Dias atrás, recebi de um amigo uma provocação: “Você pode escrever algo sobre este nosso encontro; eu já estou escrevendo”.
Tínhamos acabado de passar alguns dias juntos, reunidos para celebrar o aniversário de um amigo muito querido, em sua casa, em Cabeça de Boi.
Éramos pessoas com histórias, idades, profissões, gostos e maneiras de viver bem diferentes, compartilhando pousadas, casas, mesas, passeios, cachoeiras, conversas, músicas e aqueles pequenos acontecimentos que só existem porque determinadas pessoas estiveram juntas naquele momento.
Meu amigo escreveu primeiro. Ao ler seu texto, uma passagem me chamou a atenção. Revendo as fotografias daqueles dias, ele percebeu que algumas registravam situações que não havia presenciado. Mesmo estando lá, partes daquele encontro tinham acontecido fora do seu campo de visão. Pelas imagens, pôde conhecer depois momentos que também pertenciam à experiência que havíamos vivido juntos.
Fiquei pensando nisso.
Podemos estar no mesmo lugar, durante os mesmos dias, cercados pelas mesmas pessoas, e ainda assim cada um voltará para casa levando uma experiência diferente. Eu me lembrarei de uma conversa. Outra pessoa guardará uma frase. Alguém se recordará da música que tocava. Outro, de uma brincadeira durante o almoço. Haverá ainda aquilo que aconteceu enquanto estávamos em outra mesa, envolvidos em outra conversa.
Ninguém leva consigo a experiência inteira. Levamos fragmentos. E não fazemos isso apenas com os encontros. Fazemos com a própria vida.
Nossa memória não funciona como um arquivo organizado no qual tudo o que vivemos permanece disponível em sua forma original. Há acontecimentos marcantes dos quais lembramos muito pouco e situações aparentemente banais que permanecem conosco durante décadas. Às vezes esquecemos uma viagem inteira, mas lembramos do cheiro de um lugar. Não conseguimos reconstruir uma conversa, mas uma frase permanece. Uma fotografia recupera uma cena. Uma música nos devolve a sensação de uma época.
Somos constituídos também por esses pedaços espalhados no tempo.
Nem todos os fragmentos da nossa história permanecem conosco. Existem partes da nossa própria história que vivem na memória dos outros.
Uma irmã se lembra de algo da infância que esquecemos. Um amigo nos conta como estávamos em determinada época. Alguém guarda uma fotografia de um momento do qual quase não nos lembrávamos. Um filho convive com uma versão nossa que nossos amigos jamais conheceram. Um colega de trabalho percebe aspectos nossos que não aparecem da mesma forma em outros espaços da vida.
Nenhuma dessas versões, isoladamente, contém quem somos. Mas todas participam de nós.
Os vínculos também fazem parte da construção da nossa identidade. Ao longo da vida, deixamos alguma coisa nas pessoas e recebemos delas tantas outras. Incorporamos expressões, referências, músicas, histórias, hábitos e conhecimentos. Algumas nos apresentam lugares. Outras nos aproximam de experiências que provavelmente não viveríamos sozinhos. Há aquelas que nos ajudam a reconhecer possibilidades que ainda não enxergávamos em nós.
Aquele encontro me fez pensar na imagem de um mosaico. Sua composição não nasce da igualdade entre as peças, mas da possibilidade de reunir diferenças sem apagá-las.
Naqueles dias, havia quem preferisse samba e quem esperasse pelo rock. Havia conversa, música, risadas e momentos em que cada um simplesmente encontrava seu lugar. Não precisávamos gostar das mesmas coisas, pensar da mesma forma ou possuir histórias semelhantes para estarmos bem juntos.
A proximidade não eliminava as diferenças. Era capaz de comportá-las.
Ali percebi outra dimensão dos fragmentos. Eles não estavam apenas na maneira como cada um se lembraria daqueles dias. Estavam também naquilo que constituía cada um de nós.
Cada pessoa havia chegado trazendo histórias conhecidas e desconhecidas, alegrias, perdas, cicatrizes, contradições, certezas e dúvidas. Nenhum de nós chegava ali como uma história linear e organizada. Somos constituídos por experiências e versões de nós mesmos que surgiram em diferentes momentos da vida. Algumas permanecem. Outras se transformam. Há partes que reconhecemos facilmente e outras que alguém nos ajuda a perceber.
Reconhecer que somos constituídos por fragmentos não significa considerar que nos falte algo. É abandonar a exigência de que tudo em nós precise formar uma narrativa perfeitamente coerente, resolvida e acabada.
Estar com pessoas que acolhem nossas diferenças também nos lembra disso. Não precisamos mostrar apenas partes de nós que pareçam coerentes entre si. Podemos ocupar nosso lugar e permitir que o outro também ocupe o seu.
Somos um mosaico em permanente composição. Há partes antigas, outras recentes, algumas marcadas pelo tempo. Novas experiências alteram esse arranjo, os vínculos acrescentam outras referências e aquilo que fomos continua participando daquilo que estamos nos tornando.
Seguimos levando fragmentos uns dos outros e deixando os nossos pelo caminho: uma conversa, uma música, uma lembrança, uma nova forma de olhar.
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Somos também feitos do que as experiências modificam em nós, do que os vínculos acrescentam e do que o tempo reorganiza.