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Estado de Minas

Guepardos e pumas gastam mais energia em busca de presas do que na hora do bote

Análises serão úteis na conservação das espécies


postado em 06/10/2014 09:14 / atualizado em 06/10/2014 09:14

Paloma Oliveto

Guepardos na savana africana: com a caça, espécies que lhes servemde alimento estão desaparecendo e, com isso, a busca por refeição se torna mais penosa(foto: MICHAEL G.L. MILLS/DIVULGAÇÃO)
Guepardos na savana africana: com a caça, espécies que lhes servemde alimento estão desaparecendo e, com isso, a busca por refeição se torna mais penosa (foto: MICHAEL G.L. MILLS/DIVULGAÇÃO)
 

Eles pagam um preço alto para serem os reis das savanas e florestas. Majestosos e imponentes, os grandes carnívoros não se sustentam com pequenas presas nem com plantas. Felinos como guepardos, os mais ligeiros corredores do mundo animal, precisam de muita carne e, para obtê-la, perseguem feras maiores que eles, atingindo velocidades que podem ultrapassar impressionantes 100km/h. Já o puma, também conhecido como onça-parda, anda até 8km em um dia e, mais do que dar carreiras atrás das vítimas, quando sente cheiro de caça no ar, se senta e espera o momento certo para atacar.

Entender como ambas espécies compensam o gasto energético na busca pela próxima refeição é essencial para estratégias conservacionistas — a população do guepardo declinou bruscamente no século passado, de cerca de 100 mil espécimes, estimados em 1900, para apenas 10 mil hoje. Dois estudos independentes publicados na revista Science parecem ter desvendado esses mecanismos, chegando a conclusões semelhantes: para esses animais, procurar pela presa é muito mais custoso do ponto de vista calórico do que o momento de caçar propriamente dito.

A caçada e a luta, é claro, são extenuantes, observa John W. Laundré, professor da Universidade da Califórnia em Riverside, que escreveu um artigo analítico sobre os dois trabalhos na Science. Envolvem corridas extraordinárias – uma das presas do guepardo é a ligeira gazela, por exemplo – e um corpo a corpo vigoroso. Mas medições feitas pelos pesquisadores indicaram que esse é um processo rápido. O guepardo passa apenas 12% do dia perseguindo seu almoço. O que realmente consome a energia dos grandes felinos carnívoros é procurar por uma presa em potencial. Os pumas gastam 2,3 vezes mais calorias localizando a vítima do que caçando e lutando contra ela.


Coleira eletrônica no pescoço do puma registra atividades do felino em tempo real(foto: CORLIS SCHNEIDER/DIVULGAÇÃO)
Coleira eletrônica no pescoço do puma registra atividades do felino em tempo real (foto: CORLIS SCHNEIDER/DIVULGAÇÃO)
Monitoramento

Para estudar o comportamento dos animais, as duas pesquisas se valeram de técnicas avançadas semelhantes, com coleiras rastreáveis que identificam os diferentes movimentos – repouso, aceleração e continuidade. No caso dos pumas, investigados pela Universidade da Califórnia de Santa Cruz em uma reserva do estado americano, os cientistas utilizaram o que há de mais moderno nesse tipo de equipamento, as coleiras Smart, que indicam até mesmo quando o animal está se alimentando. Os próprios pesquisadores desenvolveram o sistema, que, equipado com GPS, acelerômetros e outros aparelhos high-tech, aponta para onde está o felino e calcula o gasto energético.

Com isso, a equipe da bióloga Terrie Williams, professora de ecologia e biologia evolutiva, conseguiu quantificar os elevados custos energéticos de se movimentar ao longo do dia e o relativamente baixo investimento calórico feito pelo animal no momento da caçada. Diferentemente do guepardo, que persegue suas presas, o leão-da-montanha, como o puma é chamado, por viver nos acidentados terrenos montanheses, aguarda o bote sentado ou escondido atrás de arbustos. “O que realmente nos empolga é que, agora, podemos dizer quanto custa para o puma viver no ambiente selvagem e, portanto, de quanto ele precisa, em termos calóricos, para ser mantido. Entender isso é vital para traçarmos um planejamento adequado de conservação da espécie”, observa a bióloga.

“Muitas dessas grandes espécies carnívoras estão ameaçadas ou em risco de extinção, e conhecer suas limitações fisiológicas é uma peça que estava faltando nos planos de conservação”, escreveu, em um comunicado, Chris Wilmers, que dirige o Projeto Puma de Santa Cruz. “Com novas tecnologias, temos um nível bem maior de compreensão do que esses animais estão fazendo e quanto custa a eles viver no hábitat natural. É um ganho muito grande para a ciência do conservacionismo”, observou, sobre o colar Smart. Ele também disse que pretende utilizar a coleira para analisar outros grandes carnívoros, como lobos e ursos polares.

Animal mais veloz da Terra, o guepardo alcança impressionantes 100km/h quando persegue uma caça(foto: MICHAEL G.L. MILLS/DIVULGAÇÃO)
Animal mais veloz da Terra, o guepardo alcança impressionantes 100km/h quando persegue uma caça (foto: MICHAEL G.L. MILLS/DIVULGAÇÃO)

Roubo

Já os hábitos dos ligeiros guepardos foram monitorados pela equipe de Mike Scantlebury, biólogo da Universidade Queen de Belfast, em duas reservas da África do Sul. Diariamente, os cientistas registravam dados sobre quantas vezes e por quanto tempo eles se deitaram, sentaram, andaram e correram. A análise da urina dos animais também ajudou a estimar o gasto diário de energia. A movimentação consome cerca de 12% do tempo desses temidos felinos. Mesmo quando precisam de uma caçada extra — eles são vítimas de cleptoparasitismo dos leões e das hienas, que costumam roubar sua comida —, os guepardos não gastam mais que uma hora para matar uma nova vítima.

“O guepardo consegue lidar com grandes predadores e com a perda ocasional de comida sem muita dificuldade”, diz Scantlebury. “Para que o roubo da presa fosse realmente um problema, isso deveria acontecer na metade das caçadas, ou seja, a cada quatro caçadas, por exemplo, duas terminarem em roubo, mas não foi isso que observamos”, conta. Assim como os pumas, as onças-pardas consomem muito mais calorias para buscar uma possível presa do que no momento de caçá-la e subjugá-la, afirma o biólogo. “Para nós, isso foi surpreendente porque o guepardo é conhecido justamente pela velocidade com que corre atrás de suas vítimas”, diz.

O especialista em grandes felinos também observa que esse é um fator importante a ser levado em conta nas políticas de conservação da espécie. As caças ilegais por parte dos seres humanos estão exterminando as presas do guepardo, obrigando que esse animal se desloque muito mais em busca de sua próxima refeição. “Normalmente, a culpa pela queda na população do guepardo recai sobre leões e hienas, que roubam suas caças, mas, na verdade, é o homem que está fazendo isso, somos nós que estamos tornando sua vida bem mais difícil”, afirma o biólogo.

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