Há muitos anos ouço falar de apneia, pessoas conhecidas relatando que diversas vezes acordaram parecendo estar sem ar, com sensação de sufocamento. Isso aconteceu comigo algumas vezes, quando era obesa. E sempre alguém diz: isso é apneia, que deve ser tratada porque é muito perigosa.
Nunca atentei muito para a questão, até uma parente decidir fazer o exame e pedir minha ajuda. Fui eu quem a levou à clínica do sono, de pijama, para que lhe colocassem a parafernália da polissonografia. Vários fios, parecidos com aqueles do eletrocardiograma, são ligados em partes do peito e da cabeça. O paciente recebe um medidor no dedo e a máquina de leitura na cintura. A pessoa sai de lá tipo um robô, dorme em casa e no dia seguinte volta para retirar tudo.
Tenho de confessar: não sei como ela conseguiu dormir com tudo aquilo no corpo, mas conseguiu.
O resultado foi assustador: 35 apneias por minuto. Sabe o que é isso? Em 60 segundos, ela perdia o ar 35 vezes. Teve de passar a dormir usando um equipamento chamado CPAP.
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Tenho uma amiga que há alguns anos mal dormia. Passava a noite trabalhando, o que estava preocupando todo mundo. Ela sempre dizia que estava sofrendo de insônia e estresse. Acreditamos, pois vivia uma fase pesada com os pais idosos. Ambos faleceram.
Nos encontramos esta semana e tive uma boa notícia: ela está dormindo bem. Motivo: fez exame na clínica do sono e descobriu que estava tendo 97 apneias em um minuto. Socorro! Se eu já achava 35 uma enormidade, imagina 97!!! Foi usar o CPAP e quase zerou.
Este caso me fez pensar em como o nosso corpo se protege, pois tirava o sono dela para evitar algo mais grave. Fiquei imaginando qual é a sensação de uma apneia. O quarto escuro, silencioso, mas não é o calmo silêncio do descanso. É um corte na respiração. A pessoa, na verdade, está mergulhada em uma batalha inconsciente pela sobrevivência.
Essas interrupções ocorrem quando os músculos da garganta, o palato e a língua relaxam excessivamente, bloqueando total ou parcialmente a passagem do ar para os pulmões.
Quando a via aérea é obstruída, o fluxo de oxigênio cai drasticamente e o gás carbônico se acumula no sangue. Alteração química aciona o sinal de alerta no sistema nervoso central, que libera altas doses de adrenalina e cortisol.
Como consequência, os vasos sanguíneos se contraem, o coração acelera e a pressão arterial sofre picos elevados no meio da noite.
Para evitar a asfixia, o cérebro provoca um breve despertar físico, o microdespertar. O indivíduo não se lembra disso no dia seguinte, mas ele é suficiente para reativar a musculatura da garganta. O ar volta a circular com força, muitas vezes emitindo ronco alto, engasgo ou lufada de ar ruidosa. O ciclo se fecha apenas para recomeçar segundos depois.
O preço desta noite fragmentada é cobrado logo de manhã. A pessoa acorda com a sensação de ter trabalhado a noite inteira, carregando o peso do cansaço crônico. Tem sonolência durante o dia, o que prejudica o foco no trabalho e aumenta o risco de acidentes de trânsito. O humor oscila, a memória falha e a irritabilidade aparece por qualquer coisa.
Apneia pode provocar estresse cardiovascular crônico, hipertensão resistente e arritmias cardíacas severas. Os riscos de infarto e de AVC aumentam. O problema rouba a vitalidade diurna e encurta a vida de forma sutil.
Uma noite bem-dormida não é dormir seis ou oito horas. É permitir que o organismo descanse do dia anterior e se prepare para o dia seguinte. Tratar a apneia é afastar o perigo iminente. O ar deve fluir livre e leve, como a vida merece ser vivida.
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* Isabela Teixeira da Costa/interina
