Houve um tempo em que a pergunta mais comum à mesa era, simplesmente, “está gostoso?”. Hoje, basta abrir qualquer rede social para perceber que a conversa mudou completamente. Em vez de elogiar o tempero ou perguntar o segredo da receita, queremos saber quantos gramas de proteína há naquele prato, a quantidade de carboidratos, o índice glicêmico do alimento e se ele se encaixa na dieta. Parece que as pessoas desaprenderam como comer. Mais que isso, transformaram uma das experiências mais naturais e prazerosas da vida em conta matemática.
O pão francês não é mais o delicioso pãozinho para comer com manteiga e um café. Virou carboidrato. O arroz é vilão para muitos, indispensável para outros. O feijão, agora, é excelente fonte de proteína vegetal. A banana está importante, fonte de potássio; abacate tem gordura boa; ovo é superalimento. O café da manhã mais parece aula de nutrição.
Claro que entender o valor nutricional dos alimentos é importante. A ciência avançou, e isso trouxe benefícios inegáveis. Hoje, sabemos que alimentação equilibrada pode prevenir doenças, melhorar a qualidade de vida e até aumentar a longevidade. Pessoas com diabetes, hipertensão, colesterol alto ou outras condições médicas dependem desse conhecimento para viver melhor. O problema não está na informação. O problema começa quando ela vira obsessão.
Vivemos numa época em que tudo precisa ser medido, pesado, registrado e compartilhado. Aplicativos contam calorias; relógios inteligentes calculam o gasto energético; aplicativos ensinam a montar pratos quase perfeitos, com a quantidade exata de proteínas, carboidratos e gorduras. Comer deixou de ser necessidade ou prazer. Virou desempenho.
É como se toda refeição precisasse ser justificada, como se o prazer de comer exigisse um pedido de desculpas. Essa mentalidade mudou a forma como enxergamos os alimentos. Eles deixaram de carregar apenas sabor, história e cultura, tornando-se números.
O prato de macarrão já não lembra apenas o almoço de domingo em família, mas a quantidade de carboidratos. O pedaço de bolo não nos faz recordar a receita da avó, agora se resume a farinha, açúcar e calorias. Frutas passam a gerar discussões sobre frutose, fibras e índice glicêmico.
É claro que atletas e pessoas com objetivos específicos precisam prestar atenção à alimentação. Mas a maioria de nós não vive de competir. Vive de trabalhar, estudar, cuidar da casa, dos filhos e tentar encontrar pequenos momentos de felicidade em meio à rotina. E a comida faz parte dessa felicidade.
Alimentação não é só combustível para o corpo, é memória, afeto, celebração. O cheiro de um bolo assando pode transportar alguém para a infância. O arroz com feijão continua sinônimo de conforto. O churrasco reúne famílias. A feijoada aproxima amigos. O café passado na hora abre conversas que duram horas.
Isso não significa desprezar a ciência ou ignorar a importância da alimentação saudável. O que precisamos reaprender é que saúde também passa pelo equilíbrio. Nem tudo deve ser fitness. Nem toda sobremesa é pecado. Nem todo carboidrato é vilão. O maior desafio é encontrar o equilíbrio entre informação e bom senso.
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* Isabela Teixeira da Costa/Interina
