Jornal Estado de Minas

TECNOLOGIA SOCIAL

Máquina mineira para agricultoras do Saara leva prêmio da Fundação de Bill Gates

Cristiana Andrade

Comprotótipo na mão, Ricardo Capúcio, professor da Universidade Federal de Viçosa, ganha prêmio da Fundação BilleMelinda Gates - Foto: PILAR OLIVARES/BILL & MELINDA GATES FOUNDATION/DIVULGAÇÃOUma máquina de semeadura fácil de ser manuseada e pensada especialmente para mulheres. Há duas décadas essa engenhoca habita os sonhos e a realidade do professor Ricardo Capúcio de Resende, do Departamento de Engenharia Mecânica da Universidade Federal de Viçosa (UFV), que acaba de vencer o prêmio da 11ª edição do Grand Challenges Explorations (GCE), da Fundação Bill e Melinda Gates. O projeto concorreu com 2, 7 mil propostas de cientistas de todo o mundo. Além dele, outros dois brasileiros foram premiados: o farmacêutico Floriano Paes Silva Júnior, da Fundação Oswaldo Cruz, do Rio de Janeiro, e o engenheiro agrônomo Mateus Marrafon, pesquisador do Instituto Kairós, de Itu (SP).

Capúcio foi incentivado ainda no curso de graduação, que fez na Universidade Federal de Santa Catarina, a criar uma máquina semeadora, por um professor de projetos de máquinas que o desafiou.

Anos se passaram até que ele chegou ao mestrado com a ideia de construir a máquina – que basicamente empurra terra, abre covas simétricas e contínuas e lança sementes no solo –, mas depois vieram aulas, a correria da vida acadêmica. “Não é que fiquei 20 anos em cima da máquina, mas sempre trabalhava no projeto de alguma forma”, diz. A meta era inventar algo que fosse prático, e que dependesse da força humana para funcionar, sem precisar de trator, motor ou tração animal. Ele precisou de nove mudanças até chegar à versão apresentada no Grand Challenges.

Quando fez doutorado, na Cranfield University, na Inglaterra, ele teve a oportunidade de testar o protótipo da máquina em um tanque no laboratório. Ficou satisfeito. Os resultados, no entanto, não são definitivos. Afinal, a máquina precisa ser construída em tamanho natural para ser testada nas condições em que será usada e o pesquisador pretende investir o prêmio do GCE para isso. “É uma máquina simples e, por isso, o custo é baixo e a manutenção é mais barata”, diz o engenheiro. “Além disso, qualquer pessoa pode manusear. Tenho certeza de que vai ajudar muita gente.”

A invenção parece um carrinho de cimento e, segundo ele, não há similar no mercado. As semeadoras disponíveis precisam ser puxadas ou por trator ou por animais. E elas também não são tão eficientes quanto a proposta por Ricardo. Seu projeto foi contemplado no Grand Challenges no edital direcionado à agricultura, cujas tecnologias sociais apresentadas deveriam ter foco em trabalhadoras da África, mais especificamente as que vivem no Sul do Saara.

“O objetivo é aumentar a produtividade dessas trabalhadoras e da terra onde vivem. A Fundação Bill e Melinda Gates considerou, certamente, essa região como a mais necessitada do mundo desse tipo de tecnologia, mas acredito que minha máquina possa ser usada em qualquer lugar do mundo, inclusive aqui no Brasil, por pequenos produtores familiares”, acrescenta.

O professor, como os outros ganhadores do prêmio, receberão US$ 100 mil ( o equivalente a R$ 224 mil) para provar que sua proposta funciona em 18 meses. Ele convidará, agora, outros professores da UFV e também alunos, que integrarão sua equipe. A máquina vai ser construída na Federal de Viçosa, mas deverá ser testada in loco, no Saara. Antes do teste, Ricardo e sua futura equipe terão de ir à África, para conversar com as mulheres a serem beneficiadas com o equipamento, ver em que tipo de solo trabalham, quais os cultivares usam e qual tipo de plantio praticam.

Desafio

“Estou muito feliz com a premiação, pois o projeto teve uma ótima recepção, inclusive de outros pesquisadores, de vários lugares do mundo, como Índia e Estados Unidos. Foi muito interessante. Estou animado para abraçarmos esse desafio.” O recurso do prêmio é disponibilizado tanto pela Fundação Gates quanto pelas fundações de amparo à pesquisa dos estados com propostas selecionadas. No caso de Ricardo Resende, a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (Fapemig) também investirá no projeto. Caso seja bem-sucedido, o pesquisador pode concorrer a um financiamento extra de até US$ 1 milhão (R$ 2,24 milhões).