Kishore Mahbubani é um dos analistas de relações internacionais mais lúcidos da atualidade. Diplomata de carreira aposentado, foi, por duas vezes, embaixador de Singapura junto às Nações Unidas, inclusive no único período em que o país integrou, como membro não-permanente, o Conselho de Segurança.


Seus livros abordam a ascensão contemporânea da Ásia, detêm-se sobre a evolução econômica da Associação de Países do Sudeste Asiático (ASEAN) e examinam as repercussões da rivalidade entre China e Estados Unidos. Até agora, traduziu-se no Brasil apenas um deles, com o título "A China venceu? O desafio chinês à supremacia americana".


Mahbubani lançou, em 2024, um livro de memórias notável, "Living the Asian Century: An Undiplomatic Memoir". Melhor subtítulo não poderia haver, porque o autor fala de sua vida pessoal e de sua trajetória profissional com surpreendente transparência. Lembro que, na ocasião, o jornal The Straits Times, de Singapura, apontou o quão fora do comum era a sua candura, para padrões daquela sociedade.


A verdade, porém, é que não conheço nenhum livro de memórias de diplomata, mesmo aposentado, tão sincero como esse. Diplomatas tendem a maximizar seus feitos e a relativizar seus desapontamentos. A vaidade é um traço usual da prática diplomática, e não é a aposentadoria que mudaria essa característica.


Kishore Mahbubani, ao contrário, fala com naturalidade de suas dificuldades familiares e suas frustrações e dúvidas profissionais. Trilhou, no entanto, uma carreira extremamente bem-sucedida. Além de servir duas vezes como representante permanente de seu país junto às Nações Unidas e de presidir o Conselho de Segurança, foi secretário permanente da Chancelaria, segundo cargo na hierarquia do serviço exterior.


Mahbubani foi o primeiro reitor da Lee Kuan Yew School of Public Policy, um dos principais centros asiáticos de ensino de políticas públicas. Seus livros, traduzidos e estudados no mundo inteiro, são respeitados pela clarividência política. Fica claro, da leitura das suas memórias, que os êxitos que colheu na diplomacia valem, para ele, tanto quanto, mas não mais do que seus sucessos acadêmicos.
É também um palestrante requisitado no circuito internacional. Em 2023, em Kuala Lumpur, assisti a duas apresentações suas, uma delas intitulada "Quando os elefantes brigarem, será a ASEAN pisoteada", sendo os elefantes, naturalmente, a China e os Estados Unidos. Minha mulher, que então trabalhava em Singapura, e o conhecia pessoalmente, já havia me recomendado suas obras. Palestrando e circulando em um palco, falando sempre sem notas, Kishore Mahbubani é uma presença carismática. Em 2024, reunião que organizei em minha casa em torno a ele transformou-se em um momento memorável para os presentes.


O diplomata e acadêmico nasceu em 1948, em uma Singapura ainda sob domínio britânico, para onde seus pais, hindus de origem sindhi, haviam emigrado. Sob qualquer critério, seu começo de vida foi penoso: faltava dinheiro e o pai enfrentava problema de alcoolismo. Frequentar uma biblioteca pública ampliou seus horizontes. Sua grande inteligência e força de caráter fizeram o resto.
A sua história de superação mantém um paralelo com a própria história do país. Singapura, ao se tornar independente em 1965, via-se rodeada por Malásia, de que se separara, e Indonésia, países com muito mais recursos e muito mais populosos. De forma quase inverossímil, o país soube contornar uma situação de pobreza real, em meio a imensas desvantagens, para transformar-se, em poucas décadas, em uma das nações mais prósperas do mundo.


O próprio autor sugere esse paralelismo: "Duas separações trouxeram calma à minha vida: a da minha mãe do meu pai, em 1962, e a de Singapura da Malásia, em 1965".


O desenvolvimento de Singapura deveu-se ao pulso firme de Lee Kuan Yew, primeiro primeiro-ministro do país, e do time que convocou para formar seu governo. Juntos, imprimiram ao país uma ética inflexível de trabalho e responsabilidade, presente ainda entre os singapurenses. A imagem de Lee Kuan Yew paira sobre o livro de memórias de Kishore Mahbubani. Entrevistado, uma vez, pelo líder, que desejava testar sua capacidade para um cargo, este lhe perguntou: "por que você não tem nenhum amigo?". Imagine o que não será ouvir do chefe de governo de seu país essa pergunta, em uma entrevista de que depende o seu futuro profissional.


"Living the Asian Century" é de fato “undiplomatic”, ao articular verdades do relacionamento internacional que poucos se atrevem a encarar. "As grandes potências sempre colocarão seus interesses à frente de princípios, ao lidar com estados menos importantes", diz a certa altura. Outra realidade apontada é a impossibilidade de que as regras pouco democráticas de funcionamento do Conselho de Segurança sejam modificadas por seus membros não-permanentes. Quando presidiu o Conselho, Mahbubani tomou iniciativas que provocaram, na delegação da França, membro permanente, o seguinte comentário: "Por que esses turistas pensam que podem entrar na nossa casa e rearrumar os móveis?".


O livro condena a figura do ator diplomático que pauta sua atuação externa pela ambição de relevância política na esfera doméstica, buscando agradar a determinados setores internos. Cita como exemplo Jeane Kirkpatrick, temível embaixadora de Ronald Reagan junto à ONU. Nessa posição, estima Mahbubani, ela "sacrificou os interesses dos Estados Unidos para servir à sua agenda ideológica estreita e sua ambição pessoal de chegar mais alto em Washington".


Em Singapura, ao contrário, avalia o autor, objetivos de longo prazo para o bem público sempre terminarão por predominar sobre considerações pessoais de curto prazo.


As memórias terminam com o comentário de que o caminho traçado pelo autor "da pobreza à fartura, do desconhecimento à educação e à curiosidade intelectual" é agora replicado "por milhões, se não bilhões de outros asiáticos". Considera que sua posição como "pioneiro nesse renascimento da Ásia" tem sido "um dos maiores privilégios e realizações" de sua vida.

 

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Quando esta coluna for lida, estarei viajando para o casamento de minha filha. Por algumas semanas, assim, estarei ausente destas páginas.

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O embaixador Ary Quintella escreve quinzenalmente para o Estado de Minas. Seu livro "Geografia do tempo" foi, em 2025, finalista do Prêmio Jabuti.

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