Jornal Estado de Minas

Cientistas debatem origens e possível fim para os conflitos mundiais

Especialistas de diferentes áreas discutem por que conflitos e guerras marcam a história da humanidade. Fim dos confrontos pode estar no exercício da empatia, a capacidade do homem de se colocar no lugar dos outros

Paloma Oliveto

Um dos últimos comboios de soldados americanos a deixar o Iraque: desenvolvimento de armas ampliou a capacidade de extermínio do homem - Foto: Lucas Jackson/Reuters - 18/12/11Em um mundo cada vez mais pontuado por guerras e crimes bárbaros, onde cor de pele, orientação sexual, religião ou nacionalidade podem ser o estopim de um grave conflito, muitas pessoas questionam se a violência está enraizada no ser humano. Lutar por comida, espaço ou domínio é algo comum a todos os animais, que precisam dessa característica por questões evolutivas. Em qual outra espécie, porém, um membro do grupo é capaz de se sacrificar para matar seus oponentes, como fazem os homens-bombas? Ou tentar eliminar uma etnia inteira, por acreditar que é superior a ela?

O tema é controverso e tem ganhado espaço no meio acadêmico. Na edição de hoje da revista Science, cientistas debatem as origens dos conflitos sociais e, embora admitam que a trajetória do Homo sapiens está diretamente associada à violência, eles oferecem algum alento, lembrando que a capacidade de solucionar problemas e viver pacificamente também é inata. A chave para uma convivência sem guerras, de acordo com especialistas, pode estar na empatia. A partir do momento em que a separação entre “nós” e “eles” desaparece – ou, ao menos, se encurta –, fica mais fácil aceitar as peculiaridades de cada grupo social, evitando rejeições e disputas acirradas.

A base dos conflitos – e da capacidade de superá-los – está impressa nos genes dos humanos modernos. Para explicar como isso ocorreu, o primatólgo Christopher Boehm, do Departamento de Ciências Biológica e Antropologia da Universidade do Sul da Califórnia, propõe voltar mais de 5 milhões de anos no tempo, antes que homens, chimpanzés e bonobos tivessem evoluído a partir de um mesmo ancestral.

Embora ninguém saiba dizer exatamente a época em que as três diferentes espécies se diferenciaram, é certo que descendem de primatas que viviam em grupos. É possível, de acordo com Boehm, inferir que esses animais possuíam uma hierarquia e disputavam o domínio, porque são características ainda presentes nas espécies descendentes.

Diversidade
“Ao analisar as semelhanças entre os três descendentes desse ancestral, posso chegar a fazer algumas conclusões sobre comportamentos que ele provavelmente teria. A partir disso, tenho condições de explorar os fatores que podem ter levado o homem a desenvolver traços muito peculiares, que encontramos nos modernos Homo sapiens”, diz Boehm. Segundo ele, à medida que as espécies se diferenciaram, algumas características do primata ancestral se arrefeceram ou se intensificaram de maneira diferente, dependendo do descendente.

Bonobos, por exemplo, são conhecidos pelo comportamento “paz e amor”. Mesmo com uma organização social extremamente complexa, eles conseguem viver praticamente sem conflitos. Esses macacos vivem em grupos onde machos e fêmeas têm o mesmo nível de poder, e são comuns as alianças entre espécimes do mesmo gênero para disputar, principalmente, comida. Embora não estejam completamente livres de combates, eles costumam resolver as pendências à base de sexo. Ao mesmo tempo em que podem matar uns aos outros, bonobos, normalmente, têm uma rápida resposta aos conflitos, e costumam fazer as pazes quase que imediatamente depois de uma luta.

Já os chimpanzés não são tão pacíficos. Eles se abraçam e se beijam quando “ficam de bem”, mas, como os humanos, têm uma tendência maior de ferir e matar o oponente, comparando-se aos bonobos. Uma figura forte entre os grupos de chimpanzés é a do macho alfa, que controla todos que estão hierarquicamente abaixo dele, mediando ou deflagrando conflitos com agrupamentos diferentes do dele. Entre os homens modernos, essa figura não existe, mas uma característica particular fez com que ele se tornasse a espécie potencialmente mais letal do planeta: a produção de armas. Christopher Boehm destaca que, embora consigam fazer ferramentas simples, os macacos não as utilizam para ferir ou matar. “Já os homens têm à sua disposição instrumentos com os quais podem exterminar não apenas seres maiores que ele, mas em grande quantidade”, recorda Boehm. Essa foi uma habilidade que permitiu aos primeiros Homo sapiens uma eficiência maior na caça, mas o instrumento começou a ser usado também para exterminar indivíduos da mesma espécie.

