Conta o anedotário mineiro que quando Arlindo Porto foi registrar a sua chapa ao Senado Federal nas eleições de 1994, incluiu provisoriamente na primeira suplência Regina Assumpção, então secretária executiva de sua legenda no estado, o PTB. Arlindo Porto pretendia negociar a posição, na tentativa de ampliar apoios. Estavam em disputa duas vagas. Era uma eleição dura: concorria também Francelino Pereira (PFL), ex-governador indicado no período da ditadura militar (1979-1983). A tradição de ex-governadores candidatos ao Senado era conhecida e, nesse sentido, surpresa alguma por Francelino ter conquistado a primeira vaga. Brigando pela segunda vaga, Arlindo Porto tinha ainda pela frente os adversários Virgílio Guimarães (PT), à época com forte base sindical do PT, além de Sérgio Ferrara (PDT) e Aluísio Pimenta (PL).
Sem conseguir novos apoios, e discutindo a situação da suplência com o então governador Hélio Garcia, Regina Assumpção permaneceu na chapa. Arlindo Porto se elegeu, foi nomeado ministro da Agricultura e do Abastecimento no governo de Fernando Henrique Cardoso. Entre maio de 1996 e abril de 1998, Regina Assumpção se tornou a segunda mulher da história de Minas a assumir a cadeira no Senado Federal. Minas Gerais, naquele curto intervalo, viveu uma situação inédita: das três cadeiras de representação do estado, duas foram comandadas por mulheres. Júnia Marise, então no PDT, a primeira mulher a tomar posse em 1991 exerceria o mandato até 1999.
Suplência sempre foi coisa muito séria. Entre 1994 e 2026, em oito pleitos que elegeram 12 senadores da República para representar Minas Gerais, nove suplentes foram chamados para substituir os titulares. A legislatura de 2011 a 2015 foi a mais tumultuada. Eliseu Resende, então no DEM, havia sido eleito em 2006 com mandato até fevereiro de 2015. Mas faleceu em janeiro de 2011. O primeiro suplente, Clésio Andrade assumiu o mandato até julho de 2014, quando renunciou para dar a cadeira ao senador Antonio Aureliano, que era do PSDB. Ainda naquela legislatura, houve mais movimentação na suplência da representação mineira.
Nas eleições de 2010, o ex-governador Aécio Neves (PSDB) conquistou a primeira cadeira e o ex-governador Itamar Franco, então filiado ao PPS, atualCidadania, elegeu-se para a segunda vaga. Itamar faleceu poucos meses depois da posse, em julho de 2011. Assumiu o primeiro suplente, Zezé Perrela, que estava no PDT. Ganhou o mandato até janeiro de 2019.
Para a legislatura de 1999 a 2003, foi a vez de o senador José Alencar Gomes da Silva, então no PL, deixar a primeira suplência para Aelton Freitas, que era do PL. Alencar tomou posse na vice-presidência da República em janeiro de 2003 e Aelton Freitas seguiria na cadeira até o final do mandato em 2007. Nas eleições de 2006, conquistaram as duas cadeiras o ex-governador Eduardo Azeredo (PSDB) e Hélio Costa (MDB). Em julho de 2005 Hélio Costa assumiu o ministério das Comunicações. Wellington Salgado, primeiro suplente, foi chamado para a representação até março de 2010, quando Hélio Costa se desincompatibilizou, retornou ao Senado e concorreu ao governo de Minas.
Nas legislaturas mais recentes, houve menos movimentação entre titulares e suplentes. Eleito em 2014 para o mandato até 2023, o ex-governador Antonio Anastasia foi o nome indicado pelo Senado Federal para o Tribunal de Contas da União em fevereiro de 2022. Quem concluiu o mandato foi o primeiro suplente Alexandre da Silveira (PSD), atual ministro das Minas e Energia. Nesta legislatura, Carlos Viana se licenciou do mandato por 122 dias em 2024 para concorrer à Prefeitura de Belo Horizonte. Assumiu o primeiro suplente Castellar Guimarães Neto.
Duas são as cadeiras de representação de cada estado que estão em disputa nas eleições de 4 de outubro. Em Minas, causou constrangimento o arranjo nacional envolvendo a coligação do PSB com a Federação PT-PV-PCdoB para a indicação da empresária Luciana Duca Costa, mãe do presidente do PSB, Otacílio Costa, na primeira suplência da chapa de Marília Campos (PT) ao Senado. Pior do que acordos, clássicos para ampliar as coligações, é a indicação de parentes nas suplências.
Não apenas a vereadora de Belo Horizonte Professora Marli (PP), mãe do ex-secretário de estado de Governo Marcelo Aro (PP), é a primeira suplente na chapa dele ao Senado. Até aqui, em todo o país, ao menos 15 candidatos escolheram esposas, filhos, pais e irmãos. Michelle Bolsonaro (PL) indicou o irmão, enquanto Helder Barbalho (MDB) colocou o pai, Jader Barbalho (MDB), na chapa. Bia Kicis (PL) terá o filho e Ciro Nogueira (PP), o irmão. Serão parentes ou serão serpentes? Pouco importa: na dúvida, o eleitor vota em um e leva o almoço de domingo inteiro para Brasília.
Impugnação
O Ministério Público Eleitoral (MPE) pediu a impugnação do registro da candidatura de Eduardo Cunha, ex-presidente da Câmara. Fluminense, ele transferiu o domicílio eleitoral para Minas para concorrer a deputado federal, deixando para a filha e deputada federal Dani Cunha (PL), as bases eleitorais do Rio de Janeiro. O pedido de impugnação foi feito ao Tribunal Regional Eleitoral (TRE-MG), que intimou Cunha a prestar esclarecimentos, em até sete dias.
Condenação
Ao pedir a impugnação de Cunha, o MPE citou a condenação por improbidade administrativa que o ex-presidente da Câmara foi alvo, em 2019, após Ação Civil Pública que tramitou na 10ª Vara de Fazenda Pública do Rio de Janeiro. Cunha teve os direitos políticos suspensos por oito anos. Eduardo Cunha chegou a obter, em 2022, tutela provisória em decisão monocrática que suspendeu a pena aplicada e restabeleceu os direitos políticos. No entanto, o MPE recorreu e conseguiu manter as penalidades aplicadas anteriormente.
Inelegibilidade
Para pedir a impugnação, o MPE usou também a cassação de Cunha, na Câmara dos Deputados, em 2016, por quebra de decoro parlamentar. À época, o entendimento dado pela Lei Complementar 64/1990 previa que Cunha permanecesse inelegível até 2027. No entanto, a Lei Complementar 219/2025 alterou a contagem dos prazos de elegibilidade, estabelecendo que os oitos deveriam ser contados a partir da decisão que determinou a perda de cargo, e não mais o término da legislatura. No entendimento do MPE, a alteração não beneficia Cunha, que teve o mandato cassado antes da atualização das regras.
Troca
Anunciado como um dos candidatos do MDB ao Senado, o empresário do agro, Paulo Roberto, de Capinópolis, no Triângulo Mineiro, será substituído por Arcanjo Pimenta, presidente do MDB Afro no estado. Pimenta é advogado, membro da Comissão da Verdade da Ordem dos Advogados do Brasil e foi candidato a deputado federal em 2022.
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