Quando esta coluna for publicada, teremos, na véspera, derrotado a Noruega e passado para as quartas de final da Copa do Mundo masculina. Ou não. No futebol, tudo acontece, e as decepções, de certa maneira, formam parte da alegria. O elemento de imprevisibilidade é o que torna o jogo tão empolgante.
Quem poderia prever que a Alemanha, quatro vezes campeã, nossa algoz em 2014, em casa, no Mineirão, quando nos humilhou de 7 a 1, seria este ano eliminada já nessa fase nova, os 16 avos? Não chegou às oitavas de final. No entanto, esse resultado não era assim tão improvável. Depois de ganhar a Copa no Brasil, os alemães em 2018 e 2022 não haviam passado sequer da fase de grupos. Fomos desclassificados de maneira vexaminosa, em 2014, por um super-herói de pés de barro.
Este ano, nos 16 avos entre a Bélgica e o Senegal, foi o país africano que jogou melhor durante quase toda a partida. Terá relaxado na reta final, acreditando na vitória? O fato é que nos últimos minutos a Bélgica fez dois gols e empatou. Um pênalti nos acréscimos do segundo tempo da prorrogação eliminou o Senegal do torneio.
Em um dos meus grupos de WhatsApp, houve protestos de que a concessão do pênalti à Bélgica fora indevida. Analistas especializados parecem discordar, assim como meu genro, que é belga.
Tenho me pegado cantarolando, em Luanda, o bordão: “Todo mundo tenta, mas só o Brasil é penta”. Os comentaristas do canal brasileiro pela qual venho assistindo aos jogos disseram, depois da vitória sobre o Japão: “Não é a Seleção de antigamente, mas é a seleção do único país cinco estrelas, minha gente, e isso impõe respeito”.
Recomendo um documentário em um serviço de streaming intitulado “USA 94: Brazil´s Return to Glory”. É fascinante observar como, na preparação para a Copa masculina de 1994, nos Estados Unidos, que viríamos a ganhar – nossa quarta estrela – Carlos Alberto Parreira era criticado. Errara ao convocar alguns jogadores, errara ao não convocar outros. É um hábito brasileiro: até fazermos o primeiro gol, tudo está péssimo, falta entrosamento no time, determinados jogadores não dizem a que vieram, o técnico não está à altura — pobre do técnico, quem quer que ele seja; compete com outros 220 milhões de especialistas. Mas aí ganhamos o jogo, e isso só pode ser, afirmam os mesmos críticos de alguns minutos atrás, porque estamos rumo ao troféu.
No exterior, a admiração pela nossa Seleção é em geral consistente. Em países que não se classificam para o torneio, é comum a população torcer pelo Brasil. De quatro em quatro anos, desde 2006, nós os frustramos, mas a sua lealdade é indefectível.
Em 2022, na Malásia, fui convidado pelo prefeito de Kuala Lumpur a assistir à partida das quartas de final contra a Croácia em um telão na Praça da Independência. Acompanharam-me vários amigos malásios que apostavam no Brasil. A Malásia nunca participou de uma Copa do Mundo; seu povo gosta da Seleção e, na sua maioria, torce por ela. Ou assim me diziam meus interlocutores. Mas quem sabe, talvez o embaixador da Argentina ouvisse as mesmas palavras gentis dos seus próprios amigos.
Em todo caso, a população presente à praça, naquele jogo de quartas de final, claramente queria ver o Brasil triunfar. Chovia muito. À medida que o jogo se desenrolava, a chuva ia passando e a multidão na praça aumentava. Sentia-me desapontado com a atuação da Seleção. Ao mesmo tempo, percebi estar reagindo de forma tipicamente brasileira: se o gol não viera ainda, só podia ser porque o time não estava bem. Notei algo, porém: o ânimo na praça mudara. O público já não torcia pelo Brasil, começara a acreditar na Croácia.
Impressões nem sempre são subjetivas. Naquela noite, era impossível eu não constatar que os lances sendo aplaudidos eram agora os da Croácia. O prefeito já não conversava comigo animadamente, como no começo do jogo. No intervalo, meus amigos, já desapontados, me ofereceram palavras de estímulo.
Ao final da partida, depois dos pênaltis, cumprimentei o embaixador da Croácia fazendo uso de termos diplomáticos e elogiosos. Esperava ouvir de volta algo como “vocês também jogaram bem”. Em vez disso, meu colega croata respondeu, esfuziante: “Não falei, quando cheguei? Não falei? Eu disse que se fôssemos para os pênaltis a gente ganharia! Eu sabia! Nosso goleiro é o melhor do mundo”. Não levei a mal. Se nós, brasileiros, nos ufanamos de nossa Seleção, é natural que outras nacionalidades façam o mesmo com as suas.
Também naquele ano de 2022, pouco antes de a Copa ter início, eu lera o livro de memórias do historiador malásio Khoo Kay Kim. Frases inesperadas, naquele contexto, apareceram diante de mim: “Foi também em 1958 que tive a revelação da Seleção brasileira, ao assistir à Copa do Mundo, que ela ganharia. Nunca eu vira futebol ser jogado daquela maneira. A Copa, assim, expandiu meu universo. Até então, o Brasil era para mim um país de que eu apenas ouvira falar em aulas de geografia”.
Durante a infância e a adolescência, onde quer que estivesse no nosso planeta, ao voluntariar minha nacionalidade eu recebia, sistematicamente, uma única reação: “Brasil! Terra do Pelé!”. Edson Arantes do Nascimento, adorado no exterior, simbolizou sozinho, durante décadas, aos olhos do mundo, um país inteiro. No fim das contas, esse é o papel único que a Seleção e suas estrelas exercem, com suas vitórias e suas derrotas, suas glórias e suas tristezas: um elemento de poder brando, uma alegoria de Brasil. Talvez ganhemos o hexa este ano ou no futuro, talvez nunca. A Canarinho continuará, porém, a exercer o seu fascínio, galvanizando-nos, os brasileiros, e gerando, em outros países, amizade por nós.
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O embaixador Ary Quintella escreve quinzenalmente no Estado de Minas. Seu livro “Geografia do tempo” foi finalista, em 2025, do Prêmio Jabuti.