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Estado de Minas

Sistema prevê julgamentos iniciais que uma pessoa faz de outra a partir dos traços do rosto

O sistema proposto pelo neurocientista Tom Hartley consegue prever, em 50% dos casos, que julgamento uma pessoa faz de outra com base em características sutis, como o tamanho do olho e a largura dos lábios


postado em 10/08/2014 00:12 / atualizado em 10/08/2014 07:46

O filósofo grego Aristóteles escreveu que crânios grandes são indicativo de maldade. Os reflexos do caráter aparecem também nos traços do rosto. Pessoas com a face pequena, por exemplo, costumam ser constantes; com a larga, tendem à estupidez. Os mais corajosos, definiu o pensador, têm o rosto arredondado. Mais de dois milênios depois, a relação aristotélica das características faciais com a personalidade continua intrigante, inclusive para a ciência moderna. O avanço mais recente nesse sentido foi publicado na revista Proceedings of the National Academy of Sciences (Pnas) por pesquisadores da Universidade de York, no Reino Unido.

Eles criaram um sistema computacional que verifica a maneira como alguns tributos faciais influenciam a primeira impressão que uma pessoa tem da outra. Não é, necessariamente, uma medição aristotélica do caráter. Entretanto, o sistema proposto pelo neurocientista Tom Hartley consegue prever, em 50% dos casos, que julgamento uma pessoa faz de outra com base em características sutis, como o tamanho do olho e a largura dos lábios.

“Por muitas razões, incluindo o uso cada vez mais generalizado de imagens de rosto nos meios de comunicação, é importante entender como surgem as primeiras impressões. Isso é particularmente necessário porque elas são formadas rapidamente e geram consequências”, destaca Hartley. Ele exemplifica que um mesmo comportamento pode ser interpretado como assertivo ou inseguro dependendo da sensação de domínio percebida no rosto de um indivíduo. “Há desdobramentos, inclusive, nos processos eleitorais.”

Pesquisas anteriores demonstraram que muitos julgamentos podem ser reduzidos a três principais dimensões ligadas às impressões iniciais: acessibilidade, dominância (poder de auxiliar ou prejudicar) e atratividade. Para investigar a base dessas apreciações, a equipe de Hartley coletou, na internet, mil fotos de pessoas comuns e as exibiu a seis voluntários, que informaram aos pesquisadores em qual dimensão as faces nas fotografias se encaixavam.

Com essas informações, os autores mediram características físicas muito específicas, como a distância de uma ponta do olho à outra e o raio da íris. Assim, puderam desenvolver um modelo matemático que indicou os sentimentos despertados de acordo com as medidas do rosto. A combinação acertou as primeiras impressões na metade dos casos. Um indício de que sensações mais subjetivas, como a formação de juízo sobre alguém, podem ser quantificadas pelo computador.

Criando personagens Lia Pierson, professora de psicologia jurídica da Faculdade de Direito da Universidade Presbiteriana Mackenzie, em São Paulo, explica que os resultados mostram um uso novo para um conhecimento velho. Além da teoria de Aristóteles, o psiquiatra criminologista Cesare Lombroso escreveu, no século 19, a obra O homem delinquente, em que apresenta as medidas físicas de um criminoso.

“O estudo de Harley mostra que é possível usar a matemática para prever essas correlações inconscientes, e isso é bárbaro. O mais interessante, e os autores citam isso na pesquisa, é que há um grande potencial de uso comercial”, analisa. Os mecanismos desenvolvidos pela equipe de York podem ser usados, por exemplo, para que consultores políticos tornem um candidato mais atraente ou que diretores de filme e fotógrafos consigam desenvolver, com atores e modelos, o caráter dos personagens.

Sérgio Rizo Dutra, professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de Brasília (UnB), conta que o currículo dos cursos de artes plásticas e cinema leva em consideração as expressões do corpo e da face. “Existem os estereótipos, muito utilizados pelos filmes de grande público, por exemplo. Os vilões têm sobrancelhas cerradas, testas retraídas e rosto fino, mas isso não significa que um serial killer da vida real não possa ter cara de anjo. Os heróis, por outro lado, têm um queixo quadrado, expressão de Hércules, de Apolo. Isso acontece porque nossos conceitos de beleza são heranças gregas com interpretação romana”, diz Dutra, que já foi professor também do Instituto de Artes da UnB.

Para Rizo, os modelos e os estereótipos estão passando por um processo de transformação, o que pode mudar, inclusive, os elementos que influenciam a primeira impressão que as pessoas fazem das outras. “Já saímos do período de uniformização e, agora, estamos indo para a era das especificidades. O problema étnico existe, as tensões permanecem, mas tudo está no caminho do extermínio porque a tendência é que não exista apenas um tipo de estereótipo”, prevê o especialista.

Pioneiro

O italiano Cesare Lombroso (1835-1909) foi um dos primeiros estudiosos a associar características físicas com propensão ao crime. Seus estudos o levaram a propor que os criminosos seriam, por exemplo, mais altos, com crânios menores, maxilar largo e nariz adunco. Os ofensores sexuais apresentariam traços femininos. Já o perfil das criminosas foi descrito com traços físicos e voz masculinizados, além de excesso de pelos corporais. Elas, acreditava Lombroso, podiam ser ainda mais cruéis que homens e ostentariam força e energia incomum.


SAIBA MAIS

Ligação com o sucesso

Neste ano, revistas especializadas publicaram estudos que tentam encontrar associações entre os traços faciais e o sucesso social. Um dos mais recentes, produzido pela Universidade da Califórnia (UC), nos Estados Unidos, mostrou que homens com rosto mais largo são melhores negociadores porque o maxilar bem marcado sugere a adoção de comportamentos agressivos. Pesquisadores da Dartmouth College, também nos EUA, mostraram que características faciais masculinas em mulheres que atuam na política diminuem as chances de vitória nas urnas, enquanto os biólogos da Universidade de Turku, na Finlândia, sugerem que homens preferem mulheres com traços masculinos quando estão submetidos a situações adversas, como pobreza ou guerra. Para eles, os traços passam a imagem de resistência e saúde. Outro estudo da UC indicou que elas preferem homens com características faciais fortes e estrutura corporal robusta durante a ovulação. Os traços são associados com a geração de filhos saudáveis.

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