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Estado de Minas

Capacidade de desenvolver cultura está ligada à habilidade de transmitir informações


postado em 06/03/2012 09:29 / atualizado em 06/03/2012 09:39

Jardim de infância no Vietnã: desde cedo, ser humano se mostra apto a desenvolver atitude pró-social(foto: Kham/Reuters - 30/11/09)
Jardim de infância no Vietnã: desde cedo, ser humano se mostra apto a desenvolver atitude pró-social (foto: Kham/Reuters - 30/11/09)
Brasília – O que diferencia os seres humanos dos animais? Alguns grupos dizem que é a existência de algo chamado “alma”. Outros preferem acreditar que seria o intelecto altamente desenvolvido do Homo sapiens. Para os antropólogos, porém, o que coloca as pessoas em um grupo diferente dos demais seres vivos é a cultura, ou a capacidade de criar conhecimento e tradições, que são passados de geração para geração. Entender de que modo o ser humano se desprendeu dos outros animais gerando essa capacidade única é um objetivo de muitos cientistas, e uma pista para essa resposta acaba de ser publicada na edição da revista científica Science. Pesquisadores da Universidade Saint Andrews, no Reino Unido, encontraram na capacidade de colaborar e transmitir saber características peculiares aos humanos, não presentes sequer em animais próximos, outros primatas.

Depois de estudar o comportamento de crianças, macacos e chimpanzés na solução de um problema, os pesquisadores constataram que, quando colaboravam e se ajudavam, desenvolvendo uma atitude pró-social, os seres humanos obtinham um sucesso muito maior na realização da tarefa que os dois conjuntos de animais, que não tinham essa capacidade.

“Nosso estudo mostra que os humanos diferem de outros animais por possuir um pacote de capacidades sociocognitivas – incluindo o ensino, a imitação, a linguagem e a sociabilidade – que potencialmente os ajuda a transmitir informações de maneira fidedigna”, explica ao Estado de Minas Kevin Laland, um dos responsáveis pelo estudo.

No trabalho, os especialistas aplicaram um teste relativamente simples em crianças de 3 anos – ainda em processo de desenvolvimento sociocultural –, chimpanzés e macacos-pregos, que, reunidos em grupos, tinham que descobrir a maneira de abrir uma caixa. Cada solução resultaria em um presente: comidas para os animais e fichas para as crianças. “Ficamos surpresos com as diferenças gritantes entre as crianças e os outros animais”, relata Laland. “As crianças responderam à tarefa como um exercício social, ajudando umas às outras, enquanto os chimpanzés e os macacos pareciam preocupados consigo mesmos, atuando praticamente de forma independente”, acrescenta o pesquisador.

O cientista da Universidade Saint Andrews diz que são necessários dois aspectos para que haja transmissão de cultura: a habilidade de transmitir informações com precisão e a capacidade de melhorá-las. “Transmissão exata depende de instrução verbal de alta fidelidade, enquanto a melhoria requer cooperação e sociabilidade”, conta Laland. “Coletivamente, essas habilidades representam o pacote de chaves de atributos sociais e cognitivos necessários para que a cultura se amplie em complexidade ao longo do tempo”, diz.

História individual

O pesquisador da Universidade de Brasília (UnB) Roque Laraia explica que entender como o ser humano passou a desenvolver a cultura é uma das grandes perguntas dos antropólogos. “Alguns teóricos, como Lévi-Strauss, acreditam que o homem começou a desenvolver a cultura a partir do momento em que criou a primeira regra”, afirma o especialista, considerado uma das referências na área em todo o mundo. “Clifford Geertz descreve o ser humano como um computador que nasce apenas com o hardware. Os softwares são a cultura. Assim, qualquer ser humano está apto a adquirir e a transmitir cultura, como uma máquina na qual pode ser instalado qualquer programa”, detalha.

Dessa forma, a cultura seria resultado da própria história de cada indivíduo, mas também de todas as pessoas que viveram antes dele. “Devemos muito mais aos mortos do que aos vivos. Ao longo dos tempos, eles foram transmitindo aquilo que aprenderam ao longo da vida até (essa informação) chegar a nós”, completa Laraia. “O macaco não. Embora ele tenha mais de 99% de sua genética exatamente igual à humana e seja capaz de fazer coisas maravilhosas, como utilizar ferramentas, ele não transmite aquilo que produz. Tudo aquilo que o animal desenvolve ao longo da vida morre com ele”, explica Roque Laraia.

Para ele, o desenvolvimento de uma apurada forma de comunicação garante tanto a transmissão cultural quanto a adaptabilidade do homem em qualquer ambiente. “Todo ser humano nasce com a capacidade de aprender uma linguagem. Qual será ela, vai depender da cultura na qual ele será inserido. Os animais não têm essa capacidade”, acrescenta o pesquisador brasileiro. “Nesse sentido, o apresentador Chacrinha estava correto: ‘Quem não se comunica se trumbica’”, conclui.

Estruturalismo
Lévi-Strauss (1908 – 2009), antropólogo e filósofo franco-belga, é considerado o fundador da antropologia estruturalista, ramo da ciência antropológica na qual os fenômenos sociais podem ser abordados como sistemas de signos ou símbolos, de modo que o cientista deve ter cuidado para não tratá-los de maneira isolada, única, mas como significados dentro de um contexto. Dessa forma, toda questão é vista de maneira específica para aquela cultura, não sendo possível compará-la a outras realidades.

Símbolos
O antropólogo norte-americano Clifford Geertz (1926 – 2006) desenvolveu a chamada antropologia simbólica, que enfatiza a dependência do ser humano dos símbolos como tradições, coletividades ou ritos, por exemplo. Assim, a cultura funciona como um texto no qual o ser humano está imerso.

 

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