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Estado de Minas

Microadesivos presos à orelha permitem controle de dispositivos eletrônicos com pensamento


postado em 14/06/2015 10:00 / atualizado em 14/06/2015 07:54

(foto: ARTE EM)
(foto: ARTE EM)


Brasília – Nada de controles remotos, gestos ou comandos de voz. Se depender de uma equipe de pesquisadores norte-americanos, nenhuma interface vai ficar no caminho entre a sua vontade e os seus dispositivos eletrônicos. Um sensor descrito em uma edição recente da Proceedings of the National Academy of Sciences (Pnas) permite ao usuário enviar ordens a equipamentos por meio de um simples sinal de pensamento, e de uma forma tão discreta que até parece mágica. Em vez de grandes capacetes cobertos de eletrodos, tudo o que o dono do equipamento precisa usar é uma pequena tatuagem colada à orelha.

O acessório é, na verdade, uma versão miniaturizada dos conhecidos sistemas de eletroencefalografia, que registram as correntes elétricas emitidas pelo cérebro. A diferença é que, agora, os pesquisadores conseguiram criar um sensor tão pequeno que ele mal pode ser visto – inclusive pelo usuário. Apesar de lembrar uma tatuagem, a solução tecnológica é um conjunto de adesivos composto por três eletrodos: um que fica colado à região auricular superior; outro, ao osso mastoide, atrás da orelha; e um terceiro ao lóbulo. Os componentes, feitos de ouro, são fabricados sobre um filme de polímero que se dissolve depois de aplicado no usuário.

Os adesivos permanecem presos à pele por até duas semanas. Podem ser usados durante a prática de exercícios físicos, na hora de dormir e até mesmo no banho. O adesivo só começa a se desprender da pele quando o processo natural de eliminação de células mortas descola a camada em que ele está fixado.

O acessório é totalmente biocompatível e antialérgico, já que não usa cola para se prender à pele. Conta com um sistema inspirado nos pés das lagartixas, com pequenas estruturas que se agarram naturalmente ao corpo sem machucar. Também é flexível, o que o ajuda a se manter no lugar mesmo quando a pessoa se movimenta. “O dispositivo não causa nenhum problema ou dano ao tecido”, ressalta Woon-Hong Yeo, professor da Virginia Commonwealth University e um dos autores do estudo.

Sinais específicos Nos testes, o aparelho gerou sinais tão bons quanto os dos equipamentos de eletroencefalograma (EEG) tradicionais. O sensor acusou mudanças que indicavam se os voluntários estavam fechando os olhos e permitiu que eles enviassem comandos para um sistema eletrônico. Com a ajuda de uma tela que alternava a exibição de várias letras, os usuários foram capazes de digitar a palavra “computador” usando apenas a atividade elétrica do cérebro.

No entanto, os pesquisadores e especialistas ressaltam que esse tipo de equipamento só pode alcançar tipos específicos de sinais: aqueles que podem ser captados pela orelha do usuário. “Essa mesma captura pode ser realizada com um EEG convencional, não há diferença no processo de aquisição”, explica Marilu Gomes da Silva, professora do Departamento de Engenharia Biomédica da Universidade Federal de Pernambuco (UFPB).

“Mas a aquisição apenas nesse ponto auricular não substitui a aquisição realizada em toda cabeça, ela funciona apenas para interfaces cérebro-máquina que usam potenciais visualmente evocados, que convencionalmente são realizadas na região occipital, na parte posterior da cabeça”, ressalta a especialista brasileira, que não participou do estudo. Interfaces que utilizam, por exemplo, sinais da imaginação do movimento para mover próteses ou cadeiras de rodas exigem um conjunto de eletrodos conectados em regiões diferentes da cabeça do usuário.

Os criadores da tecnologia acreditam que a invenção possa ser adaptada para o desenvolvimento de próteses mais simples e de máquinas inteligentes, assim como diferentes interfaces máquina-computador. “Mas, considerando a segurança dos dados, talvez precisemos adicionar um sistema para evitar invasões à rede sem fios”, pondera Yeo.

Por enquanto, o controle precisa ficar conectado a um computador com a ajuda de fios, mas os criadores da tecnologia trabalham em uma versão totalmente wireless, que poderá, inclusive, ser usada como ferramenta de monitoramento para pacientes que precisam acompanhar mudanças nos seus sinais cerebrais, como pessoas que sofrem com convulsões.

• No mercado, em 10 anos

O controle de dispositivos eletrônicos por meio de sinais cerebrais é um campo de pesquisa popular há décadas, mas somente nos últimos anos os teatrais capacetes e aparatos cobertos de fios têm sido substituídos por acessórios realistas. Pesquisas como a norte-americana trazem para a realidade um antigo desejo da população de conversar com as máquinas, e que em breve pode se tornar rotina tão comum quanto hoje são os smartphones.

Uma pesquisa feita pelo Instituto de Engenheiros Eletricistas e Eletrônicos (IEEE) indicou que a mente humana será a tecnologia de escolha para controle de dispositivos na vida cotidiana na próxima década. O levantamento, com mais de 3 mil especialistas do setor, mostra que a onda dos equipamentos vestíveis pode ser, na verdade, apenas um passo em direção a uma era em que humanos e máquinas vão se comunicar por meio do pensamento.

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