Recebo no consultório uma queixa que se repete de diferentes maneiras: “Ele ou ela não me vê.” “Não sabe do que eu gosto.” “Não considera o que eu quero.” “Parece que meus desejos não importam.” São pessoas que, depois de anos de relacionamento, se sentem sozinhas dentro da relação.
Quando começamos a olhar para a história do casal, percebemos como essa pessoa foi deixando de mostrar o que queria. Isso não acontece de uma hora para outra. Para evitar uma discussão, cede. Para não desagradar, deixa de dizer o que pensa. Para manter a harmonia, aceita uma escolha que não gostaria de fazer. Algo incomoda, mas prefere não falar. “Para mim, tanto faz”, “Você escolhe”, “Deixa isso para lá”, “Pode ser o que você quiser”, “Não quero discutir”.
Ceder faz parte de qualquer relação. Porém, quando isso deixa de ser uma escolha e passa a ser uma maneira frequente de estar na relação, vamos deixando de participar das decisões que também dizem respeito a nós. Isso aparece nas decisões do cotidiano da vida a dois: onde passar as férias, como viver a intimidade, como usar o dinheiro, com quem conviver ou como tomar as decisões da casa.
Eu não digo o que quero porque espero que você perceba. Quando você não percebe, interpreto isso como falta de interesse, de cuidado ou de amor. “Depois de tantos anos, deveria saber.”
Mas como saber aquilo que não é dito? Quanto do que você deseja é realmente colocado na relação? Quantas vezes você fala sobre o que não gosta antes que o incômodo se transforme em ressentimento? Quantas vezes espera, em silêncio, que o outro perceba o que você gostaria que ele fizesse?
Isso não retira a responsabilidade de quem está do outro lado. Uma relação pressupõe interesse, atenção e disponibilidade para conhecer quem está conosco. Mas conhecer alguém também depende do quanto essa pessoa se permite ser conhecida. Além de olhar para o que o outro não enxerga, precisamos reconhecer o quanto deixamos de nos colocar e de mostrar quem somos na relação. Calar-se pode ter sido uma maneira de preservar vínculos, evitar brigas, não desagradar, buscar aprovação ou se proteger da rejeição.
Há pessoas que aprenderam desde cedo que discordar traz problemas, que dizer “não” provoca tensão ou que, para serem amadas, precisam ceder. Aos poucos, essa forma de agir começa a produzir solidão e distanciamento. Enquanto uma pessoa vai abrindo mão de escolher, a outra vai ocupando esse espaço. Decide o restaurante, as férias, os compromissos, como usar o dinheiro ou resolver os problemas.
Nesse processo, a queixa pode passar a ser: “Tudo tem que ser como ele ou ela quer”. Porém, essa forma de funcionar também foi sendo construída entre os dois.
Quem assumiu tantas decisões pode ter passado anos carregando uma responsabilidade que não gostaria de ter sozinho. Escolheu porque o outro dizia “tanto faz”. Tomou a frente porque, quando perguntava, ouvia “você que sabe”.
Nem todas as relações funcionam dessa maneira, mas reconhecer a nossa participação naquilo que hoje nos incomoda muda a forma como olhamos para a relação e para quem está ao nosso lado. Depois de muitos anos cedendo, começar a se posicionar pode dar medo de provocar uma discussão, desagradar ou mexer em uma relação que há muito tempo funciona dessa maneira. Mas não é preciso ter uma grande conversa ou falar de tudo o que ficou guardado durante anos. É possível começar observando a maneira de falar sobre o que acontece hoje.
Em vez de “Você nunca se preocupa com o que eu quero”, experimente falar sobre você: “Sinto que o que eu quero não está sendo considerado quando tomamos uma decisão sem conversarmos antes”.
Ao dizer como aquela situação me afeta, o que senti, o que me incomodou ou do que preciso, permito que o outro conheça algo sobre mim. Ele pode não gostar, discordar ou ficar chateado, mas agora sabe o que acontece comigo e como me sinto. Aprender a se colocar inclui falar sobre o que pensa e sente e permanecer na conversa mesmo quando existe discordância. A relação se torna mais real quando os dois mostram com clareza o que querem, o que aceitam e o que não negociam.
Esse aprendizado pode acontecer aos poucos. Escolher o restaurante. Dizer que naquele fim de semana prefere ficar em casa. Contar que determinado comentário incomodou. Dar uma opinião diferente. Pedir algo. Recusar. Falar sobre um desejo que há muito tempo espera que o outro descubra.
Para quem passou anos evitando se colocar, essas situações podem representar uma grande mudança. Ao começar a falar e perceber que a relação suporta uma opinião diferente, um pedido ou um “não”, ganha mais segurança para continuar a se posicionar.
O outro também pode receber essa mudança de uma maneira diferente da esperada. Pode sentir alívio por não precisar decidir tudo sozinho. Pode descobrir gostos, desejos e opiniões que desconhecia.
Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia
Quem passou anos dizendo “tanto faz” precisa reaprender a dizer “eu quero”, “eu não quero”, “eu gosto”, “eu penso diferente”, “isso me incomoda”. Reconhecer como fui deixando de aparecer nessa relação também me permite mudar a maneira como participo dela. Não é apenas o outro que precisa voltar a me enxergar. Eu também preciso voltar a me mostrar.