Isabela de Oliveira
Imagine-se quando bebê. Mas esqueça os cuidados e o aconchego recebidos pela família. Muito pelo contrário, tente se enxergar em uma casa onde irmãos e primos mais velhos desejam que você desapareça. Pode parecer um roteiro de filme de terror, mas esse é um dos comportamentos mais normais da natureza. Em meio a ameaças tão próximas, a vida de recém-nascidos de uma infinidade de animais, entre eles os ratos, depende que desperte o quanto antes no pai o sentimento de cuidado com a ninhada. Esse comportamento, entretanto, tem como pano de fundo um complexo mecanismo neurológico, descrito por pesquisadores da Universidade de Harvard na edição de ontem da revista Nature.
A pesquisa liderada por Zheng Wu confirma uma suspeita antiga entre os cientistas: a de que o sentimento de paternidade dos ratos é modulado pelo nariz. O órgão chamado vemeronasal funciona como um sensor que identifica os feromônios exalados pelos filhotes.
“Esse subconjunto de neurônios da MPOA expressa uma substância chamada galanina. Quando o deletamos de ratos virgens e também dos que já foram pais e mães, percebemos que eles não apresentaram mais o comportamento parental. Entretanto, se ativamos esses neurônios nos machos que agem violentamente contra os filhotes, observamos que, além de se tornarem menos agressivos, passam a cuidar dos bebês”, diz Catherine Dulac, coautora do estudo.
Não está claro se o infanticídio fornece benefícios para machos virgens. Além disso, a agressividade dos pais ressurge 50 dias após o acasalamento, tempo necessário para que os filhotes nasçam e desmamem. Parece, portanto, que as interações sociais ligam ou desligam circuitos neurais específicos que determinam o comportamento de machos e fêmeas. “Queremos entender como esses neurônios controlam isso: ser pai é, por exemplo, construir o ninho, cuidar e defender seus bebês. Mas como isso é organizado no cérebro e por que esses neurônios não são ativados nos animais virgens?”.