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Estado de Minas

Cientistas querem menos burocracia para solucionar questões ambientais

Grupo de cientistas propõe que a ONU reformule seu sistema de discussão sobre o meio ambiente, criando uma agência com estrutura de decisão mais simplificada


postado em 16/03/2012 07:46 / atualizado em 16/03/2012 07:51

Quando a Organização das Nações Unidas (ONU) foi criada, em 1945, seu principal objetivo era promover a cooperação internacional na solução dos problemas econômicos, sociais e humanitários. Se na década de 1940 as questões universais com as quais o organismo deveria se preocupar estavam limitadas, basicamente, aos conflitos bélicos e às tensões políticas, hoje novos problemas desafiam o órgão, com destaque para a questão ambiental.

Em artigo publicado na edição de hoje da revista científica Science, o grupo Earth System Governance, composto por cientistas de vários países, incluindo o Brasil, afirma que as questões ambientais só poderão ser resolvidas no âmbito internacional depois de uma grande reestruturação nas Nações Unidas. Para eles, a Rio+20, conferência que ocorre em junho no Rio de Janeiro, será uma grande oportunidade para promover essas mudanças e um teste crucial para verificar se há vontade política para enfrentar os problemas relacionados ao meio ambiente.

Entre os sete pontos que o grupo defende no artigo (veja quadro), destaca-se a proposta de criação de uma Agência Mundial do Meio Ambiente, semelhante à Agência Mundial de Saúde (OMS), que substituiria o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma). Uma das vantagens, segundo os especialistas, seria a possibilidade de mudar a forma de votação dentro da autarquia, com a implantação do sistema de maioria qualificada, o que simplificaria o processo e facilitaria a aprovação de resoluções e normas.

A pesquisadora Susana Camargo Vieira, da Universidade de Itaúna, no Centro-Oeste de Minas, a 75 quilômetros de Belo Horizonte, uma das autoras do texto, explica que a situação ambiental chegou a um ponto tão sério que é necessário deixar as longas e intermináveis discussões internacionais de lado e agir de maneira rápida objetiva. "Não dá mais tempo para ficarmos pensando e discutindo a questão. Precisamos de ações diretas e concretas", defende. "Precisamos criar mecanismos para diminuir a burocracia e a lentidão das tomadas de decisões. Uma agência especializada poderia fazer isso de maneira bastante eficiente."

Outra sugestão do grupo é uma reforma da Comissão das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável (CDS). Concebida dentro da Eco92, realizada no Rio de Janeiro em 1992, a organização ligada ao Conselho Econômico e Social da ONU tem a missão de elaborar e implementar as orientações internacionais ligadas ao desenvolvimento econômico aliado à sustentabilidade. "Quando a CDS foi criada, vivíamos um outro momento histórico, do pós-Guerra Fria. O modelo criado, com representação geográfica dos países, fazia sentido", diz Susana. "No entanto esse modelo está esgotado para os padrões atuais, com as potências emergentes e a questão ambiental ainda mais grave", acrescenta.

A ideia é que o novo CDS fosse vinculado à Assembleia Geral da ONU – órgão máximo das Nações Unidas – com peso maior de decisão cabendo ao G20. Isso incluiria nas decisões países como o Brasil, que tem uma importância crucial para o equilíbrio ecológico do mundo. "Atualmente, o conceito de que o desenvolvimento está ligado apenas a ganhar dinheiro foi superado. A questão ambiental conecta-se com os direitos humanos. Não é possível se considerar rico se não há água para beber", completa a especialista mineira.

Obstáculos O porta-voz do Pnuma, Nick Nuttall, explica que o fortalecimento do órgão é uma demanda. Atualmente, mais de 100 países já deram sinais de que desejam ver o programa reforçado. "Por quê? Porque a voz e a autoridade de tomada de decisão dos ministros responsáveis pelo meio ambiente pode muitas vezes ser marginalizada", afirma Nuttall. "Quando ministros do meio ambiente encontram-se no Conselho de Administração do Pnuma, suas decisões são transmitidas para a Assembleia Geral da ONU em Nova York. Lá, essas decisões podem ser acordadas ou apenas arquivadas. No caso de ministros da Saúde, esse problema não ocorre", afirma.

Ele lembra, contudo, que a questão ambiental ainda não é vista como prioritária no mundo. "O Pnuma tem apenas 58 Estados membros e o financiamento é voluntário", lembra. Além disso, ele vê como um obstáculo a dificuldade de botar em prática aquilo que é proposto em acordos internacionais. "As nações gastam uma grande quantidade de tempo e habilidade em negociação de acordos multilaterais ambientais, mas a execução muitas vezes fica aquém da ambição", lamenta.

A coordenadora do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UnB), Cristina Inoue, explica que, politicamente, a criação de uma agência da ONU é uma meta difícil. "Seria necessário um novo acordo internacional. Não é possível as Nações Unidas criarem uma agência. Ela deve ser fruto de um novo sistema jurídico", argumenta a pesquisadora.

Além disso, para Cristina, a criação de uma nova estrutura para as discussões ambientais não necessariamente melhoraria a situação, porque todo o sistema atual de discussões multilaterais passa por problemas. "De certa forma, todos os mecanismos democráticos internacionais vêm ficando desacreditadas. Alcançar acordos multilaterais está cada vez mais difícil", conta a especialista. A ausência da participação de outros atores que não os governos, como a sociedade civil e o mercado, estariam deixando as estruturas mais desacreditadas. "A solução, por enquanto, tem sido a discussão em fóruns menores, como o G8 e o G20", completa a professora.


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