Algumas frases permanecem conosco muito depois que a sessão termina. Foi exatamente isso que aconteceu nesta semana, quando um senhor de 75 anos, convivendo com importantes limitações de saúde, compartilhou uma reflexão que me acompanhou pelos dias seguintes:

"Quando o homem perde a vaidade, ele está morto.”

Sua frase me fez olhar para o significado que atribuímos à vaidade. Aprendemos, desde cedo, a desconfiar dela. Durante séculos, ela foi associada ao orgulho, ao excesso e à superficialidade. Em uma época marcada pelas redes sociais, pelos filtros e pela busca incessante por aprovação, falar em vaidade parece remeter, quase sempre, à aparência, ao narcisismo e ao desejo de ser admirado.

Mas meu paciente não estava falando de nada disso.

Com a serenidade de quem conhece as próprias limitações, ele continuou: “Olha, faço um esforço danado para levantar da cama todas as manhãs. Tomar banho é um exercício. Me obrigo a fazer a barba, ir ao pilates, vestir uma roupa limpa que combina, que me deixa bem. Quando o homem começa a andar molambento, sem fazer a barba, cuidar dos dentes, de sua vaidade, ele está morto. Preciso encontrar forças para não me abandonar, cada uma dessas tarefas exige de mim um esforço enorme”.

A vaidade é um conceito presente praticamente em toda a história da humanidade. Já foi considerada um pecado, uma demonstração de status, uma estratégia evolutiva, um sintoma de insegurança e até uma expressão legítima do cuidado consigo mesmo.

Sua origem etimológica ajuda a compreender parte dessa trajetória. A palavra deriva do latim vanitas, que significa vazio, futilidade ou ilusão. Essa associação fez com que, durante muito tempo, a vaidade fosse compreendida principalmente como a valorização da aparência em detrimento da essência.

Entretanto, limitar a vaidade a essa definição significa reduzir um fenômeno muito mais complexo. O desejo de ser visto, valorizado e reconhecido é profundamente humano. Desde o nascimento, dependemos do olhar do outro para construir nossa identidade. O problema não está em desejar reconhecimento, mas em transformar esse reconhecimento na única fonte de valor pessoal.

A psicologia também nos mostra que a forma como cuidamos de nós mesmos costuma refletir nosso estado emocional. Em momentos de intenso sofrimento, como nos quadros depressivos, uma das manifestações mais frequentes é justamente o abandono gradual do autocuidado. 

Não porque a pessoa tenha deixado de valorizar o cuidado consigo mesma, mas porque lhe faltam energia, esperança ou sentido para investir em si mesma. A pessoa deixa de escovar os dentes, de pentear os cabelos, de escolher uma roupa, de preparar uma refeição ou de organizar a própria casa. 

Por outro lado, pequenos gestos cotidianos podem representar muito mais do que parecem. Tomar um banho, fazer a barba, passar um batom ou um perfume, vestir uma roupa de que gostamos ou simplesmente arrumar os cabelos dificilmente mudam as circunstâncias da vida. Ainda assim, podem transformar a maneira como nos colocamos diante delas. São gestos simples que reafirmam o vínculo que mantemos conosco.

Existe uma diferença importante entre cuidar de si para corresponder ao olhar do outro e cuidar de si para preservar a própria dignidade. No primeiro caso, o valor pessoal depende da aprovação, da comparação e do reconhecimento externo. No segundo, nasce da relação que construímos conosco. É um cuidado que não busca aplausos. Apenas expressa a decisão de continuar presente na própria vida. 

Com o envelhecimento, essa distinção torna-se ainda mais evidente. Quando o corpo perde força, a autonomia diminui e as limitações aumentam, continuar cuidando da própria aparência deixa de ser apenas uma questão estética. Passa a ser um gesto de resistência, de autonomia possível e de preservação da identidade. Uma forma de afirmar que somos muito maiores do que as perdas que o tempo inevitavelmente traz.

Ao sair daquela sessão, a primeira frase do paciente continuava me impactando: "Quando o homem perde a vaidade, ele está morto". Suas palavras deslocavam o eixo da vaidade: do olhar do outro para o olhar sobre si mesmo. Ele ressignificava a vaidade a partir da experiência concreta de alguém que lutava, todos os dias, para continuar vivendo.

Meu paciente tinha razão. Há uma vaidade que vive da aprovação e do desejo de ser admirado. Mas existe outra, que nasce da forma como escolhemos olhar para nós mesmos. É ela que nos faz levantar da cama, cuidar do corpo, escovar os dentes, escolher uma roupa, preservar a dignidade e continuar cuidando de nós, mesmo quando o esforço se torna maior do que antes.

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Enquanto não desistirmos de nós mesmos, continuaremos escolhendo a vida, um dia de cada vez.

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