“Permita-nos perguntar: onde está a sua consciência? Ouve-se dizer que o fumo do ópio é estritamente proibido no vosso próprio país; isso ocorre porque o dano causado pelo ópio é claramente compreendido lá. Se não é permitido fazer mal ao vosso próprio país, muito menos se deve permitir que esse mal seja passado para outros países – e menos ainda para a China!” Em 1839, o comissário imperial da China Lin Zexu dirigiu carta aberta à Rainha Vitória, jovem monarca do Império Britânico.

Era uma tentativa diplomática de evitar a escalada do conflito entre China e a Grã Bretanha, depois da determinação do imperador Daoguang (1820-1850), o oitavo da dinastia Qing, de imposição do cerco comercial e o confisco do ópio produzido na Índia, que entrava ilegalmente no país, pela ação da Companhia das Índias Orientais. Viciar chineses foi o caminho encontrado por britânicos, para reverter o déficit comercial de sua balança de pagamentos, decorrente da elevada demanda pelo chá, seda e porcelana chineses.

O crescimento vertiginoso do vício devastou a saúde pública e desestabilizou a economia chinesa. Nesse contexto, o imperador nomeou o comissário Lin Zexu para confiscar e destruir toneladas da droga em Cantão, ato que, naquele ano de 1839, motivou a reação militar britânica. Assim se iniciaram as chamadas Guerras do Ópio (1839–1842 e 1856–1860).

Menos de duzentos anos depois, as sociedades se debatem contra novos vícios, em meio à transição da ordem global do capitalismo para aquilo que teóricos chamam de tecnofeudalismo. A centralidade do poder político, econômico, financeiro foi transferida para as gigantes de tecnologia, que gostariam de derrubar fronteiras e atropelar a capacidade regulatória de estados nacionais.

O referendo do Brexit, em 2016 marcou um dos primeiros e mais emblemáticos casos de interferência digital em massa e manipulação psicológica por meio das redes sociais. Foi escancarada a vulnerabilidade das democracias ocidentais diante do uso de algoritmos, disparos automatizados e extração ilegal de dados para fins políticos. O caso desencadeou investigações no Parlamento Britânico e forçou a União Europeia a criar marcos regulatórios mais rígidos, como o Regulamento Geral sobre a Proteção de Dados (GDPR) e a Lei de Serviços Digitais (DSA).

Para além da interferência política em processos eleitorais e no estímulo à divisão das sociedades, a dinâmica das redes se volta também contra crianças e adolescentes. Se em princípio as denúncias focavam os riscos de segurança direta – como pedofilia, grooming, vazamento de dados e assédio –, a literatura científica e o debate público enfatizam, agora, como a própria estrutura das plataformas pode provocar danos sistêmicos ao desenvolvimento.

Nos Estados Unidos, para encerrar um processo movido inicialmente por 33 estados, aos quais se juntaram outros 14, com indenização que poderia alcançar US$ 1,4 trilhão, a Meta, proprietária do Instagram, Facebook e WhatsApp, fechou acordo judicial comprometendo-se a pagar US$ 17 bilhões, além de promover modificações na arquitetura de suas redes, acusadas de viciar crianças e adolescentes.

Pelo mundo, vários países adotam restrições rígidas para o acesso de crianças e adolescentes às redes. A Austrália e a França já aprovaram leis para proibir ou restringir o acesso de menores de idade às redes sociais, enquanto outras nações implementam regras de consentimento ou preparam propostas avançadas. No Brasil, para além do ECA Digital, que virou lei em setembro de 2025 – está em vigor desde março sem determinar um limite de idade para acesso às redes sociais –, a Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD) aperta o cerco contra as plataformas: multou em R$ 153,7 milhões a ByteDance, controladora do TikTok, por falhar na proteção de dados de crianças e adolescentes.

Há duas semanas, a ANPD também suspendeu transmissões ao vivo e compartilhamento de vídeos do Discord, em decorrência do suicídio de uma menina de 13 anos em Mato Grosso do Sul. O presidente Lula qualificou o Discord de “cracolândia digital” e ordenou abertura de processo exigindo R$ 500 milhões em multa.

A Austrália também foi pioneira ao aprovar o Código de Negociação da Mídia Jornalística e a Lei de Incentivo à Negociação de Notícias: as Big Techs com receita publicitária local superior a 250 milhões de dólares australianos são taxadas em 2,5% sobre o seu faturamento. O valor arrecadado é revertido para um fundo que financia a mídia profissional local. Com essa decisão, a Austrália reconhece a imprensa como uma instituição fundamental para a democracia.

O conteúdo da mídia profissional vem sendo sugado gratuitamente pelas Big Techs, que por seu turno, lucram com o engajamento do material jornalístico sem pagar por ele. O período eleitoral no Brasil dá transparência parcial à arrecadação das Big Techs. Nas eleições municipais de 2024, o Facebook liderou o ranking dos fornecedores do pleito, arrecadando R$ 201,49 milhões, o equivalente a 3% do total dos gastos com fornecedores de R$ 6,744 bilhões em todo o país.

O segundo e terceiro maiores fornecedores também foram empresas processadoras de pagamento utilizadas pelas plataformas de tecnologia: a DLocal Brasil Instituição de Pagamento e a e Adyen do Brasil Instituição de Pagamento faturaram, respectivamente, R$ 75,6 milhões e R$ 26,6 milhões. Neste pleito de 2026, dos R$ 153 milhões já executados pelas campanhas com fornecedores, Facebook recebeu R$ 10 milhões, ou seja, 7% do volume gasto até aqui; já a DLocal Brasil Instituição de Pagamento faturou R$ 5,5 milhões, 4% dos gastos registrados até este momento.

Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia

A China tentou conter a invasão do ópio promovido pelo imperialismo britânico. Foi derrotada em duas guerras, e assim ingressou no “Século das Humilhações”, com acordos multilaterais denominados "Tratados Desiguais", que forçaram a cessão de Hong Kong, a abertura de diversos portos ao comércio estrangeiro, a concessão de extraterritorialidade jurídica aos ocidentais e a legalização formal do tráfico de ópio. Que o mundo livre perceba nas Big Techs o exemplo histórico que vem da China.

compartilhe