Jornal Estado de Minas

Universidades querem criar o primeiro foguete brasileiro

Seis instituições de ensino, entre elas a PUC Minas, unem forças para criar primeiro equipamento brasileiro feito por estudantes e montar o segundo banco de testes nacional, localizado na Grande Belo Horizonte

Pedro Rocha Franco
- Foto: Desde a primeira incursão de um brasileiro no espaço, com a participação do astronauta Marcos Pontes numa missão da Nasa, em 2006, o setor aeroespacial do país pegou carona na decolagem como se apoiada na clássica frase do personagem de desenho animado Buzz Lightyear: “Para o alto e avante!”, repetida sempre que ele abria as asas para decolar com seus foguetes. O sonho de desbravar muito além da Terra passou a ser realidade para alguns meninos como na viagem do super-herói. Mas o sonho de se criar um protótipo verde-amarelo ainda esbarra em obstáculos relacionados à insipiência do setor. Na tentativa de mudar esse cenário, estudantes de engenharia da PUC Minas, associados a outras cinco universidades brasileiras, unem forças para criar o primeiro foguete universitário no Brasil.
Os trabalhos foram divididos em três fases primordiais: criação do motor; projeto aerodinâmico; e implantação de um banco de testes de motores. Por se tratar de um protótipo de altura inferior a 2 metros e potência suficiente apenas para erguer um carro popular, a principal proposta é possibilitar a especialização da mão de obra do setor aeroespecial, considerada de alta relevância por integrar o projeto de defesa das fronteiras do país com o do pré-sal e o enriquecimento da nação, garantindo aos acadêmicos a abertura de importantes portas no mercado de trabalho.

As duas primeiras etapas foram divididas entre universidades de outros estados – Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), Universidade de São Paulo (USP), Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e Universidade Vale do Paraíba (Univap). Em Minas Gerais, a PUC Minas ficou responsável pela criação de um banco de testes de motores de foguetes. O projeto começa a sair do papel ainda este mês e deve ficar pronto em um ano e meio, possibilitando o aprimoramento de motores criados em outras instituições de ensino superior. “Sem a bancada de testes, o motor é um mero suporte para impedir que a porta bata com o vento”, afirmam em tom uníssono o coordenador do projeto e professor do Departamento de Física da PUC Minas, Welerson Romaniello, e o idealizador do grupo de estudos e aluno de engenharia mecatrônica, Bruno Garkauskas Neto.

Clique para entender o mecanismo de funcionamento - Foto: O banco deve permitir que sejam feitos testes relacionados a força, vazão e temperatura. As três variáveis são interligadas e, assim, será possível adequar as características ao padrão visado pelas universidades. A estação de teste, que deve ser instalada na fazenda da PUC Minas, na Grande Belo Horizonte, deve ser formada por um “balanço” com dois braços de aço de 75 centímetros cada. De um lado, será colocado um contrapeso móvel e no outro uma estrutura rígida de concreto sobre uma célula de carga que, com isso, deve permitir o equilíbrio entre as partes.

Nas operações de teste, o motor, que tem o tamanho aproximado de uma lata de tinta, é acoplado na parte inferior da célula de carga e, ao ser acionado e iniciado o processo de queima, pressiona a célula, resultando em alterações elétricas que a deformam. Quanto maior a deformação elástica, maior o empuxo do motor, sendo a força máxima suportável pelo banco de 10kN (quilonewtons), o que o torna capaz de levantar até um carro popular (ou uma tonelada). “Será possível avaliar o rendimento do motor. Se ele consome mais ou menos combustível em determinado espaço de tempo. Com isso, podem ser feitas as adequações necessárias ao seu desempenho”, afirma Romaniello.

MERCADO DE TRABALHO
Será apenas o segundo banco de testes de motores de foguetes do país – atualmente, o único está instalado no polo aeroespacial de São José dos Campos (SP). A ideia é permitir que instituições públicas e privadas de todo o país realizem seus testes no local, segundo o professor, “exercitando os conhecimentos relacionados à construção de foguetes”. Isso porque, na avaliação dos pesquisadores, tem sido produzido muito conhecimento, mas pouco tem sido tirado do papel. “Atualmente, 2,8% dos cientistas do mundo estão no Brasil, que produz 2,8% dos artigos. No entanto, menos de 0,5% da inovação está concentrada no país”, diz Romaniello.

Além disso, as agências espaciais oficiais poderão ser munidas de produtos criados pelas academias, transformando-se em montadoras de foguetes, semelhante ao processo de construção de automóveis. Aproveitando o movimento iniciado rumo a uma mesma direção entre mercado e universidade, Garkauskas, responsável pela formação do grupo de estudos aeroespaciais da PUC Minas, que, atualmente, reúne 11 pessoas, planeja ser o primeiro a completar o trajeto da academia direto para o mercado. O projeto de alçar voos maiores passa antes pela aprovação num curso de mestrado. “É uma área ainda restrita a poucas universidades e o projeto abre portas para teses, dissertações e, principalmente, para novas áreas de pesquisa”, afirma o estudante, de 24 anos.