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Estado de Minas

Novos estudos ajudam a combater a contaminação dos recursos hídricos

Estudos sobre o papel de substâncias húmicas na conservação de rios do Quadrilátero Ferrífero em relação ao arsênio presente na água, visam às novas formas de tratamento dos mananciais


postado em 22/12/2014 12:47 / atualizado em 22/12/2014 12:42

Bruno Freitas

Presença de arsênio é uma realidade nos rios da região (foto: UFOP/Divulgação )
Presença de arsênio é uma realidade nos rios da região (foto: UFOP/Divulgação )
Dinâmica já abordada em estudos anteriores, a forte presença de arsênio em rios de Ouro Preto, Mariana e Barão de Cocais, no Quadrilátero Ferrífero, vem sendo melhor compreendida depois de uma parceria entre as universidades Federal de Ouro Preto (Ufop) e Estadual Paulista (Unesp) – Câmpus Sorocaba. Pesquisadores de ambas as instituições desenvolvem estudos laboratoriais, cujo objetivo é verificar a relação das substâncias húmicas (SH) – oriundas do húmus, e parte da taxa de carbono orgânico dissolvido (COD) – na conservação das águas da região.

A seleção e a coleta de amostra de água e húmus em diferentes pontos com maior concentração de arsênio e/ou SH visa descobrir qual a influência dos elementos metálicos nos recursos hídricos. A partir dos primeiros resultados concretos, previstos para o fim de 2015, será possível propor novas formas de tratamento das águas dos mananciais e seus efluentes.

Os trabalhos são coordenados pelos professores Hubert Mathias Roeser, do Departamento de Engenharia Ambiental (Deamb) da Ufop, e André Henrique Rosa, da Unesp – com a colaboração dos departamentos de Geologia (Degeo) e de Química (Dequi) da universidade ouro-pretana. São medidos o pH, a temperatura e a taxa de COD, necessária para avaliar a qualidade da água em brejos, pântanos e empoçadas. Dependendo da concentração, a taxa favorece o acúmulo de elementos metálicos.

A existência de elementos como ferro e arsênio influencia diretamente no transporte, reatividade e toxicidade das substâncias húmicas no meio ambiente da região. A inexistência de pesquisas associadas ao comportamento do arsênio na matéria orgânica natural foi um dos motivadores para o grupo de pesquisa, que, há cerca de 20 anos, avalia a qualidade das águas nas cabeceiras do Rio Doce e seus principais afluentes – como os rios Piranga, Carmo, Gualaxo do Sul e do Norte, Piracicaba e Santa Bárbara. No início, eram examinados parâmetros físico-químicos e metais pesados nas águas e sedimentos. Posteriormente, os pesquisadores incluíram a microbiológica (estudo de bactérias) e aspectos hidrológicos. Durante um ano sabático na Alemanha, o professor Hubert Mathias Roeser vem se especializando em COD e substâncias húmicas aquáticas (SHA) para aprimorar as investigações, iniciadas em campo desde 2006.

Por enquanto, estão sendo feitas duas campanhas de amostragem: uma no período das chuvas e outra no inverno. A Resolução 357 do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama), águas doces de classe 1 (destinadas ao consumo humano, depois de tratamento simplificado), estabelece um limite de 0,01mg/l de arsênio. “Trata-se, no momento, de uma fase de um primeiro diagnóstico no projeto. Tendo os primeiros resultados, vamos iniciar um monitoramento”, diz Roeser.

Perigo

Doutorando no estudo, Erik Sartori aponta os efeitos da forte presença de arsênio na água. “Sabemos que o problema da presença de arsênio é uma realidade da região. Isso é muito grave porque, dependendo da quantidade e da periodicidade que o ingerimos, essa substância torna-se cancerígena.” Segundo ele, em alguns pontos, como na Serra do Caraça, a taxa de carbono orgânico dissolvida na água chega a dobrar depois da ocorrência das chuvas (de cerca de 5mg/l para 10mg/l), provavelmente por causa do carregamento das substâncias húmicas dos solos para os rios. “Na época de seca, o COD no Caraça é bem menor (cerca de 3mg/l). Já em outros pontos pesquisados, o comportamento é inverso: durante as chuvas, o COD diminui, provavelmente por causa da diluição”, aponta. Além de testes toxicológicos, há a previsão de testes ecotoxicológicos para complementar a pesquisa.

Erik explica que a ideia do projeto se ampliou com a parceria desenvolvida entre a Ufop e o Câmpus Sorocaba da Unesp, há anos. “As substâncias húmicas têm importante papel no ambiente. Elas podem alterar a mobilidade, disponibilidade e toxicidade de metais e favorecer germinação de sementes, por exemplo. Em estações de tratamento de água também são importantes, já que compostos cancerígenos podem ser formados quando as SH estão presentes em altas concentrações”, exemplifica o doutorando, que aponta ainda a existência de estudos relacionados ao uso das SH na remediação de áreas contaminadas e até mesmo aplicações na área medicinal. “Apesar de o problema ser bem conhecido no Quadrilátero Ferrífero, são poucos os trabalhos dedicados à sua interação com as SH (na região e até mesmo no Brasil)”, complementa.

Os pesquisadores já constataram que a presença do húmus contribui para a agricultura. Segundo eles, quando o solo é irrigado com a água concentrada, a germinação de sementes é certa. Resultado da decomposição de matéria orgânica, como restos vegetais e animais, o húmus também auxilia na retenção de água e de substâncias benéficas às plantas, além de colaborar para a diminuição da toxicidade do solo.

Por meio dos estudos, espera-se que seja possível compreender a dinâmica do arsênio nos rios de Ouro Preto, Mariana e Barão de Cocais, influenciando no estabelecimento de políticas públicas para o adequado manejo das áreas.

 

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