Os médicos encontraram traços de césio em 3,2 mil pessoas — incluindo 235 crianças —, o equivalente a 34,6% do grupo estudado. Em quase todos os examinados, o nível de radiação não ultrapassava 1mSv. De acordo com a física nuclear Emico Okuno, da Universidade de São Paulo (USP), as taxas detectadas ainda são baixas. “No Japão, tomaram muitos cuidados e evacuaram o local rapidamente. E tudo indica que o vento foi favorável, ao levar 80% dos átomos radioativos para o mar. Se fosse nos EUA, o acidente teria sido muito pior”, compara Emico.
No entanto, a radioatividade varrida para o oceano pode ter contaminado os peixes consumidos pelos moradores da região. Outro perigo também está na água do mar que foi usada para resfriar os reatores que vazavam radiação. “Os frutos do mar, os chás, tudo ficou contaminado. Se essa exposição, mesmo que baixa, continuar a ocorrer ao longo de um grande período, os efeitos poderão ser vistos. Em uma década ou mais, será possível fazer um levantamento comparativo para ver o acréscimo de leucemia em quem ficou ali”, estima Edulfo Eduardo Diaz, professor de Biofísica da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).
Com base no tempo de meia-vida do césio, estima-se que o material radioativo permaneça no solo e na água do local pelos próximos 300 anos. “O cenário pode se tornar sério a longo prazo, mesmo se os níveis de radiação forem baixos. O corpo se livra da maior parte da radiação, mas parte dela pode permanecer nele por anos. E os efeitos da radiação baixa na saúde ainda não são conhecidos”, avalia Marko Moscovitch, professor de medicina de radiação na Universidade de Georgetown, nos Estados Unidos. Embora não precisem se mudar, os moradores de Minamisoma deverão incluir exames médicos em sua rotina e terão de lavar os vegetais com mais cuidado.
A Universidade de Defesa Médica Nacional, de Saitama, por sua vez, se dedicou a descobrir como o desastre nuclear afetou a saúde psicológica dos funcionários que continuaram trabalhando nas usinas afetadas pelo incidente. O estudo incluiu 85% dos 1.053 empregados da Usina de Daiichi, onde ocorreu o acidente, e 84% dos 707 trabalhadores de Daini, instalação secundária que também foi afetada pelo episódio. Por meio de um questionário, as 1.495 pessoas concordaram em contar as experiências vividas depois do desastre e relataram sentimentos como nervosismo, baixa autoestima, cansaço e falta de esperança.
Entre as pessoas estudadas, os empregados de Daiichi foram os campeões em estresse causado pelo desastre. Enquanto 47% dos trabalhadores da usina principal apresentaram sinais de sofrimento psicológico, a taxa em Daini foi de 37%. “Dada a complexidade do desastre, com terremoto, tsunami e vazamento nuclear, essas taxas de trabalhadores com problemas psicológicos são esperadas. E, geralmente, quanto mais eles são expostos, maior é a resposta”, avalia Takeshi Tanigawa, autor do estudo e integrante do Departamento de Saúde Pública japonês. No caso do estresse pós-traumático, também houve uma diferença significativa: 30% dos funcionários de Daiichi foram encaixados na categoria, contra 19% dos empregados da outra usina.
Uma das causas da depressão que assolou os funcionários foi a discriminação sofrida por eles depois que a companhia em que trabalham foi alvo de duras críticas pela atuação depois do acidente. Ao menos 12% dos trabalhadores admitiram ter sido excluídos e insultados devido ao episódio. “Essas taxas de discriminação são os resultados mais desapontadores. O apoio de amigos, da família e da comunidade é fundamental para as pessoas cuja saúde mental foi afetada por um desastre. Deve ser muito difícil para eles se recuperarem”, lamentou James Rubin, do Instituto de Psiquiatria da King’s College, em Londres. Outro motivo para os distúrbios psicológicos é a perda de familiares e prejuízos materiais causados pela evacuação.
Esse estado psicológico frágil, aponta a pesquisa, pode ter consequências graves, como a perda da motivação, o risco de erros humanos no ambiente de trabalho e até mesmo o desenvolvimento de distúrbios mentais graves e de alcoolismo. “Há uma grande relação entre o estresse pós-traumático e problemas como dores de cabeça e de estômago, além do aumento de doenças preexistentes”, ressalta Paramijt Joshi, psiquiatra especialista em efeitos psicológicos causados por desastres. “Mas subestimamos a resiliência humana. A maioria vai aceitar a tragédia com o tempo e seguirá em frente.”
Medida radioativa
O mSv, ou milisievert, é a medida que leva em conta o efeito biológico da radiação absorvida nos tecidos vivos. A quantidade encontrada nos moradores de Minamisoma, 1mSv, é equivalente a 10 vezes a radiação emitida durante um exame de raio X. Em Chernobyl, os moradores chegaram a apresentar níveis de 350mSv.
Mutação em borboletas
Cientistas japoneses encontraram mutações genéticas em três gerações de borboletas nos arredores da central nuclear de Fukushima. Os bichos apresentam asas menores que o normal, além de uma má- formação dos olhos. Mais de 11% dos insetos da família Lycanidae expostos à radioatividade quando ainda eram larvas desenvolveram as anomalias. Entre os filhotes das borboletas afetadas, 18% desenvolveram problemas semelhantes. Na terceira geração, a proporção de insetos mutantes foi de 34%. O processo foi confirmado em laboratório, onde os cientistas expuseram espécimes saudáveis a doses baixas de radioatividade. Os insetos antes saudáveis geraram descendentes com os mesmos problemas das borboletas de Fukushima. O estudo foi publicado na versão digital da revista científica Nature.