Alvejado no peito, em 23 de junho de 1996, foi encontrado morto o advogado Paulo César Farias, mais conhecido como PC Farias, ex-tesoureiro da campanha de Fernando Collor de Mello ao Palácio do Planalto. Estava em sua mansão na Praia de Guaxuma, em Maceió (AL), ao lado da namorada Suzana Marcolino, também assassinada com um disparo. PC Farias, estava em liberdade condicional. Ao centro de uma rede de corrupção montada no governo Collor, PC era réu em processos por crimes financeiros, sonegação fiscal, falsidade ideológica e enriquecimento ilícito. Estima-se que, nos 30 meses da gestão do “caçador de marajás”, o esquema tenha arrecadado, de empresários, o equivalente a US$ 8 milhões. Além disso, teria movimentado US$ 1 bilhão dos cofres públicos.
Até a emergência de Daniel Vorcaro, talvez PC Farias tenha sido, para quem acompanha a política, a personificação da promiscuidade entre o capital privado corporativo e o topo das instituições da República: moldou o conceito moderno de lobby ilegal e rede de corrupção sistêmica, operando ao centro de uma estrutura paralela de poder, que conectava o sistema bancário, o poder Executivo, empreiteiras, parlamentares e o Judiciário. PC Farias representou algo como um “marco de transição” da profissionalização do “operador corporativo” na Nova República, quando a corrupção deixou de ser um arranjo ocasional, para se consolidar numa engenharia complexa de poder paralelo.
PC Farias encontrou na história, enfim, quem o superasse. O escândalo Master se abateu sobre os senadores Ciro Nogueira (PP-PI), Jaques Wagner (PT-BA), além de ameaçar Renan Calheiros (MDB-AL) e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP). Já o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e candidato à Presidência da República se vê no epicentro da tormenta. Documentos da Polícia Federal (PF) e da Procuradoria-Geral da República (PGR) que tiveram o sigilo levantado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) esta semana, apontam que Flávio Bolsonaro era interlocutor direto de Daniel Vorcaro na negociação para investimentos no filme “Dark Horse”, sobre o pai, Jair Bolsonaro. O material também aponta que Eduardo Bolsonaro, ex-deputado federal, que vive nos EUA, atuava como gestor do dinheiro enviado por Vorcaro para o longa-metragem: Flávio negociou diretamente com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro o repasse de pelo menos US$ 24 milhões (hoje, aproximadamente R$ 122,7 milhões).
Também arrastado para o coração da crise, o Supremo Tribunal Federal (STF) está rachado em meio ao confronto entre os ministros André Mendonça, relator do inquérito Daniel Vorcaro-Master, e Alexandre de Moraes, relator do julgamento que condenou Jair Bolsonaro por tentativa de golpe de Estado. André Mendonça foi indicado para o STF por Jair Bolsonaro e anunciado como “ungido” por Michelle Bolsonaro, em aceno à expansão do conflito para o âmbito religioso, assim também engajando evangélicos, até então pouco entusiasmados com a candidatura de Flávio Bolsonaro. Mendonça detonou um conjunto de ações, entre elas a divulgação, em 1º de setembro, de relatório da Polícia Federal que investigou Alexandre de Moraes, em diálogos comprometedores com Vorcaro. Tais conversas se somam a um milionário contrato firmado entre o escritório de advocacia da esposa de Moraes com o ex-banqueiro.
Bolsonaristas percebem no material contra Moraes potencial para impulsionar a campanha de Flávio Bolsonaro: desloca o conflito entre os presidenciáveis que polarizam a disputa para o âmbito do STF. Ao mesmo tempo, põe em xeque a credibilidade de Moraes, que, embora indicado para a Corte pelo ex-presidente Michel Temer, vem sendo associado politicamente por Flávio Bolsonaro a Lula. No meio político não bolsonarista e lulista, a leitura é de que Mendonça, dono do tempo do explosivo processo, estaria fazendo vazamentos seletivos para impulsionar Flávio Bolsonaro e desgastar a candidatura de Lula, acertando também outros desafetos dele, como Davi Alcolumbre.
DISPUTA NO SUPREMO
Exatamente por isso, Moraes e ministros que tendem a apoiá-lo nessa disputa interna, como Cristiano Zanin, requereram do presidente do STF, Edson Fachin, que seja retirado o sigilo de todos os documentos que integram as investigações do caso Master. Igual pedido foi feito pela PGR, comandada por Paulo Gonet, também mencionado no curso do relatório da PF. Edson Fachin determinou a Mendonça que derrube o sigilo decretado sobre as apurações relativas ao Master, dando-lhe prazo de 24 horas.
O grupo de ministros ligado a Moraes quer acesso integral aos documentos antes do julgamento que analisará relatório sobre conversas entre Moraes e ex-banqueiro, marcado no STF para terça-feira, 15. A sessão plenária poderá determinar a abertura de investigação sobre a relação entre Moraes e Vorcaro. O mesmo grupo também reivindica que na mesma sessão seja analisada a denúncia de Moraes contra Mendonça, de condutas que poderiam, em tese, se enquadrar nas leis de improbidade administrativa e abuso de autoridade, além de indicar quebra da imparcialidade judicial e favorecimento a determinados grupos políticos.
É fato que Moraes não vai assistir passivamente à própria degola. Até porque sabe que no STF são cinco os ministros que tiveram, em diferentes níveis, interações com Daniel Vorcaro. A começar por Dias Toffoli, passando por Kassio Nunes Marques, Luiz Fux e o próprio André Mendonça, que teve encontro incontroverso e de forma privada com Daniel Vorcaro em março de 2025, em São Paulo, na sede do Instituto Iter, fundado por Mendonça. O encontro foi intermediado pelo deputado Cezinha de Madureira (PL-SP) e pelo advogado Ciro Rocha Soares.
Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia
Níveis e gravidades distintas de relacionamento entre ministros e o ex-banqueiro, fato é que, para passar o STF a limpo, tudo precisa ser elucidado. Vorcaro floresce de suas raízes entrelaçadas à família Valadão, fincadas na Igreja Batista da Lagoinha, em Belo Horizonte. Já é o maior fraudador da história do sistema bancário brasileiro, até aqui suspeito de desvios de R$ 12 bilhões. Pela rede de tráfico de influência estruturada em diferentes camadas – um ecossistema de poder para neutralizar a fiscalização do Estado, coagir a imprensa, blindar operadores e intimidar detratores – Vorcaro se transformou, neste contexto político-eleitoral, algo como uma “Tsar Bomba” – ou RDS 220, como era chamada. Testada em 1961 pela União Soviética, foi o artefato termonuclear mais potente detonado na história da humanidade: deu três voltas ao redor do planeta, e a radiação térmica causaria queimaduras de terceiro grau a 100km de distância.
