Jornal Estado de Minas

Bem diagnosticada, epilepsia gera menos transtornos

Distúrbio elétrico cerebral, muito confundido com patologias psiquiátricas, pode se manifestar de diversas formas. Centros de saúde especializados são essenciais para a população ser assistida

Carolina Lenoir
Um dos exames usados é o de ressonância magnética, no qual o paciente entra numa espécie de túnel que gera imagens da parte do corpo a ser analisada - Foto: Hospital Felício Rocho DivulgaçãoDistúrbios neurológicos crônicos mais antigos de que se tem registro, por muito tempo as epilepsias foram marginalizadas e vistas sob a ótica das doenças psiquiátricas. Na Idade Média, as crises epilépticas eram encaradas como possessão demoníaca, criando-se um estigma que, em certa medida, ainda persiste, especialmente pela desinformação da população. A começar pela crença de que existe apenas um tipo de epilepsia, a que gera crises convulsivas. Na verdade, trata-se de um grupo de transtornos neurológicos desencadeados por distúrbio elétrico cerebral, que dispara impulsos nervosos com alto grau de sincronização. São diferentes tipos de epilepsias, que se distinguem pelas manifestações clínicas, que podem afetar as áreas motora, visual, sensitiva e psíquica, entre outras.
Com uma prevalência de 2% na população em geral, as epilepsias podem levar a repercussões sociais que dificultam as relações pessoais e profissionais. Por isso, a implementação de núcleos especializados de atendimento é fundamental para diagnósticos e tratamentos corretos, que elevem a qualidade de vida dos portadores. Em Belo Horizonte, o Núcleo Avançado de Tratamento das Epilepsias (Nate), do Hospital Felício Rocho, foi pioneiro em Minas Gerais para o tratamento multidisciplinar da epilepsia. Hoje, a capital conta também com núcleos na Santa Casa e no Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), com atendimento pelo Sistema Único de Saúde (SUS) – no Nate o atendimento é particular ou por meio de convênios.

Fazem parte do grupo neurologistas, neurocirurgiões, neurofisiologistas, neuropsicólogos, siquiatra e pessoal técnico especializado, preparados para atender crianças, adolescentes e adultos com crises epilépticas. A unidade realiza avaliação pré-cirúrgica e cirurgia de epilepsia, diagnóstico de crises não epilépticas e classificação adequada do tipo de crise epiléptica.

O neurocirurgião José Maurício Siqueira, coordenador do Nate, explica que é possível se deparar tanto com pacientes que manifestam os sintomas de um tipo de epilepsia logo ao nascer quanto com aqueles já idosos, que nunca tiveram um crise na vida anteriormente. “Esse é o perfil mais frequente, nos extremos da vida: na infância e na velhice. Uma situação relativamente comum na infância é o aparecimento de crises convulsivas febris até os 5 anos e depois as crises desaparecem, podendo voltar na adolescência.”

Os passos necessários para um diagnóstico correto de qual tipo de epilepsia o paciente é portador dependem de uma avaliação neurológica detalhada, por meio de uma consulta benfeita. Os exames que devem ser realizados para se chegar ao diagnóstico de epilepsia são, inicialmente, feitos por avaliação clínica, que vai levar em consideração os sintomas, acompanhados de exames complementares, como o eletroencefalograma (EEG), que registra a atividade elétrica do cérebro, e a ressonância magnética, que vai mostrar se o cérebro tem todas as estruturas em ordem.

De acordo com o neurocirurgião, com o avanço da ciência, 80% dos portadores controlam bem as crises com remédios. “O tratamento convencional das epilepsias é fundamentalmente medicamentoso. Existem vários anticonvulsivantes orais disponíveis atualmente no mercado. Os chamados de primeira linha – fenobarbital, fenitoína, carbamazepina e ácido valproico – são disponibilizados pelo SUS e controlam até 75% das crises. Os de geração mais recente e de alto custo – oxcarbazepina, lamotrigina e topiramato – controlam os outros 5% das crises, mas para ter acesso é preciso comprá-los ou entrar com um pedido judicial.”

AGRAVAMENTO


Se a escolha do medicamento não for adequada, além de não se conseguir o controle das crises, as epilepsias podem ser agravadas. Quando não é possível definir o tipo de epilepsia apenas com a consulta e com o eletroencefalograma convencional, principalmente se as crises continuarem, é indicado o exame de vídeo-EEG (vídeoeletroencefalografia). Esse exame faz a filmagem das crises e o registro da atividade elétrica cerebral concomitante, podendo ser bastante útil no diagnóstico diferencial de qual tipo de epilepsia ou de quadros não epilépticos.

Os outros 20% dos casos se mostram refratários, ou seja, as pessoas continuam a ter crises, apesar da troca ou associação de diversos medicamentos. Estima-se que metade desses pacientes refratários possam se beneficiar do tratamento cirúrgico das epilepsias. Essa modalidade terapêutica é obrigatoriamente precedida por uma avaliação cuidadosa, que deve incluir sempre avaliação clínica, ressonância nuclear magnética do encéfalo, vídeo-EEG prolongado e avaliação neuropsicológica. No Nate, os casos de cada paciente são discutidos por toda a equipe, em reuniões semanais.

Siqueira explica que a cirurgia é indicada para aqueles pacientes refratários que apresentem um foco específico no cérebro que pode ser retirado em uma operação, o que controla de 80% a 90% das crises. “Sem esse foco, a cirurgia não é possível, assim como quando os focos forem múltiplos. Nesse caso, o indicado é a implantação de um marcapasso cerebral, chamado de estimulador do nervo vago, que manda estímulos elétricos para o cérebro, impedindo a crise.”

Parte significativa dos pacientes (em torno de 30%) que se mostram refratários ao tratamento medicamentoso apresentam na verdade crises não epilépticas, de causas variadas. Essas crises podem ser de origem cardiológica, como nas arritmias cardíacas, nos distúrbios do sono e dos movimentos, ou associadas a fatores psicogênicos. O diagnóstico adequado é fundamental para que se indique o tratamento correto, já que nesses casos nem sempre são necessários os medicamentos antiepilépticos.

PERSONAGEM DA NOTÍCIA: Denise de Miranda Almeida, de 53 anos, que passou por cirurgia para tratar a epilepsia

Cinco décadas de crises diárias

A publicitária foi diagnosticada aos 3 anos, quando uma febre muito alta causada pelo sarampo desencadeou crises convulsivas. “A febre não baixava e tive que ser hospitalizada. Saí da internação já tomando medicamentos para tentar controlar as crises.” Porém, ela não teve a resposta esperada e passou quase cinco décadas com uma média de cinco crises diárias, de tipos diferentes. “A crise convulsiva começava como um mal-estar, tipo enjoo, e logo a nuca pesava. Era muito rápido, mas já sabia que ia cair e ter contrações musculares. Já me machuquei muito nessas quedas, com costelas quebradas e cortes na cabeça.” Ela descobriu o trabalho desenvolvido no Hospital Felício Rocho ao assistir a uma entrevista do neurocirurgião José Maurício Siqueira em um programa de TV e passou por todas as etapas do acompanhamento, até que a equipe decidisse pela cirurgia. “Aceitei na hora. Sempre tive que trabalhar por conta própria porque ou revelava logo que tinha epilepsia e não era contratada ou não falava e, quando tinha uma crise, era mandada embora. Precisava de ter qualidade de vida”. Depois da cirurgia, Denise não teve mais crises e continua tomando os medicamentos. Ela agora se dedica a esclarecer o máximo de pessoas sobre as epilepsias, inclusive pelo site www.epilepsiasempreconceito.com.br.