Quando pensamos na velhice, é comum imaginá-la como uma etapa distante, que começará em algum momento do futuro. Existe quase uma linha imaginária separando a vida que levamos hoje daquela pessoa que seremos aos 70, 80 ou 90 anos.

Mas a velhice não começa no dia em que completamos 60 anos. Estamos envelhecendo enquanto vivemos.

A própria Organização Mundial da Saúde propõe uma compreensão do envelhecimento saudável a partir do curso da vida. Mais do que chegar a determinada idade sem doenças, importa preservar a capacidade funcional, ou seja, continuar podendo ser e fazer aquilo que valorizamos: tomar decisões, aprender, manter relações, cuidar das próprias necessidades, participar da sociedade e ter autonomia sempre que possível.

Essa perspectiva amplia a reflexão: não apenas quantos anos gostaríamos de viver, mas como gostaríamos de viver os anos que teremos.

Quando você imagina a sua velhice, o que gostaria de continuar sendo capaz de fazer?

Escolher os rumos da própria vida? Aprender algo novo? Morar sozinho? Encontrar amigos? Dirigir? Cozinhar? Continuar trabalhando de alguma maneira? Participar da vida dos filhos e dos netos sem fazer deles toda a sua vida?

O Brasil está envelhecendo rapidamente. Segundo projeções do IBGE, em 2070, cerca de 38% da população brasileira terá 60 anos ou mais. Estamos diante da possibilidade de viver cada vez mais. A questão é o que faremos com os anos que conquistamos.

Durante grande parte da vida adulta, aprendemos a nos preparar para o futuro principalmente do ponto de vista financeiro. Trabalhamos, construímos patrimônio, contribuímos para a aposentadoria e buscamos alguma segurança para quando deixarmos de trabalhar. Tudo isso é necessário. Mas existe outra preparação sobre a qual falamos menos.

Estamos preparando uma vida para depois do trabalho?

Durante décadas, o trabalho pode ocupar grande parte dos nossos dias e também da nossa identidade. Quando ele deixa de organizar a rotina, não desaparecem apenas compromissos e horários. Abre-se um espaço para outras fontes de interesse, pertencimento e sentido.

Não basta construir recursos para sustentar os anos que teremos. Também precisamos construir razões para vivê-los.

E essas razões não precisam estar associadas a grandes projetos. Propósito aos 70 ou 80 anos pode estar naquilo que continua despertando interesse pela vida: cuidar de um jardim, estudar história, aprender outra língua, escrever, participar de um grupo, cozinhar para a família, viajar e conhecer novos lugares, realizar um trabalho voluntário ou continuar exercendo uma atividade profissional em outro ritmo.

A curiosidade também pode ser cultivada ao longo da vida. Continuar interessado pelas pessoas, pelo mundo, por aprender, descobrir e experimentar nos mantém em contato com aquilo que ainda não conhecemos. Independentemente da idade, a vida pode continuar apresentando algo novo.

E se a curiosidade nos mantém abertos ao mundo, são os afetos que nos ancoram nele. Que relações estamos construindo enquanto ainda estamos ocupados demais para perceber o valor que elas terão ao longo da vida?

Há pessoas que investem durante décadas na carreira, nos filhos e nas obrigações, mas, aos poucos, deixam as amizades desaparecerem. Os filhos crescem e constroem suas próprias vidas. O trabalho termina ou passa a ocupar outro lugar. Alguns vínculos familiares se modificam.

Quem permanece?

À medida que percebemos que o tempo não é infinito, nossas prioridades também podem mudar. Algumas relações ganham importância, outras deixam de fazer sentido. Podemos sentir menos necessidade de agradar a todos e escolher com mais consciência onde queremos colocar nosso tempo e nossa energia. Reconhecer que o tempo é limitado também pode nos ensinar a utilizá-lo melhor.

Nada disso significa que podemos determinar como será a nossa velhice.

Construímos parte dela. Não construímos tudo.

Genética, doenças, perdas, acidentes, condições econômicas, acesso à saúde, ambiente, oportunidades e acontecimentos que não podemos prever também participam dessa transformação. As próprias condições em que cada pessoa envelhece são profundamente diferentes.

Reconhecer aquilo que não está sob nosso controle não elimina aquilo que podemos começar a construir hoje.

A velhice é futuro, mas parte dela está sendo construída no presente: nos vínculos que preservamos, nos interesses que cultivamos, na autonomia que exercitamos, na relação que estabelecemos com o trabalho, na capacidade de continuar aprendendo e nas escolhas que fazemos ao longo do caminho.

Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia

Se você pudesse encontrar hoje a pessoa que será aos 80 anos, o que ela agradeceria por você ter começado a construir agora? E o que acredita que ela gostaria que você tivesse começado a fazer diferente?

compartilhe