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Estado de Minas

Abelhas têm habilidade refinada de localização e acham rápido caminho de casa

Estudo sugere que insetos são capazes de produzir mapas mentais do ambiente, o que os ajuda a retornar para a colmeia. Até então, acreditava-se que apenas os mamíferos, por terem cérebros maiores, tinham essa capacidade


postado em 15/06/2014 12:34 / atualizado em 15/06/2014 14:45

Abelhas em colmeia: mesmo quando perdem a referência do Sol, elas acham o caminho de volta para casa(foto: Ognen Teofilovski/REUTERS)
Abelhas em colmeia: mesmo quando perdem a referência do Sol, elas acham o caminho de volta para casa (foto: Ognen Teofilovski/REUTERS)

Brasília - Mesmo com um cérebro que nem se compara, em termos de tamanho, ao dos mamíferos, as abelhas são mestras em achar o caminho de volta para casa. Embora se afastem vários metros da colmeia, os bichinhos retornam certeiros após um dia de trabalho pulando de flor em flor. A principal hipótese que os cientistas tinham para explicar a habilidade era a de que esses pequenos voadores se orientavam pelo Sol. No entanto, um recente estudo indica que essa não é a única referência usada no retorno para casa. Ao que tudo indica, esses animais são capazes de formar mapas mentais do ambiente, memorizando cenários e objetos que servem de guia, tal qual fazem os mamíferos e seus grandes cérebros.

Para descobrir esse refinamento na orientação das abelhas, o grupo de pesquisadores retirou delas a capacidade de ter a luz do dia como referência. Os especialistas fizeram isso capturando algumas delas e as anestesiando por seis horas. Depois, quando elas acordavam, eram soltas em um outro local nos arredores da colmeia. Pequenos sensores presos aos insetos permitiam que todo o trajeto fosse monitorado por meio de um radar harmônico. “Esse dispositivo nos permite acompanhar o voo de uma única abelha a uma distância de 1km. Assim, fomos capazes de estudar o comportamento dos bichos dentro das dimensões da sua navegação natural”, conta Randolf Menzel, professor do Instituto de Neurobiologia da Universidade Livre de Berlim e um dos autores do estudo.

Como não sabiam que tinham ficado seis horas desacordadas, as operárias se comportavam inicialmente como se fosse o começo do dia. Enganadas pelo Sol, começavam a seguir na direção contrária. Porém, logo elas percebiam que era preciso mudar o curso e voavam de volta para a colmeia, usando alguma outra referência. Para os autores do trabalho, publicado na revista Proceedings of the National Academy of Sciences (Pnas), essa referência é um mapa cognitivo que os insetos conseguem formar da região próxima da colmeia.

Segundo Menzel, o experimento mostra uma capacidade incrível das abelhas de criar mapas do ambiente. Alguns autores chegaram a cogitar que os bichos utilizem algumas referências geográficas próximas da colmeia para se localizarem. Essa memória foi chamada de instantânea (snapshot, em inglês). No entanto, a pesquisa mostra uma capacidade de ler o ambiente de forma muita mais ampla. “A ideia por trás da memória snapshot é que os insetos podem estabelecer memórias de imagem e usá-las para voltar a colmeia quando estão a 10m ou 20m dela. Contudo, estudamos a navegação deles por centenas de metros, e não há como dizer que as abelhas podem ter se referido somente a essa lembrança snapshot”, destaca o cientista.

Teoria reforçada

Na avaliação de Pedro Ribeiro, pós-doutorando do Departamento de Fisiologia da Universidade de São Paulo (USP), o trabalho demonstra a teoria dos mapas mentais, antes apenas uma predição sem comprovação. “Ao mostrar que as abelhas conseguiram percorrer o trecho sem a orientação do Sol e em distâncias nas quais as referências não ajudariam tanto, eles indicam que a orientação desses animais pode se basear em mapas cognitivos, já conhecidos em mamíferos”, afirma o especialista, que não participou do estudo.

Ao coletar pólen, os animais se afastam algumas centenas de metros da colmeia(foto: Patrick Pleul/AFP PHOTO)
Ao coletar pólen, os animais se afastam algumas centenas de metros da colmeia (foto: Patrick Pleul/AFP PHOTO)
Ribeiro explica que a hipótese dos mapas mentais não era forte porque a estrutura morfológica dos insetos é muito diferente da dos mamíferos. “As abelhas não possuem estruturas cerebrais, como o hipocampo, presente nos mamíferos, para que essa habilidade fosse cogitada sem estudos mais aprofundados. Agora, vemos que, mesmo assim, é possível elas utilizarem essa solução para sua melhor localização”, destaca.

Ele também acredita que trabalhos futuros, que explorem mais a fundo os mecanismos de localização dos insetos, ajudem a esclarecer hipóteses ainda não comprovadas. “Temos muitos trabalhos nessa área, principalmente voltados para formigas, uma espécie mais explorada. Estudos desse tipo podem esclarecer as orientações dos chamados animais sociais e a presença de mapas cognitivos neles”, acredita.

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