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Estado de Minas

Pesquisa põe segurança de cartão de crédito em xeque

Basta ter informações como a hora, o local e o valor de uma compra para acessar as movimentações financeiras de uma pessoa comum


postado em 03/02/2015 07:15 / atualizado em 03/02/2015 07:13

De acordo com o estudo, é m,ais fácil identificar pessoas que têm gostos muito regulares, como as mulheres (foto: JoYong - Hak/Reuters)
De acordo com o estudo, é m,ais fácil identificar pessoas que têm gostos muito regulares, como as mulheres (foto: JoYong - Hak/Reuters)
Com poucas informações sobre a rotina de uma pessoa, é possível localizar o cartão de crédito dela em uma base de dados anônima e rastrear cada compra feita com o meio de pagamento eletrônico. A descoberta é de pesquisadores do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), que analisaram os registros anônimos dos gastos de cartões de crédito de norte-americanos. De acordo com o experimento, publicado na revista Science, a prática não depende de dados pessoais — o número de identidade, por exemplo. Basta saber informações simples sobre a vítima, como em que região ela esteve, o valor médio das compras ou o horário em que a transação foi feita.


Para testar o grau de proteção oferecido ao consumidor comum, os pesquisadores analisaram por três meses os gastos de 1,1 milhão de pessoas. As informações usadas como base no estudo estavam registradas na Organização de Cooperação e Desenvolvimento Econômico, que usa um banco de dados anônimo e não registra mais do que o local, o horário e o valor da compra. Nomes, números de conta e outros dados pessoais não podem ser acessados por meio dessa lista.

Bastaram quatro informações espaço-temporais relacionadas aos gastos financeiros dos consumidores para descobrir a identidade de 90% deles. Seria possível identificar uma pessoa sabendo, por exemplo, que ela comprou um café na sexta-feira, que costuma almoçar em determinado restaurante, que frequenta as lojas de certo bairro e que adquiriu qualquer outra coisa às 10h de sábado. Depois de identificado o consumidor, é possível acompanhar todas as futuras transações dele.

Quanto mais dados sobre os hábitos de consumo de um indivíduo, mais preciso é o método. Ter a informação sobre o valor da compra, por exemplo, aumenta o risco de identificação em 22%. “Apesar de que saber a localização da loja de café em que eu vou e o horário aproximado em que eu estive lá nessa manhã ajude a me identificar, saber também o preço aproximado do meu café aumenta significativamente as chances”, exemplificam os pesquisadores, no estudo.

Principais alvos

De acordo com o experimento, esse sistema é particularmente eficaz com os dados dos cartões de crédito de mulheres e de pessoas de alta renda. O artigo mostrou que pessoas com esse perfil têm padrões mais específicos de consumo, o que as destaca mesmo em um grande banco de dados. “Deve vir do fato de a pessoa ter um limite maior no cartão e usá-lo para fazer mais coisas no dia a dia. Ela usa para fazer compras, almoçar ou passar no posto de gasolina; e, desse jeito, forma uma base de dados maior e fica mais fácil entender o comportamento dela”, aponta Omar Jarouche, gerente de Inteligência Estatística da empresa de prevenção a fraude no e-commerce ClearSale.

Os pesquisadores provaram ainda que mesmo informações pouco precisas podem ser perigosas para a privacidade do usuário. Eles testaram o método com dados que não especificavam o horário da transação, mas informavam em que dia o estabelecimento comercial havia sido visitado. Com algumas informações adicionais, ainda é possível cruzar os dados de baixa resolução para formar um retrato do consumidor.

Por enquanto, não há regulamentações nos Estados Unidos ou no Brasil que evitem que um método similar ao testado pelos pesquisadores do MIT seja usado para invadir a privacidade de um usuário de cartão de crédito. Mas o consumidor pode dificultar a sua rastreabilidade fornecendo o mínimo de informações sobre si. Certos cuidados, como ficar atento para o momento em que o cartão é creditado ou manter o código de segurança oculto para terceiros, são fundamentais. “Apesar dos cuidados necessários, ainda é um meio de pagamento importante e interessante de ser usado”, acredita Omar Jarouche.

 

Sem privacidade

O estudo do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) mostra como os bancos de dados colocam em risco a privacidade da população e alerta para a necessidade da criação de tecnologias de proteção conta dados aparentemente anônimos. Um método similar já foi usado para identificar pessoas com base em registros telefônicos protegidos, e poderia ser eficiente com qualquer meio eletrônico que registre os acessos do usuário.

A prática é relativamente simples e não muito diferente de um site de vídeos sob demanda ou de uma mídia social, que cria um perfil do usuário para sugerir anúncios com base nos seus hábitos. O simples uso de um meio eletrônico, explicam especialistas, automaticamente gera um grande volume de metadados que pode ser sintetizado e interpretado por um computador.

“Você pode encontrar isso em websites, em sistemas bancários ou em sistemas de transportes. Hoje em dia, a tendência é de que toda atividade humana seja registrada por algum tipo de tecnologia”, enumera José Rodrigues Júnior, professor do Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação da Universidade de São Paulo (ICMC-USP) em São Carlos. “Nossa vida é muito exposta. No Google Maps, no YouTube, em buscas na web, quando se faz compras. No celular, é pior ainda, porque tem um sistema de GPS que sabe poe onde a pessoa passou, fica tudo registrado em algum lugar”, alerta Júnior. (RM)

 

 

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