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Estado de Minas MINIATURA DE GIGANTES

Linhagem de dinossauros encolheu 12 vezes em 50 milhões de anos e deu origem às aves

Animais passaram de 163kg para 800g


postado em 03/08/2014 07:00 / atualizado em 03/08/2014 13:42

Eles eram carnívoros gigantes e assustadores. Mas, por 50 milhões de anos, foram encolhendo até pesar menos de 1kg. E, assim, surgiram as aves. Há muito tempo os cientistas admitem que os pássaros têm um forte parentesco com os dinossauros. Agora, pesquisadores australianos acreditam ter descoberto exatamente como isso aconteceu. Em um artigo publicado na revista Science, eles revelam a “receita aviária”: o processo de miniaturização aliado a uma rápida adaptação do esqueleto, o que permitiu o desenvolvimento das características físicas desses animais.


Os cientistas usaram técnicas avançadas de análise estatística e se debruçaram sobre 1,5 mil traços anatômicos de 120 espécies de tetrápodes — animais terrestres de quatro membros — e de aves primitivas, desde o ancestral comum com outras linhagens de dinossauros. Assim, chegaram aos 50 milhões de anos, tempo necessário para que o tetrápode diminuísse de tamanho 12 vezes, passando de 163kg a 800g. “Uma redução desse tamanho é 150 vezes mais rápida do que as taxas de evolução normais”, observa Michael J. Benton, professor da Faculdade de Ciências da Terra da Universidade de Bristol.

Concepção artística de um bando de Longirostravis empoleirados no %u201Cprimo%u201D Yutyrannus, de grande porte(foto: BRIAN CHOO/DIVULGAÇÃO)
Concepção artística de um bando de Longirostravis empoleirados no %u201Cprimo%u201D Yutyrannus, de grande porte (foto: BRIAN CHOO/DIVULGAÇÃO)
Nesse intervalo, os grandalhões começaram a adquirir características que, por fim, definiriam a aparência de uma ave, e não somente de um dinossauro com penas. Há 200 milhões de anos, surgiu a fúrcula, um osso formado pela junção das duas clavículas, e a vértebra cervical se tornou mais leve. A partir daí, foram aparecendo novos traços anatômicos, como garra de três dedos, penas simples, rabo rígido, pulso extremamente flexível, penas complexas e aerodinâmicas, asas e, por fim, a capacidade de voar. “Os pássaros são o produto final de um mosaico de adaptações adquiridas por uma linhagem de dinossauros que evoluíram de uma maneira estranhamente rápida”, assinala Michal Lee, pesquisador da Universidade de Adelaide e do Museu da Austrália do Sul, e principal autor do estudo.

Segundo Benton, essa revolução na compreensão evolutiva das aves data de 1994, quando paleontólogos chineses levaram fotos de novos fósseis descobertos no país para a reunião da Sociedade de Paleontologia Vertebrada de Nova York. “As fotos mostravam um pequeno dinossauro sem asas ou qualquer característica de pássaro, mas coberto por uma penugem. Esse era o começo de uma enxurrada de fósseis de tetrápodes chineses com penas de todos os tipos, de simples cerdas a penas extremamente elaboradas e adaptadas ao voo”, diz.

Testes Alguns desses dinossauros tinham, inclusive, antebraço alongado e fios parecendo penas de forma muito semelhante a uma asa. “Os fósseis mostraram que, entre 170 e 120 milhões de anos atrás, todos esses dinossauros, os paraves, estavam testando o voo de várias formas, incluindo saltar de árvore em árvore, planar e saltar”, conta Benton. Um grupo, representado pelo Archaeopteryx, ancestral de todos os pássaros modernos, finalmente desenvolveu asas aerodinâmicas, prontas para voar.

O dinossauro com penas Microraptor ataca o pássaro Sinoris: espécies viveram na China(foto: BRIAN CHOO/DIVULGAÇÃO)
O dinossauro com penas Microraptor ataca o pássaro Sinoris: espécies viveram na China (foto: BRIAN CHOO/DIVULGAÇÃO)
A explicação evolutiva para o encolhimento desses dinossauros é que, assim, as chances de sobreviver aumentaram. “Ser menor e mais leve numa terra de gigantes, com o desenvolvimento rápido de adaptações anatômicas, forneceu a esses ancestrais dos pássaros novas oportunidades ecológicas, como a habilidade de subir em árvores e voar. Por fim, a flexibilidade evolutiva ajudou os pássaros a sobreviver ao impacto fatal do astro que matou todos seus parentes dinossauros”, escreveram os autores do estudo. “Os pássaros encolheram e, assim, conseguiram algo que seus grandes e menos evoluídos parentes não alcançaram: a sobrevivência”, destaca Michael Lee.

Falta de sorte generalizada
Embora o impacto da Terra com um asteroide seja apontado como principal motivo do fim da era dos dinossauros, pesquisadores da Universidade de Edimburgo acreditam que esses gigantes poderiam ter sobrevivido ao evento, caso eles já não estivessem fadados a sumir do planeta. Usando registros fósseis e ferramentas analíticas, os paleontólogos escoceses creem ter reescrito a narrativa do fato que encerrou a participação dessas criaturas pré-históricas na Terra, há 66 milhões de anos.

Eles descobriram que poucos milhões de anos antes de o asteroide de 10km de largura ter caído onde hoje é o México, o planeta passava por um turbilhão ambiental. Isso incluía atividade vulcânica extensa, mudança no nível do mar e variação de temperatura. Naqueles tempos, a cadeia alimentar dos dinossauros já estava enfraquecida pela falta de diversidade entre os grandes dinos herbívoros, que eram a presa dos demais. Isso ocorreu provavelmente devido a mudanças no clima e no ambiente. Assim, estava criado o cenário de vulnerabilidade que transformou a sobrevivência pós-impacto do asteroide em uma missão impossível.

O impacto do astro com a Terra provavelmente causou tsunâmis, terremotos, incêndios, variações súbitas de temperatura e outras mudanças ambientais. À medida que as cadeias alimentares entraram em colapso, o reino dos dinossauros foi sendo derrubado, espécie atrás de espécie, até a total extinção. Os únicos que sobreviveram foram justamente os que, graças aos 50 milhões de anos de miniaturização, podiam voar, dando origem aos pássaros modernos.

Para os pesquisadores da Universidade de Edimburgo, se o asteroide tivesse se chocado com a Terra poucos milhões de anos antes, quando a variedade de espécies era mais diversa e as cadeias alimentares mais robustas — ou mesmo depois, quando novos tipos de dinossauros teriam tido a chance de evoluir —, esses animais muito provavelmente teriam sobrevivido.

“Os dinossauros foram vítimas de uma má sorte colossal. Não só a colisão do asteroide, mas isso aconteceu no pior tempo possível, quando seu ecossistema era vulnerável. Nossas descobertas ajudam a esclarecer um dos maiores mistérios da ciência”, escreveu, em um comunicado, Steve Brusatte, pesquisador da Faculdade de Geociências da Universidade de Edimburgo. “Há um intenso debate científico sobre a causa da extinção dos dinossauros. Embora nossa pesquisa sugira que as comunidades desse animal eram particularmente vulneráveis à época da queda do asteroide, não há nada sugerindo que eles estavam fadados à extinção”, ressaltou Richard Butler, da Universidade de Birmingham e coautor do estudo. “Sem o asteroide, provavelmente eles continuariam vivos.” (PO)
 

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