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Estado de Minas ANTÁRTIDA

Aquecimento real


postado em 10/12/2019 04:00

Placas de gelo na Baía de Chiriguano, nas Ilhas Shetland do Sul, são um sinal preocupante do aquecimento na península antártica(foto: Johan ORDONEZ/AFP)
Placas de gelo na Baía de Chiriguano, nas Ilhas Shetland do Sul, são um sinal preocupante do aquecimento na península antártica (foto: Johan ORDONEZ/AFP)
 
A bordo do Roald Amundsen, não há pista de dança ou cassino, mas microscópios e experiências participativas. E conferências sobre baleias, grandes exploradores, Darwin... mas estranhamente quase nada sobre as mudanças climáticas, evocadas apenas em linhas pontilhadas. "Porque é bastante controverso", justifica Verena Meraldi, cientista-chefe da Hurtigruten. "Várias vezes tivemos conferências especificamente dedicadas às mudanças climáticas, mas isso cria conflitos."
 
Nessas terras imaculadas, a moda é cruzeiros intimistas, chamados de expedição, que rompem com o gigantismo dos cruzeiros de massa, criticados por seu lado poluidor e invasivo. Em navios mais limpos do que os mastodontes que navegam nos trópicos – o combustível pesado é proibido na Antártida desde 2011–, as companhias aumentaram a conscientização sobre questões ambientais como um argumento de venda que às vezes desperta acusações de 'lavagem verde'.
 
Expedição ao polo sul pode custar até 135 mil euros por pessoa(foto: Johan ORDONEZ/AFP)
Expedição ao polo sul pode custar até 135 mil euros por pessoa (foto: Johan ORDONEZ/AFP)
 
Se o Tratado da Antártida, assinado há 60 anos, transformou o continente em uma terra dedicada à paz e à ciência, o turismo também se desenvolveu. Com um claro impulso nos últimos anos. A única atividade econômica ao lado da pesca – alvo de um cabo de guerra internacional em torno da criação de santuários marinhos –, concentra-se principalmente na península, de acesso mais fácil e clima mais ameno do que o resto do território.
 
Nesse pedaço de terra que escapa do círculo polar e se estende em direção à América do Sul observa-se uma fauna que geralmente é vista apenas em zoológicos, documentários ou filmes de animação. Paisagens de gelo deslumbrantes, onde o branco toma tons pastel quando chega o amanhecer e o anoitecer. Colinas cravadas de sulcos como suspiros, cumes como chantili. "Pureza, grandeza, desmesura", descreve maravilhada Hélène Brunet, uma aposentada francesa de 63 anos. "É incrível, totalmente incrível. É um enorme prazer estar aqui."
 
Nem um lixo à vista. Mas por trás dessa limpidez estão, invisíveis, as marcas das atividades humanas.
Carregados pelas correntes oceânicas, os microplásticos estão por toda parte. "Detectamos nos ovos de pinguim", diz o diretor do Instituto Antártico Chileno, Marcelo Leppe. A Antártida é, acima de tudo, "o coração da Terra", ele explica. "Provavelmente, desempenha um papel importante no controle das mudanças climáticas".

Mas esse órgão vital é vítima do aquecimento. Em particular, a península, uma das regiões que se aquecem mais rapidamente. Quase 3°C nos últimos 50 anos, segundo a Organização Meteorológica Mundial (OMM), três vezes mais rápido que a média global. Em março de 2015, uma estação de pesquisa argentina chegou a medir 17,5°C. Nunca visto antes. "Todos os anos vemos as geleiras derretendo, o gelo do mar desaparecendo e, nas áreas sem gelo, a recolonização de plantas e outros organismos que não estavam presentes na Antártida antes", adverte Leppe.

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