Nos últimos anos, temos observado a sociedade se dividindo em grupos e a militância deixando de acreditar na mídia tradicional, que até então era referência para elas. Vemos pessoas acreditando nas ideias absurdas e surrealistas do bolsonarismo.


Pessoas próximas, pessoas que nós amamos, defendendo o indefensável, acreditando no inacreditável e deixando de nos ouvir, como se ali, naquelas cabeças, só existissem as palavras da famiglia ecoando como se tivessem sido hipnotizadas.


A obra de Freud, “Psicologia das massas e análise do eu”, e a de Zygmunt Bauman, “O mal-estar na pós-modernidade”, explicam essa necessidade de identificação e pertencimento que alimenta o bolsonarismo.


Freud diz que “a psicologia de massas trata o ser individual como membro de uma tribo, um povo, uma casta, uma classe, uma instituição ou uma parte de uma aglomeração que se organiza como massa em determinado momento, para um certo fim (instinto de rebanho, mente de grupo)”. É exatamente isso que percebemos no movimento hoje.


E quando não fazemos parte dessa massa bolsonarista, não conseguimos romper a barreira do diálogo, mesmo com as pessoas mais próximas e queridas. É como se tivessem deixado de ser elas mesmas para se tornarem uma alma coletiva partidária.


Essa alma as faz agir de forma bem diferente do que agiriam isoladamente; ficam irreconhecíveis. Somos seres relacionais, e este é um fator central para entender o alcance do bolsonarismo. Nós precisamos — algo muito evidente na adolescência — encontrar a nossa identidade para além das nossas referências de base, como pais e cuidadores. Precisamos nos descobrir.


Nós, humanos, procuramos um grupo com o qual nos identificamos e, principalmente, um grupo organizado em torno de um líder. Ficamos extremamente sugestivos sob uma liderança como a do clã Bolsonaro; ao integrar essa formação, nos permitimos agir como jamais agiríamos racionalmente.


O freio moral que nos faz ter consciência do que podemos ou não fazer em sociedade se dissolve na massa bolsonarista. É como se a responsabilidade individual deixasse de existir sob o pretexto de estar apenas "seguindo o líder".


A massa é anônima e, portanto, irresponsável. No bolsonarismo, o sentimento de responsabilidade desaparece: o indivíduo vira apenas mais um na multidão e sente um poder invencível, liberando impulsos reprimidos. Como hipnotizado, sem vontade e sem discernimento, ele passa a ser guiado pela sugestão e contagiado pelos sentimentos do grupo.


A capacidade intelectual da massa é nivelada por baixo. Podemos observar isso nas respostas dos adeptos quando questionados: repetem sempre o mesmo discurso pronto, como papagaios, sem aprofundamento ou embasamento, terminando com “essa é a minha opinião” ou “se informe”. Quando dizem “se informe”, referem-se a buscar fontes não confiáveis e bolhas que apenas confirmam o que querem ouvir.


Com a capacidade intelectual diminuída, somada ao sentimento de onipotência e à impulsividade, o movimento bolsonarista vai aos extremos: uma leve divergência vira ódio mortal. Para ter influência sobre essa massa, não são necessários argumentos lógicos; basta exagerar, usar imagens fortes e repetir exaustivamente os mesmos bordões.


Exercer o senso crítico torna-se um desafio complexo, pois o movimento natural é o de buscar essa identificação de grupo. Esse permanece sendo o nosso desafio: olhar para dentro de nós mesmos.

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* Texto baseado no livro de Sigmund Freud: “Psicologia das massas e análise do eu e outros textos analíticos” (1920-1923) – Obras incompletas de Freud, volume 15. Colaboração: Maria Angélica Tomás, psicanalista.

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