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Estado de Minas O IMENSO UNIVERSO SUBTERRÂNEO

Estudar a rica biodiversidade do solo é fundamental para entendimento do planeta


postado em 28/12/2014 09:50 / atualizado em 28/12/2014 10:00

(foto: Phillippe Huguen/AFP)
(foto: Phillippe Huguen/AFP)
Brasília – Sob nossos pés há um vasto e desconhecido mundo. Abaixo do solo, a vida é mais abundante e diversa que na superfície. Trata-se de um número incontável das mais variadas espécies de insetos, vermes, bactérias e seres microscópicos, que, além de oferecer dicas preciosas sobre o funcionamento dos ecossistemas, podem dizer muito a respeito da resposta das comunidades biológicas às mudanças climáticas.

“Indiscutivelmente, o solo representa o lugar mais diverso da Terra. Comunidades subterrâneas são extremamente complexas, com, literalmente, milhões de espécies e bilhões de organismos individuais compreendidos em um único hábitat. Eles variam de bactérias e fungos microscópicos a espécimes maiores, como minhocas, formigas e toupeiras”, afirma Richard Bargett, ecólogo da Universidade de Manchester, na Inglaterra.
Apesar dessa biodiversidade, o mundo abaixo do solo tem sido amplamente negligenciado pelos pesquisadores, diz ele. Contudo, na última década, Bargett observa um aumento substancial no campo de trabalho nessa área. “Está crescendo a consciência entre cientistas e formuladores de políticas públicas a respeito da importância da biodiversiade do solo para o fornecimento de bens e serviços à sociedade. Há uma nova geração de ferramentas disponíveis para avaliarmos a biologia do solo e o papel que ele desempenha na ecologia”, escreve o pesquisador em artigo publicado recentemente na revista Nature.

Interação
Bargett e Wim van der Putten, cientista do Instituto de Ecologia da Holanda, argumentam que é preciso pensar nas comunidades subterrâneas não apenas em termos da biodiversidade, mas também em como as respostas desse meio às mudanças climáticas impactarão os ecossistemas. “Esses organismos interagem entre eles e, de forma crucial, têm grande influência sobre a flora e a fauna acima da superfície”, observa Der Putten. “Por exemplo, um número crescente de estudos mostra que o controle das pestes que atingem as plantações é influenciado por organismos do solo. Isso suporta a visão de que grãos saudáveis requerem um solo saudável”, conta.

Ao longo dos últimos anos, a dupla de pesquisadores se dedica ao estudo mais aprofundado dos ecossistemas subterrâneos e tem feito diversas constatações. “Não apenas a gente, mas também outras equipes que se propõem a fazer esse tipo de pesquisa, se surpreende com resultados fascinantes. Uma pesquisa recente sobre a biodiversidade do solo revelou que comunidades subterrâneas não apenas desempenham um papel importante na biodiversidade das plantas e na forma como os ecossistemas funcionam, mas também determina como elas respondem às mudanças ambientais”, revela Bargett.

“Uma das áreas-chave para pesquisas futuras será integrar o que já sabemos sobre a diversidade do solo às decisões sobre sustentabilidade e manejo da terra”, acredita o pesquisador. “Há uma necessidade urgente de novas abordagens para a manutenção e a melhoria da fertilização do solo para produzir alimentos e biomassa, além da prevenção de doenças humanas e combate às mudanças climáticas. Como destacamos no artigo, uma nova era de pesquisa é necessária para ir ao encontro a desses desafios científicos e integrar esse conhecimento em estratégias de mitigação”, afirma.

Metano Na Universidade do Arizona, pesquisadores acabaram de constatar que uma única espécie de micróbio, até há pouco tempo desconhecida para a ciência, desempenha papel inesperado para as mudanças climáticas. Essa descoberta poderá ajudar a melhorar as simulações futuras de aquecimento global, acreditam os autores do estudo, também publicado na Nature.

(foto: Emmanuel Dunand/AFP)
(foto: Emmanuel Dunand/AFP)
No início do ano, eles descobriram que o micróbio batizado de Methanoflorens stordalenmirensis existia em abundância no permafrost da Suécia, que começou a derreter devido ao aumento da temperatura global. Os pesquisadores suspeitaram que o micro-organismo desempenharia importante efeito no aquecimento, ao liberar grandes quantidades de carbono estocado no solo próximo ao Círculo Ártico na forma de metano, um poderoso gás de efeito estufa. Contudo, o verdadeiro papel desse micróbio ainda era desconhecido até pouco tempo.

Os cientistas da Universidade do Arizona, em conjunto com colegas suecos, resolveram se debruçar sobre o M. stordalenmirensis e constataram que ele é, de fato, um grande liberador de carbono. Scott Saleska, professor do Departamento de Ecologia e Biologia Evolutiva, explica que micróbios que vivem no solo podem produzir metano de duas formas: a partir do acetato, uma molécula orgânica que vem das plantas, ou do dióxido de carbono e do hidrogênio. “Ambos os processos produzem energia para o micróbio, que expira metano da mesma forma que nós liberamos dióxido de carbono ao respirar”, diz.

No caso do Methanoflorens, a produção do gás ocorre a partir da ingestão de dióxido de carbono e hidrogênio. “Se você pensar em uma savana africana como analogia, pode dizer que tanto leões quanto elefantes produzem dióxido de carbono, mas eles comem coisas diferentes”, compara Saleska. “Descobrimos que esse micróbio é equivalente a um elefante: um organismo que desempenha um papel imensamente importante no que ocorre para todo o ecossistema”, exemplifica.

Para ele, o estudo deixa uma importante lição. “Há anos existe um debate sobre se a ecologia microbiana tem alguma importância para o ecossistema. Esse trabalho mostra que não só tem como a exerce em um grau muito grande. Precisamos prestar mais atenção aos tipos de micro-organismos que vivem nesses hábitats e como eles influenciam no processo de liberação de gases de efeito estufa”, observa. “Ao levar em conta a ecologia microbiana, teremos modelos climáticos mais precisos para identificar quanto metano vem do permafrost em derretimento, versus outras fontes de gases de efeito estufa, como a queima de combustíveis fósseis”, conclui.

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