Em Paris, pouco antes do Natal, minha mulher e eu começamos a esbarrar em Wagner Moura na rua por toda parte. Aonde quer que fôssemos, lá estava ele. A afirmação não é delirante e reflete a verdade. Só não deve ser tomada de maneira absolutamente literal. O que víamos não era o ator em carne e osso, mas o pôster promovendo a próxima chegada de “O agente secreto” aos cinemas da capital.
A foto, onipresente, mostrava Marcelo, seu personagem, com ar enigmático, fazendo jus ao título de maneira mais direta do que o próprio filme. O pôster ostentava-se em várias das célebres “colonnes Morris”, as estruturas cilíndricas usadas em Paris para anunciar estreias de filmes e de peças de teatro.
Presentes na paisagem urbana parisiense há 150 anos, as colunas são citadas por Marcel Proust. Em “Para o lado de Swann”, o narrador nos conta como, ainda criança, já amava o teatro, de um “amor platônico, pois meus pais nunca tinham me permitido ir” e como toda manhã “corria até a coluna Morris para examinar os espetáculos que ela anunciava”.
Sempre associo a Proust esses cilindros parisienses de topo verde-escuro e quase quatro metros de altura. Vê-los é como comungar de um momento lúdico com o narrador de “À procura do tempo perdido”. Na minha percepção, adquiriram, desde dezembro, valor adicional.
Foi no Rio, algumas semanas depois, um Rio vibrante de turistas, de calor intenso, praias lotadas mesmo à noite e calçadões congestionados de pedestres, que assistimos ao filme de Kleber Mendonça Filho. Em coluna anterior, “Belém, capital do mundo”, publicada durante a COP30, lembrei que, em 2023, ao criar o Festival de Cinema Brasileiro na Malásia, escolhi uma retrospectiva dos filmes do cineasta para a primeira edição do evento.
Sobre “O agente secreto”, tudo já foi dito, no Brasil como no exterior. Independentemente do que acontecer na noite do Oscar, o longa-metragem brasileiro consagrou-se pelas múltiplas críticas elogiosas e indicações e prêmios recebidos. Tornou-se um fenômeno cultural. Minha opinião a respeito, portanto, soaria supérflua.
Mas não resisto a comentar uma cena. Muito já se falou do clima de angústia e opressão transmitido pelo filme. Um amigo mais velho, cinéfilo, me disse: “Kleber captura exatamente a experiência de viver no Brasil naquela época”. A cena que desejo mencionar, no último terço de “O agente secreto”, é uma das passagens em que se sente mais fortemente o suspense, a ameaça da violência física iminente.
Marcelo está no seu pretenso local de trabalho, um instituto de identificação, e examina fichas em armários de metal. Está mergulhado em luz. No outro extremo, mais escuro, da mesma sala, pessoas do público, em pé, esperam para recolher suas carteiras de identidade. Entre eles, um matador de aluguel – interpretado por Kaiony Venâncio – observa Marcelo, tentando comprovar se ele é de fato o alvo encomendado. Há, assim, dois ambientes bem definidos no mesmo recinto.
A movimentação intimista, resguardada do personagem de Wagner Moura enquanto é visto por todos no espaço iluminado, a presença do assassino examinando a sua vítima, a tensão palpável, fizeram-me pensar em Alfred Hitchcock. Deduzi que Kleber Mendonça Filho estava, de alguma forma indefinível, conferindo ao ator ao mesmo tratamento que Hitchcock dera na tela, em diferentes obras, a James Stewart e a Cary Grant.
Isso me pareceu algo extraordinário, pois meu amor pela obra do diretor inglês é profundo, particularmente os filmes estrelados por esses dois atores. Na filmografia de Hitchcock há aliás um “Agente secreto”, de 1936. Em casa, após a sessão, pesquisando conjuntamente os nomes dos diretores, o inglês e o brasileiro, encontrei a observação de críticos franceses de que o momento inicial, quando Marcelo se depara no posto de gasolina com um cadáver abandonado, é uma referência a “O terceiro tiro” (“The Trouble with Harry”), de 1955.
Mais relevante foi descobrir, em entrevista de Kleber Mendonça Filho a um portal americano, que ele, durante as filmagens, conversara com Wagner Moura sobre o carisma de Cary Grant em “Intriga internacional” (“North by Northwest”, 1959), “um filme diferente, de tom diferente” do seu, mas onde o personagem central “nunca entende realmente o que está acontecendo à sua volta”, assim como “o de Wagner, em vários momentos, tampouco entende”. Em outra entrevista, o diretor declara ser “Janela indiscreta” (“Rear Window”, 1954), estrelado por James Stewart e Grace Kelly, um de seus filmes prediletos.
Nessa cena específica no instituto de identificação, quis ver também uma coreografia digna do teatro, o que me permitiu pensar em Hitchcock sob uma nova perspectiva. Somos, como o assassino, como as pessoas esperando suas carteiras de identidade, o público de uma peça estrelada por Wagner Moura, que, inquieto e procurando aparentar calma, move-se na luz, como em um palco. Quando o matador grita “Armando”, verdadeiro nome de Marcelo, para testar se é ele mesmo, o personagem hesita apenas um segundo e finge recuperar a placidez.
Suas mãos abrem ou fecham as gavetas nos armários metálicos com apenas uma sombra de nervosismo. Resiste à tentação de verificar quem conhece sua identidade real. Marcelo simultaneamente reage e não reage, com uma rápida expressão no rosto aqui, um gesto controlado ali. Ao sair pelo fundo da sala, contendo a ansiedade, acelerando levemente o passo, ele olha de relance para trás, em direção ao público que espera as identidades, em nossa direção, sem realmente nos encarar, mas nos revelando a expressão indagadora do seu rosto e nos permitindo, com isso, pela fração de um momento, uma interação com o personagem.
Nem que fosse apenas por essa cena, a qual, tenho certeza, será objeto das análises dos estudiosos de cinema do futuro, Wagner Moura já mereceria todos os prêmios. Em “O agente secreto”, temos um artista em perfeito controle do seu ofício.
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Diplomata de carreira, o embaixador Ary Quintella escreve quinzenalmente para o Estado de Minas. Seu livro “Geografia do tempo” foi, em 2025, finalista do Prêmio Jabuti