Tratados

A humanidade, porém, não é apenas cruel ou violenta. “Felizmente, também herdamos a capacidade de mediar e evitar conflitos. Tratados pacíficos já ocorriam entre os primeiros caçadores-coletores, e atualmente vemos isso entre nações. Ao que parece, da mesma forma que nossos genes trazem as marcas de confrontos entre diferentes grupos, a busca pela paz também prevaleceu no Homo sapiens, a partir do momento em que ele se tornou culturalmente moderno”, afirma Boehm.

Em outro artigo publicado na Science, Frans B. M. de Waal, psicólogo da Universidade de Emory, em Atlanta, lembra que a espécie não é essencialmente violenta. De acordo com ele, são raros os registros fósseis que sinalizam uma guerra, como a presença de muitos esqueletos em um mesmo local, com marcas de ferimentos. Para ele, a concepção de que o homem está sempre em guerra e vive, eventualmente, curtos períodos de paz, não faz sentido. “Na nossa pré-história, sabemos que grupos de caçadores-coletores podiam se envolver em conflitos, mas, normalmente, eles faziam trocas, casavam-se com membros de outros grupos e permitiam acesso a seu território, em um exemplo robusto de convivência pacífica”, afirma.

O ser humano, alega Waal, tem uma incrível capacidade de se colocar no lugar do próximo. “Quando uma criança cai no chão e machuca seu joelho, imediatamente nós dizemos ‘Oh!’, e é como se tivesse ocorrido conosco. A empatia também é a razão pela qual pessoas se jogam em um rio para tentar salvar um afogado ou doamos sangue sem sequer ter ideia de quem vai recebê-lo”, alega. Essa é uma característica adaptativa dos mamíferos, diz o especialista. O homem precisa garantir a continuidade da espécie, assim como os chimpanzés, que adotam filhotes cujas mães morreram, ou mesmo os ratinhos de laboratório, que compartilham a recompensa recebida quando executam bem suas tarefas.

A recompensa, aliás, é a base biológica da empatia, de acordo com Frans Waal. Quando fazem uma boa ação, as pessoas têm uma sensação de bem-estar, provocada pela ativação da área cerebral relacionada ao sistema de recompensas. Mas, no reino animal, isso é observado apenas em indivíduos do mesmo grupo. Essa é uma questão de evolução, pois você precisa zelar pelas pessoas que convivem com você. Ao mesmo tempo, é um desafio para o mundo moderno, no qual, cada vez mais, temos que integrar diferentes nacionalidades, etnias e estilos de vida”, pondera.

Paz no Xingu

As diferenças não levam, necessariamente, a conflitos. Algumas tribos indígenas jamais entram em guerra com outros povos, segundo Douglas P. Fry, pesquisador do Departamento de Ciências da Universidade de Abo Akademi, na Finlândia. No artigo que preparou para a Science, ele cita os indígenas do Alto Xingu, no Brasil, e a Confederação dos Iroquois, nos Estados Unidos, como exemplos de populações que nunca pegaram em armas contra diferentes populações. Fry destaca, porém, que, para tanto, esses grupos estão vinculados aos outros por algum tipo de identidade. Na Bacia do Xingu, 10 tribos, que falam quatro línguas diferentes, vivem de forma pacífica, pois se identificam, todos, como indivíduos tribais. O mesmo ocorre entre as tribos do estado de Nova York.

“Seria possível criar um sistema global de paz que aboliria a guerra do planeta? Teoricamente, sim”, afirma o pesquisador. Para ele, interdependência e desafios comuns a todos, como a luta contra o aquecimento global e a fome no mundo, necessitam de cooperação e podem adicionar um nível de identidade social entre diferentes povos, que vai além de patriotismo. O desenvolvimento de valores e símbolos supranacionais, de acordo com Fry, acabaria com a distância entre “nós” e “eles”, pois as pessoas, independentemente do lugar onde moram, se identificariam não como americanas, europeias, asiáticas ou africanas, mas sim como seres humanos.