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Estado de Minas

Conheça o trabalho dos paleontólogos, que vai da sorte à exaustão

Não há roteiro no desafio de desvendar a evolução. Alguns paleontólogos esbarram em fósseis. Outros levam a vida sem encontrar uma peça histórica


postado em 31/07/2012 09:05 / atualizado em 31/07/2012 09:25

 

Desenterrar o passado é um trabalho fascinante e, ao mesmo tempo, árduo. A imagem de “caçadores de fósseis”, retratada em filmes, pode passar a falsa impressão de que paleontólogos são aventureiros que viajam pelo mundo esbarrando em dinossauros e hominídeos. Nada mais falso. É preciso muita informação, técnica, sorte e paciência para trazer à luz uma história escondida por diversas camadas geológicas.


Um profissional pode passar a vida inteira sem achar algo muito significativo ou, em casos raríssimos, como o do primeiro esqueleto de neandertal descoberto, ser “encontrado” pelo fóssil, completamente por acaso. O mais usual, porém, é seguir um protocolo que começa com a pergunta: “O que quero encontrar?”.

(foto: Clique para ampliar a imagem)
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“Partindo dessa questão, selecionam-se os alvos, os sítios que poderiam apontar evidências fósseis e geológicas para respondê-la”, conta o paleontólogo Juan Carlos Cisneros, pesquisador da Universidade Federal do Piauí, cujo último trabalho publicado descreveu o carnívoro mais antigo da América do Sul, o Pampaphoneus biccai, descoberto no Rio Grande do Sul. A partir daí, é preciso, literalmente, seguir o caminho das pedras.


A tecnologia tem ajudado bastante nessa etapa. Imagens por satélite indicam onde encontrar rochas sedimentárias, aquelas que preservam fósseis. Além disso, revelam locais sem vegetação próxima – o solo e a mata cobrem as rochas, impedindo a observação dos sítios. Na descoberta do Pampaphoneus biccai, por exemplo, a equipe de Cisneros se guiou pelo programa Google Earth. O software mostrou que em uma fazenda no município de São Gabriel (RS) havia uma formação rochosa promissora do Período Permiano, quando a Terra era um só continente. A dica do satélite foi preciosa, e os pesquisadores encontraram uma espécie até então completamente desconhecida.

Nem sempre a primeira viagem a campo é tão frutífera. “Fizemos uma expedição na Bacia do Parnaíba em 2011 e tivemos resultados modestos. Um ano depois, voltamos e os resultados foram muito bons”, conta Cisneros, que pretende publicar, em 2013, um artigo sobre a descoberta – anfíbios paleozoicos encontrados perto de Teresina (PI). De acordo com o especialista, saber olhar os fósseis é essencial. “Pode acontecer de você selecionar bem, ir aos locais corretos, mas seus olhos ainda não aprenderam a ver o tipo de fóssil”, diz.

Às vezes, um golpe de sorte torna o trabalho bem mais fácil. Foi o que ocorreu com o geólogo Iyad Zalmout, da Universidade de Michigan. Há três anos, ele encontrou o fóssil de um primata no segundo dia de uma expedição à formação de Harrat Ul Ujayfa, na Arábia Saudita. Zalmout estava escalando um platô quando viu algo parecido com um dente. “Me ajoelhei e me aproximei. Então, gritei em árabe: ‘É um primata, é um macaco!’”, recorda. No dia seguinte, achou mais ossos, incluindo um crânio. O geólogo havia descoberto o Saadanius hijazensis, primata de 29 milhões de anos, uma época em que as linhagens ancestrais de humanos e de macacos ainda não haviam se dividido. O achado rendeu a capa da revista científica Nature e mais um elemento na árvore da vida.

Por mais empolgantes que sejam, essas descobertas podem ser exaustivas. Em campo, faz-se um trabalho braçal, com a ajuda de diversos equipamentos, dependendo do tamanho da área e do tipo de fóssil escavado. Imediatamente, os cientistas protegem seus achados com conservantes, trabalho que será continuado em laboratório. A expedição a céu aberto pode demorar dias ou anos. Juan Carlos Cisneros se recorda de um dinossauro que levou sete anos para ser escavado na África do Sul.

Juan Carlos Cisneros descreveu o carnívoro mais antigo da América do Sul(foto: ARQUIVO PESSOAL)
Juan Carlos Cisneros descreveu o carnívoro mais antigo da América do Sul (foto: ARQUIVO PESSOAL)
Depois disso, passa-se à fase do quebra-cabeças. Os pesquisadores precisam montar o esqueleto do animal com as peças que têm à mão – quase nunca se encontra um fóssil completo – e tentar catalogá-lo. “Temos de identificar e delimitar o que é o fóssil. Muitas vezes, na primeira olhada, já sabemos do que se trata, mas o trabalho envolve um grupo eclético para identificar diferentes tipos de fósseis”, conta Juan Cisneros. Eventualmente, coleta-se o material primeiro para, só no laboratório, descobrir do que se trata.

As características anatômicas são comparadas às de outros animais conhecidos e já descritos para tentar encaixar os fósseis em um grupo. Na fase de pesquisa e de interpretação dos resultados, às vezes os paleontólogos viajam a outras partes do mundo, onde foram encontrados fósseis similares. No caso de espécies novas, os especialistas precisam descobrir o parentesco do animal por análise filogenética, o que torna a missão ainda mais árdua. Nada disso, porém, desanima os pesquisadores, que sabem que ainda há muitos mistérios esperando para serem desvendados.

 

 


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