O desconforto recente do deputado federal Nikolas Ferreira com a montagem das chapas do PL em Minas, exposto após críticas públicas às filiações feitas pelo partido, abriu um ruído interno. Nos bastidores, porém, a leitura vai além da disputa partidária. A avaliação é de que o parlamentar entrou em uma nova fase da carreira: a tentativa de construir uma vertente política própria. Isso também expõe as fragilidades de um projeto que, até aqui, foi sustentado quase exclusivamente pela força das redes sociais.

A eleição de 2026, nesse cenário, deixa de ser apenas uma disputa por reeleição. Passa a ser o momento em que Nikolas precisará provar que consegue transformar popularidade em estrutura.

O próprio deputado tem sinalizado essa direção. Em conversas recentes, afirmou que não pretende disputar o governo de Minas em 2026 e que o foco será a reeleição com a construção de base. O argumento é direto: sem um entorno político formado por pessoas do seu grupo, qualquer projeto majoritário se torna inviável.

A constatação revela uma limitação estrutural. Nikolas construiu a carreira a partir da mobilização digital, consolidou uma base ideológica nas redes sociais e, em 2022, converteu esse capital em mais de 1,3 milhão de votos, tornando-se o deputado federal mais votado do país. A ascensão foi rápida e sem a formação tradicional de quadros políticos.

Esse modelo produz votação individual, mas não necessariamente gera base. Prefeitos, vereadores, deputados e dirigentes partidários não surgem automaticamente de um fenômeno eleitoral. Eles precisam ser formados ao longo de ciclos eleitorais. É essa rede que garante presença territorial, influência institucional e sustentação para projetos de poder.

O primeiro ensaio ocorreu em 2024. Durante as eleições municipais, Nikolas percorreu o país, participou de campanhas e apoiou cerca de 68 candidatos a prefeito. O movimento foi tratado por aliados como um teste de capilaridade, mas, em termos proporcionais, ainda distante de uma estrutura consolidada.

A própria disputa dentro do PL ajuda a revelar esse limite. A leitura é de que a direção partidária tenta capitalizar a votação estimada de Nikolas para eleger outros nomes, enquanto o deputado tenta garantir espaço para aliados diretos. O receio é ver a própria votação elegendo parlamentares sem vínculo com o seu grupo, o que expõe uma dependência inversa: apesar do tamanho eleitoral, ele ainda não controla a estrutura partidária.

A fragilidade fica mais evidente quando observada à luz do desempenho legislativo. Um levantamento feito pelo jornalista Gabriel Ronan, do Estado de Minas, nesta semana, indica que, desde o início do mandato, apenas uma de suas proposições foi transformada em lei, e ainda assim em autoria coletiva. O dado reforça a crítica recorrente de que o mandato foi mais voltado à mobilização política e à comunicação do que à articulação institucional.

É nesse contexto que a eleição de 2026 ganha peso estratégico. A coluna apurou que aliados próximos, como o vereador Pablo Almeida, já manifestaram interesse em disputar vagas na Assembleia Legislativa, mas aguardam aval político. O pai do deputado, o pastor Gilberto Ferreira, também é citado por interlocutores como possível candidato, o que impõe ao parlamentar a tarefa de organizar prioridades dentro do próprio grupo.

A mudança de tom do deputado também foi observada nas últimas semanas. Conhecido por discursos duros e confrontos institucionais, tem adotado uma postura mais cautelosa em algumas declarações. Há quem diga que não basta caminhar 200 quilômetros para, de fato, se tornar relevante nos bastidores. A moderação não seria mudança ideológica, mas cálculo eleitoral.

Projetos majoritários exigem algo que a lógica das redes sociais não garante: capilaridade territorial, alianças estáveis e presença institucional. Sem isso, a votação individual tende a se esgotar no próprio mandato. A síntese é direta: até aqui, Nikolas mostrou que sabe se eleger. Falta provar que sabe construir poder.

 

BRUMADINHO

O ex-presidente da Câmara de BH Gabriel Azevedo (MDB) esteve em Brumadinho na quinta-feira (12) ao lado do prefeito Gabriel Parreiras (PRD) e de lideranças locais, em agenda de articulação política. O grupo que comanda a cidade tem forte presença do PSD, especialmente em torno de Guilherme Moraes, que, apesar de não ter sido eleito após questionamentos sobre o título eleitoral, mantém influência nos bastidores da prefeitura. Apontado como candidato ao governo de Minas pelo MDB, Azevedo vem intensificando agendas no interior e reforçando a imagem de articulador municipalista. Brumadinho é vista como uma cidade estratégica nesse movimento.

 

DE VOLTA

Já é dada como certa a saída da ministra dos Direitos Humanos e Cidadania, Macaé Evaristo, do cargo em março. A ideia é voltar para a disputa eleitoral e tentar a reeleição à Assembleia Legislativa de Minas Gerais em 2026.

 

IMPEDIDA

A deputada estadual Beatriz Cerqueira (PT) foi impedida de realizar, nesta sexta-feira (13), uma visita técnica às minas de Viga e de Fábrica, da Vale S.A., em Congonhas. A atividade havia sido solicitada por ela para verificar as condições de segurança das estruturas após extravasamentos de rejeitos registrados em janeiro de 2026. O objetivo era avaliar riscos à população, aos territórios e ao meio ambiente, além de conferir as providências adotadas pela empresa e pelos órgãos de fiscalização.

 

DISPUTA NO PL

O deputado federal Domingos Sávio, presidente do PL em Minas Gerais, é tratado como nome certo do partido na disputa pelo Senado em 2026. A movimentação não agrada ao deputado estadual Caporezzo, que deseja concorrer à segunda vaga. Dentro da sigla, a avaliação de parte da cúpula é que lançar dois nomes poderia dividir votos e enfraquecer o desempenho eleitoral. Ainda assim, o grupo mais ideológico do partido tem feito reuniões para tentar viabilizar a candidatura de Caporezzo, que conta com o aval do ex-presidente Jair Bolsonaro.

 

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AINDA EXISTE ESPERANÇA

Lula ainda pode recorrer a Kalil como opção de palanque em Minas. Nos bastidores do PT, a avaliação é de que o ex-prefeito de Belo Horizonte continua no radar, mesmo após as mágoas deixadas pela eleição de 2022. Integrantes do partido dizem que, caso Rodrigo Pacheco desista da disputa ao governo e o presidente fique sem um nome competitivo no estado, há espaço para reaproximação. A leitura é de que Kalil dificilmente dividiria o mesmo palanque com Lula, mas poderia aceitar um apoio indireto, em moldes semelhantes aos vistos em outras eleições recentes, como a de Fuad Noman em Belo Horizonte em 2024.

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