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Estado de Minas

População mundial chegará a 11 bilhões

Nova projeção estima que o número de habitantes do planeta deve continuar crescendo até o fim do século. Brasil pode enfrentar problemas devido ao envelhecimento demográfico


postado em 19/09/2014 00:12 / atualizado em 01/10/2014 10:58

Uma projeção feita com base no último relatório de perspectivas da população mundial divulgado pela Organização das Nações Unidas (ONU) aponta que o número de habitantes no planeta deve alcançar os 11 bilhões até o fim do século. São 2 bilhões de habitantes a mais do que previsões anteriores. O principal fator para o crescimento populacional estaria na África Subsaariana, que pode quadruplicar o número de habitantes — de 1 bilhão para 4,2 bilhões — em menos de um século.

O estudo, publicado na edição de hoje da revista Science, levou em conta fatores como a taxa de fecundidade e a expectativa de vida de cada país. O levantamento usou um novo método estatístico mais detalhado do que o usado em previsões anteriores, combinando estimativas de governos e especialistas. Como se trata, evidentemente, de uma projeção, os autores afirmam que há 80% de chances de que a Terra abrigue entre 9,2 bilhões e 12,3 bilhões de pessoas nas próximas oito décadas — sendo 11 bilhões o cenário mais provável.

Os levantamentos anteriores levavam os pesquisadores a acreditar que o total de humanos se estabilizaria em 9 bilhões até a década de 2070 e que, então, passaria a decair lentamente. Os demógrafos explicam que, há uma década, pensava-se que a fecundidade na África seguiria o mesmo ritmo da taxa de nascimentos da América Latina, que tem diminuído rapidamente nos últimos anos. No entanto, as africanas continuam tendo mais filhos, 4,6 crianças, em média, cada uma.

A diminuição da mortalidade pelo vírus HIV também contribuiu para o aumento da população da região. “Acho que ninguém podia ter previsto isso há 15 anos”, explica Adrian Raftery, professor de estatística e sociologia na Universidade de Washington e um dos autores do estudo. “Temos muito mais informações agora”, completa. Espera-se que a taxa de fecundidade diminua bastante na região até 2100, mas, depois do número crescente de nascimentos do início do século, é bastante provável que a população da África Subsaariana continue a aumentar a uma taxa de 1,6% ao ano.

Especialistas atribuem a multiplicação demográfica na região à falta de políticas públicas de planejamento familiar, que não deixam escolha às mulheres. “Estudos mostram que falta contracepção para a maioria das mulheres pobres que querem controlar a natalidade. Então, elas usam métodos tradicionais, falham e engravidam. Se a sociedade não disponibilizar métodos para elas escolherem ter filhos no momento que quiserem, a fecundidade pode aumentar, e essa taxa indesejada é alta”, lamenta Suzana Cavenaghi, demógrafa e professora da Escola Nacional de Ciências Estatísticas do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (ENCE/IBGE), que não participou do estudo.

No entanto, essa projeção pode ser afetada pelo próprio crescimento populacional da região. A falta de recursos causada pelo excesso de habitantes poderia levar a um índice inesperado de mortalidade, além de mudanças nas taxas de fecundidade e do aumento da migração regional e mundial. Um exemplo é o da Nigéria, onde a população deve saltar de 160 milhões para 914 milhões até 2100. “Nesse caso, já acontece a migração para dentro do próprio continente. A maior parte das vezes, a migração é feita em etapas. Se há um crescimento maior do que a geração de empregos, educação e acesso à saúde que o governo consegue garantir, acontece um colapso, e as pessoas migram. Claro que os países fecham fronteiras, e começam os problemas”, alerta a brasileira.

IdososOutras regiões do mundo devem sofrer menos mudanças nos próximos anos. A Ásia, hoje com 4,4 bilhões de habitantes, deve atingir 5 bilhões até 2050, mantendo-se como o continente mais populoso do planeta. A Europa, a América do Norte e a América do Sul devem manter suas populações abaixo de 1 bilhão cada uma. No entanto, com um número estável de habitantes e uma taxa decrescente de nascimentos, a tendência é que a população idosa cresça cada vez. Em 2010, a proporção mundial era de 7,4 pessoas entre 20 e 64 anos para cada indivíduo com 65 anos ou mais. Até o fim do século, espera-se que essa taxa caia para 2,8, um número próximo à realidade atual da Alemanha.

No Brasil, atualmente, há 8,6 pessoas com menos de 65 anos para cada idoso. Essa proporção pode despencar para 1,5 até 2100, segundo os novos cálculos. O número é ainda menor do que a futura taxa norte-americana, de 1,9, e da China, 1,8. “É necessário lembrar que, se você está pensando no fim do século, isso são umas três gerações a partir de hoje. E muitas mudanças podem acontecer até lá, em termos de saúde, participação de idosos na força de trabalho e na interferência da tecnologia nas nossas vidas futuras”, alerta Patrick Gerland, demógrafo das Nações Unidas e coautor do trabalho.

Se confirmado, um quadro desproporcional como esse poderia causar uma crise econômica mundial, como a que já acontece no Japão, onde existem apenas 2,6 adultos para sustentar cada idoso. “A sociedade pode lidar com o sustento de idosos por meio de redes de apoio formais e informais, transferências entre gerações e apoio, assim como sistemas de previdência pública e privada”, diz Patrick.

Prever a taxa de crescimento populacional também ajuda a antecipar vários outros problemas, como mudanças climáticas, disseminação de doenças, migração e pobreza. São questões que podem ser amenizadas com a implementação de políticas voltadas para a saúde sexual de jovens e de programas que promovam a gravidez tardia, por exemplo. Além do planejamento familiar, a ONU recomenda que as nações invistam em medidas de redução de mortalidade e no desenvolvimento humano — principalmente nas questões de igualdade de gênero e educação de mulheres.

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