam-se senão indícios de malfeitos, ilações deles. As informações do celular de Vorcaro, até então acessadas apenas pelo ministro André Mendonça, foram disponibilizadas de véspera aos ministros Cristiano Zanin, Gilmar Mendes e Alexandre de Moraes. Pouco antes do início da sessão, pela imprensa pipocaram os casos.
Mensagens encontradas no celular de Vorcaro associaram Nunes Marques, presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) a duas suposições negativas. A primeira: o filho dele, que é advogado, teria prestado serviços e recebido R$ 500 mil de Daniel Vorcaro. E a segunda: que o ministro teria tido um encontro íntimo com uma profissional paga pelo ex-banqueiro. Nunes Marques negou que o filho tenha prestado serviço e recebido pagamento do Master ou de Vorcaro.
Apesar disso, se declarou impedido a participar do julgamento. O presidente do TSE considerou em sua decisão possíveis impactos eleitorais do julgamento, inadequados a ele que preside as eleições gerais. Deixou o ringue, digo, o plenário. Desfalcou o grupo de André Mendonça. Dias Toffoli seguiu caminho parecido: a sua empresa familiar manteve negócios com Vorcaro. Essa baixa, já era esperada.
Novas notícias indicaram que o ex-banqueiro pediu ao filho de Luiz Fux, o advogado Rodrigo Fux, para ajudar em um caso. A assessoria de Rodrigo Fux afirmou que ele nunca advogou para Vorcaro nem para o Master. As mensagens indicam, contudo, algum nível de proximidade entre ambos – que se tratam de “meu amigo” e “meu irmão”. Vorcaro bancou ingressos para a família do advogado em um camarote VIP no desfile das escolas de samba do Rio de Janeiro, na Sapucaí, em fevereiro de 2025.
Por fim, mensagens do celular do ex-banqueiro, que já haviam registrado o encontro de André Mendonça com Vorcaro, em março de 2025, na sede do Iter, instituto fundado pelo ministro, também indicaram tentativas de aproximação em convites ao ex-banqueiro para eventos Instituto Iter. Em nota oficial, o instituto negou. Distintas interações e níveis de gravidade à parte, foi espetáculo constrangedor a apresentação das relações de familiares e lobistas amigos com o ex-banqueiro, precificados pela sua proximidade com o poder.
Nos debates que se seguiram, artilharia cruzada. Alexandre de Moraes acusou Mendonça de vazamentos seletivos, para tentar incriminá-lo por ter sido o relator do processo que julgou o núcleo crucial da tentativa de golpe de estado, com a condenação de Jair Bolsonaro (PL). Luiz Fux e André Mendonça lançaram a acusação de que uma “Polícia Federal paralela” foi instituída, para monitorar membros da Corte.
Já Gilmar Mendes mirou em André Mendonça e o denunciou por adotar um tom "político-eleitoral" na condução do caso Master. “Evidente condução político-eleitoral. Escolha do 7 de Setembro, até 'pixulecos'”, afirmou em referência aos bonecos com o rosto de Mendonça que foram levados em manifestações de apoiadores do candidato do PL à Presidência, Flávio Bolsonaro, em 7 de Setembro. Depois de chamar Gilmar de leviano, Mendonça reclamou: “Não aponte o dedo. Não está falando com qualquer um”. Gilmar rebateu reiterando a acusação de que André Mendonça tenta arrastar o STF para a disputa eleitoral: “Tentar arrastar o STF para esse tipo de prática, de pensar que iam ficar imunes e impunes. É de uma desfaçatez de corar frade de pedra”.
Cármen Lúcia, única mulher do plenário, foi a voz da sensatez. “Estou nesta sessão em estado de profunda consternação e tristeza. Não apenas pelo tema que nos traz aqui, mas porque este STF, guarda da Constituição Federal, provocou um mal-estar cívico em todas as cidadãs e cidadãos. Eu me sinto até envergonhada de no momento em que estamos a menos de 20 dias das eleições, estarmos voltados a questões do STF", disse. Um pedido de vista de Flávio Dino interrompeu a sessão. Pelas regras atuais, a conclusão do julgamento pode ficar suspensa por até 90 dias corridos. Se o STF é o grande perdedor do ponto de vista institucional, do ponto de vista político, o senador Flávio Bolsonaro (PL) é quem fatura. A instituição que condenou o seu pai por tentativa de golpe de estado está na berlinda. Ao mesmo tempo, Flávio Bolsonaro – investigado desde julho pela Polícia Federal por sua associação com Vorcaro, para financiamento do filme Dark Horse – vê agora a batata assar em outro forno.
Troféu Juca Pato
A ministra Cármen Lúcia fez história ao ser a primeira integrante do Supremo Tribunal Federal (STF) a vencer o Troféu Juca Pato, concedido pela União Brasileira de Escritores (UBE). A distinção reconhece a trajetória da ministra e sua produção literária sobre democracia e cidadania, destacando a obra “Princípio Constitucional da Solidariedade”, publicada em 2025. A entrega do prêmio ocorrerá em 14 de novembro, no Palácio de Cristal, durante o 3º Flipetrópolis, em Petrópolis. O evento marcará um encontro inédito entre as quatro últimas vencedoras: Cármen Lúcia receberá o troféu de Sueli Carneiro (2025), com a presença de Míriam Leitão (2024) e Conceição Evaristo (2023).
Obras
Cármen Lúcia integra o STF desde 2006 e é autora de títulos como “O Livro da Democracia” e “Pela mão do povo”. A UBE justificou a escolha histórica ressaltando que sua escrita alcança direitos fundamentais para além do universo jurídico, consolidando seu nome ao lado de ícones como Carlos Drummond de Andrade e Cora Coralina.
Montes Claros
O presidente Lula confirmou agenda em Montes Claros (Norte) nesta quinta-feira, 17. O Norte de Minas é a principal base eleitoral do deputado federal Patrus Ananias (PT), candidato ao governo do estado, do deputado federal Paulo Guedes (PT) e da deputada estadual Leninha, presidente do PT de Minas.
Teófilo Otoni
A campanha de Flávio Bolsonaro (PL) em Minas organiza uma visita do candidato a Teófilo Otoni na semana que vem. Ao mesmo tempo, apoiadores tentam estender a passagem dele por municípios do Triângulo e do Sul de Minas.
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Tempo quente
O senador Alessandro Vieira (MDB-SE) anunciou nesta terça-feira, 15, que vai entrar com um mandado de segurança no STF para tentar obrigar o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), a instalar uma CPI sobre as relações dos ministros Alexandre de Moraes e Dias Toffoli com Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. O requerimento reúne 41 assinaturas e, segundo Vieira, está há seis meses na mesa de Alcolumbre.
