Jornal Estado de Minas

Técnica usa radiação solar e cloreto de sódio para tornar água própria para consumo

O trabalho é um aperfeiçoamento de uma tecnologia já existente: o método de desinfecção solar de água (Sodis), recomendado pela OMS.

Paloma Oliveto
Para quem tem acesso a água potável, é difícil imaginar que, somente na África, 4 mil crianças morrem diariamente vítimas de diarreia, problema associado à má qualidade do saneamento. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), 80% das doenças de países em desenvolvimento estão relacionadas à infecção intestinal. Agora, um método simples e praticamente sem custos desenvolvido no Centro Tecnológico da Universidade de Michigan, promete salvar vidas, usando sol e sal para purificar a água imprópria para o consumo.
O trabalho é um aperfeiçoamento de uma tecnologia já existente: o método de desinfecção solar de água (Sodis), recomendado pela OMS. “Há anos as pessoas têm buscado meios efetivos e baratos para tratar a água, e o mais apropriado é o Sodis. Você usa uma garrafa plástica limpa, enche três quartos do recipiente, sacode a garrafa e a expõe ao sol durante seis horas”, conta Joshua Pearce, pesquisador da Universidade de Michigan. “A combinação da radiação UV com a radiação termal mata os agentes patógenos. Além do mais, cada família que usa o Sodis gasta, anualmente, apenas entre US$ 0,40 e US$ 3 com o método.”

Estudos epidemiológicos já associaram a adoção do Sodis ao declínio na incidência da diarreia. Pesquisas conduzidas pelo Centro de Controle de Doenças dos Estados Unidos e pela própria OMS provaram que em locais onde o método é utilizado houve uma redução de mais de 85% nos casos da doença, o que beneficia principalmente crianças com menos de 5 anos, as principais vítimas do mal. “Isso é muito efetivo se você tem à mão uma amostra relativamente pura e transparente de água”, explica Pearce. O problema é que em muitas regiões do planeta a única água disponível é retirada do barro. A água turva é considerada uma grande preocupação pela OMS, pois diversos estudos biológicos revelaram que, nesse caso, expor o líquido à radiação solar não mata os micro-organismos.

“No nosso trabalho, procuramos encontrar uma solução para aquelas pessoas que não têm acesso à água límpida, mas somente àquela turva, repleta de partículas. Nesses casos, o Sodis tradicional não funciona, pois os patógenos se escondem sob as partículas sujas”, diz Brittney Dawney, estudante de engenharia da Universidade de Queens, em Ontário (Canadá). “Então, procuramos outro método eficaz e barato e encontramos a resposta no sal de cozinha, algo que todo mundo tem em casa, mesmo que apenas um punhado”, afirma.

Um dos métodos de purificação da água turva consiste na floculação, processo pelo qual as partículas soltas ficam aglomeradas em flocos, o que facilita sua retirada, bastando coar o líquido. Joshua Pearce explica que, devido ao efeito da gravidade, partículas relativamente grandes e sólidas vão para o fundo da garrafa, mas as menores continuam circulando pela água. Em equipamentos industriais, adicionam-se produtos químicos que facilitam a aglomeração, mas eles são caros e de difícil acesso. No estudo da Universidade de Michigan, esses compostos foram substituídos pelo cloreto de sódio. Os pesquisadores usaram amostras de três tipos de partículas encontradas nos solos de países tropicais: caulinita, ilita e bentonita. Os cientistas queriam checar se ocorreria a floculação em diferentes níveis de turbidez (50, 100 e 200 UTN), além de chegar à concentração ideal do cloreto de sódio na água, já que a ingestão em excesso do composto também traz danos à saúde.

Limite

No estudo, Pearce e Dawney utilizaram o limite de consumo de sal recomendado nos Estados Unidos: 5.800mg por dia. Considerando que, entre alimentos e líquidos, homens e mulheres devem, tomar, respectivamente, 3,7l e 2,7l de água diariamente, o teor de sódio na água purificada não podia exceder 650mg/l, no caso de homens, e 890mg/l para as mulheres. Em laboratório, os cientistas usaram água destilada, acrescentaram as partículas e o cloreto de sódio, aqueceram as amostras e depois analisaram o nível de purificação.

No caso da água com caulinita, o método foi extremamente efetivo: 98% dos resíduos foram completamente eliminados. Já quando as partículas eram de ilita e bentonita, a eficácia não foi a mesma, mas o nefelômetro mostrou que a turbidez ficou abaixo de 30 UTN, indicando que a água estava própria para consumo. Quanto à acidez, Pearce garante que a quantidade de cloreto de sódio não afetou significativamente o pH nem o gosto do líquido. “Eu mesmo bebo tranquilamente dessa água”, garante.

O cientista afirma que próximos estudos vão se concentrar no aperfeiçoamento da técnica para casos de solos compostos por ilita e bentonita. Além disso, ele afirma que é necessário conduzir pesquisas de campo em locais onde há outros tipos de partículas não testadas ainda. “Mais trabalho deve ser feito para investigar a eficácia do cloreto de sódio para remover contaminantes microbiológicos, além de identificar todos os possíveis riscos à saúde associados à tecnologia que desenvolvemos”, conta. Apesar de admitir que alguns passos ainda precisam ser dados, Pearce está satisfeito com os resultados, que segundo ele já permitem a aplicação do método em locais onde o solo é rico em caulinita. “Imagine quantas vidas poderão ser salvas”, observa.

Medida

A unidade de turbidez nefelométrica (UTN) mede o quanto a água é turva, baseada na luz que se dispersa em ângulo de 90° em relação a um feixe de luz incidente. Para se medir a turbidez, usa-se um nefelômetro.