Publicidade

Estado de Minas

Escolas vivem overdose de diagnósticos de hiperatividade ou desatenção

É raro encontrar criança em idade escolar que não use remédio para domar a hiperatividade ou desatenção. Adultos e jovens adotam o cloridrato de metilfenidato para ter boa concentração em dia de prova ou no trabalho. Sites comercializam a droga e trazem depoimentos de usuários


postado em 04/07/2012 07:33 / atualizado em 04/07/2012 13:07

Maria Isabel* e a filha, Letícia* (nomes fictícios): a menina usou o remédio dos 8 aos 11 anos e só falava em morrer. A mãe optou por interromper o tratamento(foto: Alexandre Guzanshe/EM/D.A Press)
Maria Isabel* e a filha, Letícia* (nomes fictícios): a menina usou o remédio dos 8 aos 11 anos e só falava em morrer. A mãe optou por interromper o tratamento (foto: Alexandre Guzanshe/EM/D.A Press)
Crianças confusas, agitadas, desatentas, que não conseguem acompanhar o ritmo da escola. Educadores sem preparo para lidar com alunos que necessitam de mais atenção. Pais sem tempo e cheio de dúvidas em relação à educação dos filhos. Médicos que encontram um diagnóstico para responder a todas essas questões e “sossegar” esse desespero. As “drogas da obediência”, assim chamadas as medicações Concerta e Ritalina, que têm como princípio ativo o cloridrato de metilfenidato, são receitadas para quem sofre do transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH), e estão sendo vendidas, tanto para os diagnósticos corretos, incorretos e até para quem sequer tem suspeita do distúrbio, conforme vem mostrando a série de reportagens do Estado de Minas publicada desde segunda-feira.

Apesar dos medicamentos serem tarja preta – classificação que indica se tratar de remédio de alto risco para o paciente, pois ativa o sistema nervoso central (SNC) ou provoca ação sedativa e, por este motivo, pode causar dependência física ou psíquica – e somente comprados com receita especial, o acesso às drogas é fácil. Além das crianças, o cloridrato de metilfenidato tem sido amplamente usado por jovens que querem se dar bem em provas e por adultos que precisam enfrentar uma reunião, um concurso ou mesmo falar em público, diante de uma apresentação de trabalho.

Pelas escolas particulares de Belo Horizonte é difícil encontrar uma criança que não esteja sendo medicada. “Tudo virou TDAH. Fui chamada pela escola do meu filho, me disseram que ele tem que tomar Ritalina. O ensino está cada vez mais apertado e, quem não dá conta dele, tem que ser dopado?”, questiona uma mãe, que prefere não se identificar. Seu dilema é o mesmo de centenas de pais que neste exato momento devem estar na sala da diretoria recebendo o mesmo diagnóstico para o filho.

Foi assim com Letícia*, hoje com 16 anos. Ela estudava em uma escola particular de BH, que cobrava muito no ensino. “Ela não conseguia acompanhar. Aos 8 anos ela foi diagnosticada com o TDAH e, durante três anos foi medicada com Ritalina. Foram os piores anos da minha filha. Ela não se adaptou ao medicamento, teve depressão e só falava em morrer”, conta Maria Isabel*, mãe da menina. Desconfiada com o medicamento que só poderia ser usado durante as aulas, sendo suspenso nos fins de semana, férias e feriados, Isabel mudou a menina da escola que não lhe deu apoio e a transferiu para outra com nível de cobrança mais leve. “Suspendi o remédio e passei a fazer um acompanhamento com psicólogos. A autoestima dela melhorou. Hoje faz inglês e está no 2º ano do ensino médio”, conta.

De acordo com a consultora pedagógica do Sindicato das Escolas Particulares de BH e especialista em educação infantil, Renata Gazzinelli, está cada vez mais comum alunos com diagnóstico de desatenção e hiperatividade e muitos professores não estão preparados para lidar com o problema. “Apesar de muitas escolas contarem com um corpo de psicopedagogos e psicólogos, que têm conhecimento no assunto, há as que não têm essa estrutura, dependendo da percepção de professores para os casos.” Para ela, o que dificulta essa observação é que na sala de aula com 35 alunos há um com necessidade especial, cujos pais querem mantê-lo nessa instituição. “Mas, muitas vezes, ele não tem o perfil. Então, os pais deve se perguntar se o filho é para aquela escola; se não é hora de repensar uma forma mais leve de estudos que não seja tão firme. Só que a escola muitas vezes não dá conta de lidar com essa criança. Então, falta às vezes, esse limite das famílias. Aí, eles caem nas mãos de médicos que estão afim de resolver o problema e pegar o próximo cliente”, avalia.

Filhos do estresse
Renata Gazzinelli diz que o número de crianças e jovens sem limites tem sido um absurdo nas instituições escolares. “Eles fazem o que querem e parecem um carro desgovernado. São os filhos do estresse. E os educadores ficam de mãos atadas, pois os cursos de pedagogia não os preparam para isso. Os professores se tornaram refém da situação e a escola se vê também em outros dilemas, com professores mal formados, gestão frágil e escassez de bons profissionais. A família põe a culpa dos transtornos dos filhos nas escolas, mas não participam do ambiente escolar. Se não dermos as mãos, não sairemos desse círculo.”

De acordo com a psicóloga Juliana Baldo, do setor de psicologia educacional do tradicional Colégio Santo Antônio, na Região Centro-Sul de Belo Horizonte, realmente tem havido muitos equívocos médicos para uso das medicações. “Aqui, primeiro investigamos com cautela, pois a desatenção é causada por muitos fatores. Temos percebido que há muitas crianças sendo medicadas e cujo diagnóstico real não é de TDAH. Nosso setor de psicologia tem feito uma discussão sobre esse aumento no uso do remédio. É um fenômeno social, da educação privada”, diz.

Os subnotificados da rede pública
Enquanto jorram diagnósticos para TDAH em meninos e meninas das escolas privadas, na rede pública o caminho é inverso. De acordo com estudo em andamento pelo setor de psiquiatria da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), o transtorno tem passado despercebido nas instituições de Belo Horizonte e também do interior do estado. “Ainda não temos a análise completa para divulgar. Mas em uma das escolas analisadas, dos 90 estudantes examinados de 5% a 10% apresentavam o distúrbio, mas nenhum deles estava sendo tratado. Ou seja, se está havendo prescrição excessiva, é da escola particular. Na rede pública, isso está sendo subnotificado”, preocupa-se o professor de psquiatria infantil da UFMG Arthur Kummer, lembrando que os medicamentos via Sistema Único de Saúde ainda não estão disponíveis em Minas, como em outros estados.

No Rio Grande do Sul o problema tem sido o mesmo. De acordo com o professor titular de psiquiatria da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRS) e professor de Pós-Graduação em Psiquiatria da Universidade de São Paulo (USP), Luís Augusto Paim Rodhe, estudo feito em Porto Alegre em 12 escolas públicas examinou 500 crianças com potenciais para o transtorno. “Dessas, 100 confirmaram o TDAH, com prejuízos no aprendizado. Somente três tinham o diagnóstico prévio e tratamento”, pontua.


"Meu filho não queria estudar, não conseguia acompanhar nada do que passavam para ele na escola. Tomou duas bombas. Até que foi diagnosticado com TDAH e medicado. Deu certo. Há quatro anos ele toma o remédio, tem conseguido estudar e já pensa no vestibular.”

> D.D.R., funcionária pública

Compartilhe no Facebook
*Apenas para assinantes do Estado de Minas

Publicidade