A falta de desejo sexual é uma questão feminina recorrente nas sessões de psicoterapia. Num recorte considerando relacionamentos monogâmicos e heterossexuais, a mulher deixa de sentir desejo pelo seu parceiro e sofre acreditando que ela está com algum problema fisiológico, talvez relacionado à menopausa, hormônios ou ao cansaço. A gente acha que o homem sofre com isso, mas a mulher sofre mais porque se sente responsável e é também responsabilizada pelo seu parceiro por essa falta de desejo.


À medida que as sessões de análise avançam, ela vai se dando conta de questões do relacionamento que a atravessam e fazem com que o desejo não se manifeste, embora ele esteja ali. Mulheres que passam dos 40 anos, em relacionamentos longos e estáveis não são mais aquelas jovens cheias de ilusões do início do casamento. Ela mudou, amadureceu, viveu, passou por dificuldades, criou filhos. Então ela se dá conta de que o parceiro ainda é o mesmo de anos, décadas atrás. Nos relacionamentos, uma pessoa demanda da outra, numa via de mão dupla, existe um equilíbrio. Quando essa relação de troca se transforma em uma relação de dependência onde um só entrega e o outro só recebe, ela se torna disfuncional. O parceiro se acomodou, se tornou dependente, deixou de ser marido e se colocou no papel de filho. O Tabu do Incesto é uma norma social universal, observada em quase todas as culturas do planeta e tem raízes profundas em nossa psiquê, segundo Freud em “Totem e Tabu”. Conscientemente a mulher sabe que ele não é filho, mas no inconsciente, já que ele age como filho e não como parceiro, o desejo por ele é reprimido.


O desejo está ali, contido, mas a admiração acabou e o parceiro deixou de ser o objeto do desejo. Sem admiração o relacionamento deixa de fazer sentido. O desejo guardado aparece no sonho, mostrando que a libido tem relação profunda com o inconsciente. Segundo Freud, “o sonho é a realização de um desejo”, um desejo de desejo. A libido feminina está ali, o problema, muitas vezes, é que o objeto do desejo dentro do relacionamento do casal não existe mais.


Seria possível recuperar a admiração para que o parceiro volte a ser o objeto de desejo da mulher? Não existe uma verdade, existem caminhos que podem ser percorridos, para resgatar ou não a relação. Para isso é preciso vontade e esforço de ambas as partes. A divisão de tarefas, a parceria e o diálogo entre os casais podem ajudar muito a melhorar essa questão. O problema, em geral, é que o marido exige mudanças, mas ele mesmo não quer mudar. Enquanto a mulher está sempre olhando para dentro de si, se questionando, o homem aprendeu que está sempre certo, que não precisa mergulhar dentro de si mesmo, que não precisa olhar para sua parceira como um ser desejante. Não consegue ver que ela tem suas próprias necessidades e não está ali apenas para atender às demandas do marido e da família.


Quando a mulher começa a olhar para suas próprias necessidades, seus próprios desejos ela vê seu parceiro com outros olhos. Ele pode escolher acompanhá-la, ouvi-la, estar com ela, ou pode escolher continuar como sempre foi. E se ele achar que ela precisa voltar a agir como agia antes, ela vai entender que não é centro de reabilitação, e vai desistir de continuar tentando plantar o seu desejo numa terra infértil.

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