Você sai para passear com o cachorro, mas passa boa parte do caminho olhando para o celular. Está na academia, fazendo exercícios, enquanto pensa nas tarefas que ainda precisa resolver. Brinca com o neto, mas sua atenção está dividida entre a criança e os compromissos do dia seguinte. Estamos fisicamente em um lugar, enquanto nossos pensamentos nos levam para outro. Vivemos antecipando o que vem depois, lembrando o que passou ou tentando resolver mentalmente situações que ainda nem aconteceram.
Em meio a tantas exigências, como encontrar uma maneira mais serena de viver o cotidiano? Uma antiga filosofia chinesa, o taoísmo, oferece uma perspectiva sobre nossa relação com o tempo, os acontecimentos e aquilo que podemos ou não controlar.
O taoísmo tem suas raízes na China antiga e está associado aos ensinamentos de Lao-Tsé, pensador tradicionalmente relacionado ao Tao Te Ching, uma de suas principais obras. A palavra Tao pode ser traduzida como caminho. Na filosofia taoísta, esse caminho está relacionado à ordem natural da existência, aos movimentos e às transformações que fazem parte da vida.
Uma de suas ideias centrais é que podemos viver com mais serenidade quando aprendemos a reconhecer esses movimentos, em vez de tentar impor nossa vontade a tudo que acontece.
Observe a natureza. Uma árvore passa por diferentes ciclos. Há o tempo de crescer, florescer, produzir frutos e perder as folhas. Cada etapa tem suas condições. Não conseguimos antecipar o florescimento simplesmente porque desejamos que ele aconteça.
Entretanto, frequentemente queremos acelerar processos, antecipar resultados e controlar situações que não dependem apenas de nós. Queremos que os filhos aprendam no nosso tempo, que as dificuldades sejam resolvidas rapidamente, que as pessoas reajam como esperamos e que nossos planos aconteçam exatamente como imaginamos.
Quando a realidade não acompanha nossas expectativas, acrescentamos às dificuldades a irritação, a cobrança e a resistência ao que está acontecendo.
Um dos princípios do taoísmo é o Wu Wei, expressão frequentemente traduzida como não ação ou ação sem esforço. Seu significado vai além dessas traduções. É a capacidade de agir de maneira apropriada, sem tentar forçar os acontecimentos.
Isso não significa desistir, deixar de fazer escolhas ou permanecer passivo diante das dificuldades. Significa reconhecer o que podemos modificar, o que depende da participação de outras pessoas e aquilo que, naquele momento, precisamos aceitar.
Pense numa situação simples: você está numa fila que demora mais do que imaginava. Começa a olhar o relógio, fica impaciente, reclama mentalmente e pensa em tudo que poderia estar fazendo. A espera continua, mas agora você também está irritado.
Podemos agir quando existe alguma providência possível. Quando não existe, continuar lutando mentalmente contra a situação aumenta nosso desgaste sem alterar o que está acontecendo.
Outra contribuição da tradição taoísta aparece nos ensinamentos de Zhuangzi, filósofo chinês associado ao desenvolvimento dessa corrente de pensamento. Ele apresenta a ideia do jejum do coração, relacionada à possibilidade de diminuir a interferência dos julgamentos, das expectativas e das preocupações para perceber a experiência com maior abertura.
Durante uma conversa, antes mesmo de a outra pessoa terminar de falar, já estamos preparando uma resposta, interpretando suas intenções ou lembrando situações anteriores. Escutamos as palavras, mas parte da nossa atenção está ocupada com aquilo que pensamos sobre elas. Ouvir antes de responder, observar antes de concluir e reconhecer o que estamos sentindo pode modificar a qualidade da nossa participação nas relações.
Essa disposição também pode ser exercitada nas atividades mais comuns. Ao passear com o cachorro, observar o que desperta seu interesse, os lugares onde ele para, os cheiros que procura, além de perceber o movimento da rua e o ambiente ao redor. Ao brincar com uma criança, acompanhar suas descobertas, suas perguntas e a maneira como ela explora o mundo. Na cozinha, perceba os aromas, as cores e as transformações dos alimentos. São experiências simples que fazem parte da nossa vida e às quais nem sempre dedicamos atenção.
O mundo atual favorece a pressa e a antecipação. Planejamos o fim de semana durante a semana e, quando ele chega, começamos a nos preocupar com a segunda-feira. Estamos de férias e pensamos no trabalho que encontraremos na volta. Planejar é necessário, assim como aprender com o passado. Mas, quando nossa atenção permanece voltada para o que aconteceu ou para o que ainda virá, reduzimos o contato com a experiência que estamos vivendo.
A serenidade proposta pelo taoísmo não significa viver permanentemente tranquilo, sem preocupações ou dificuldades. Podemos sentir tristeza, impaciência, medo e frustração. Essa filosofia nos convida a reconhecer o que sentimos e a observar como reagimos às situações, sem transformar cada desconforto numa luta.
Podemos continuar cumprindo nossos compromissos, fazendo planos e buscando aquilo que desejamos, mas com maior atenção ao que está acontecendo enquanto a vida segue.
Quando estiver com alguém, escute. Quando estiver fazendo alguma coisa, perceba o que está fazendo. O cotidiano não é apenas o intervalo entre os grandes acontecimentos. É nele que convivemos, aprendemos, cuidamos, trabalhamos e construímos boa parte da nossa história.
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