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Estado de Minas

Agricultores e caçadores conviveram por milênios


postado em 25/10/2013 00:12 / atualizado em 25/10/2013 08:06

Durante muito tempo, os pesquisadores acreditaram que a revolução agrícola chegou às comunidades europeias de uma maneira quase uniforme. No entanto, dois estudos publicados recentemente na revista Science defendem, a partir de dados obtidos com análises genéticas de povos que viveram há quase 9 mil anos na Europa, que grupos de caçadores coletores e agricultores conviveram por cerca de 2 mil anos sem muitas misturas, o que influenciou o padrão genético dos europeus atuais.

O primeiro trabalho, produzido por pesquisadores de universidades canadenses, alemãs e britânicas, discute como foi a interação dos caçadores coletores com os agricultores. Ruth Bollongino, pesquisadora da Johannes Gutenberg University, da Alemanha, diz que sempre se acreditou que os caçadores coletores haviam desaparecido após a chegada da agricultura. “No entanto, descobrimos que eles viveram na Europa central com os agricultores por mais de 2 mil anos, sem se misturar”, conta.

Para chegar a essa conclusão, ela e sua equipe analisaram amostras de DNA antigo, enxofre, nitrogênio e isótopos de carbono obtidos de ossos e dentes de 29 indivíduos em Blätterhöhle, uma caverna que contém cerca de 450 restos mortais de ambos os povos. Então, aplicaram um método chamado reação em cadeia da polimerase, além de uma abordagem de sequenciamento que estabelece genomas mitocondriais parciais ou completos.

Em resumo, os resultados sugerem que os indivíduos cujos restos estão no sítio arqueológico vieram de três populações distintas: os caçadores-coletores do Mesolítico, os agricultores neolíticos e os pescadores-caçadores-coletores do Neolítico. “Trabalhamos nessas amostras durante três anos e analisamos outros sítios. Pensava-se que os caçadores-coletores se adaptaram à agricultura ou diminuíram logo após esse período. Nossos dados mostram que eles mantiveram esse estilo de vida por milênios. Temos certeza que esses grupos se conheciam e que compartilhavam alguns costumes, como o local de sepultamento, e isso ocorreu por centenas de anos”, conta Ruth.

Segundo ela, a introdução da agricultura na Europa foi um processo muito mais complexo e demorado do que se pensava anteriormente. E isso mostra como a paleogenética e análises de isótopos podem esclarecer muitos fatos. “Sabemos, por estudos anteriores, que os primeiros agricultores que imigraram para a Europa Central não se misturaram com os caçadores-coletores locais e que não eram os ancestrais dos europeus modernos. Mas não podemos excluir a continuidade população entre o os agricultores do fim do neolítico e europeus modernos, o que significa que a base para a diversidade genética dos europeus de hoje pode ser encontrada no fim desse período pré-histórico”, conclui a pesquisadora.

Estágios

Outra pesquisa revela que as complexas dinâmicas que produziram os padrões genéticos atuais da Europa tiveram pelo menos quatro estágios significativos de migração e aniquilamento de linhagens em 4 mil anos de história europeia. Para o estudo, as equipes de universidades alemãs e australianas utilizaram DNA mitocondrial extraído dos ossos e amostras de dentes de 364 esqueletos humanos pré-históricos que datam do Neolítico à Idade do Bronze inicial.

Os resultados sugerem que a agricultura teve um grande papel na mudança genética da população. Houve uma continuidade genética relativa durante os primeiros 2,5 mil anos da introdução da agricultura na Europa Central.

“Descobrimos muita influência genética de várias regiões vizinhas, tanto da própria Europa quanto do Oriente Médio”, diz Wolfgang Haak, pesquisador do Centro Australiano de DNA Antigo.

Pedro Paulo Funari, arqueólogo e professor do Departamento de História da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), conta que as misturas entre caçadores coletores e agricultores variaram de lugar para lugar.

Na Eurásia, por exemplo, a interação entre os grupos ocorreu pela adoção de práticas agrícolas vindas do Oriente Próximo. Segundo ele, as populações europeias surgiram dos remanescentes dos bascos atuais. “Os trabalhos contribuem, junto com a arqueologia e a linguística, na identificação dos povos que chegaram à Europa e ajudaram a difundir a agricultura na região”, destaca.

 


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