Por décadas, o homem tem olhado para o espaço em busca de novas formas de vida. Cientistas russos do Instituto de Pesquisa Ártica e Antártida, porém, concluíram que talvez o olhar humano esteja voltado para a direção errada. Eles estão prestes a descobrir vidas “alienígenas” observando as profundezas de um lago isolado há, pelo menos, 14 milhões de anos. De tabela, esperam decifrar alguns dos enigmas da evolução.
Foram quase 50 anos de perfurações em um dos ambientes mais inóspitos da Terra, a Antártida. A temperatura, nos melhores momentos, girava em torno dos 55 graus negativos e o vento rasgava a pele dos exploradores russos. Na segunda-feira, finalmente, segundo a agência russa RIA Novosti, os pesquisadores venceram uma camada de quase quatro quilômetros de profundidade de gelo e atingiram a superfície do Lago Vostok. A pergunta “o que será encontrado?” poderia alimentar roteiros dos mais desvairados filmes de ficção científica. Protegido do resto do mundo por gelo e rochas desde antes da existência da raça humana, o Lago Vostok criou seu próprio caminho para a evolução. Agora, os cientistas estão alvoroçados para saber que espécies podem ter prosperado em um ambiente tão adverso, sem luz e praticamente sem calor.
As revelações proporcionadas pelo Lago Vostok podem também trazer algumas lições preciosas para os astrônomos. “Entre os planetas descobertos dentro e fora de nosso sistema solar em que acreditamos que possa haver vida, a maioria contém um sistema que deve ser muito similar ao Lago Vostok – ou seja, uma grossa camada de gelo, com água líquida no centro”, explica John Priscu, pesquisador da Universidade Estadual de Montana, nos Estados Unidos, e amigo próximo dos exploradores russos.
O ecossistema no fundo do Lago Vostok obedece à exigência número um dos astrônomos para a existência de vida: a presença de água em estado líquido. Isso só foi possível devido à combinação de uma série de fatores. O primeiro deles é a grossa camada de gelo que recobre o até agora desconhecido ambiente subglacial, e funciona como um grande cobertor. Além de isolá-lo termicamente dos ares congelantes da superfície, essa proteção, sustentam os cientistas, exerce uma enorme pressão sobre a água do fundo do lago, fazendo com que ela se mantenha em estado líquido a até 3 graus negativos. Segundo essa hipótese, esse “bolsão de água doce” também tira vantagem do calor produzido pelo centro da Terra, que eleva suas temperaturas.
A estrutura seria extremamente similar àquela da lua Europa, de Júpiter, uma das mais promissoras candidatas a abrigar vida fora da Terra. “Por essa razão, o Lago Vostok pode ser um dos melhores modelos para estudarmos que tipo de seres podemos encontrar por lá”, comenta Priscu.
Naturalmente, nem mesmo os cientistas mais ambiciosos esperam encontrar vida inteligente aprisionada nesse complexo de gelo. Pelo contrário, as expectativas são de que as espécies que prosperaram no Lago Vostok sejam, principalmente, compostas de micro-organismos, como bactérias. Se houver pequenos gêiseres (fontes naturais de vapor expelido do centro da Terra) em seu solo, entretanto, pesquisadores admitem a possibilidade da existência de pequenos peixes cegos, como os encontrados em algumas regiões muito profundas do oceano. Esse cenário, porém, é bastante improvável. “Essas espécies unicelulares estão há tantos milhões de anos sem luz que devem ser altamente resistentes ao frio e fazer seu metabolismo a partir de rochas, com quantidades muito baixas de oxigênio”, supõe Maria Júlia Martins Silva, professora de zoologia da Universidade de Brasília. “A fonte de oxigênio, aliás, deve ser a própria água.”
Vários cenários – dos mais aos menos apocalípticos – seriam possíveis caso micro-organismos do Lago Vostok ficassem à solta. A consideração mais óbvia é a de que eles poderiam interferir na cadeia alimentar da Antártida, ou que existam resíduos poluentes dentro do lago. Há, contudo, cientistas que acreditam que as bactérias que ali se desenvolveram poderiam ser transmissoras de doenças ainda inimagináveis para animais e até mesmo seres humanos.
Por essa razão, os pesquisadores russos deixaram a pressa de lado para desenvolver um sistema seguro de extração de amostras (veja infografia). Em 2010, depois de mais de 10 anos de espera, eles voltaram ao trabalho. Agora que o equipamento atingiu a camada líquida do lago, ele irá recolher e isolar uma pequena quantidade de água. Esse recipiente será deixado ali, em repouso, por cerca de um ano, até o próximo verão antártico. Só então o material congelado será retirado para análise.
Essa investigação pode trazer um importante alerta também quanto ao aquecimento global. Uma vez desvendado o que está escondido sob o gelo há tantos milênios, os cientistas podem saber o que esperar quando outros complexos de gelo se integrarem ao ecossistema da Antártida com o derretimento das calotas.
Com a conquista anunciada na segunda-feira, os russos deram um passo à frente de britânicos e americanos, que exploram outros lagos subglaciais da região, mas têm expectativas de atingi-los só no próximo ano. Agora, eles devem enviar robôs e fazer fotos, além de recolher amostras. Explorações humanas, no entanto, estão hoje tão além do horizonte quanto visitas a planetas longínquos. Seria impossível no momento, principalmente por questões de segurança, enviar um submarino tripulado por homens para o fundo do Lago Vostok. “Por outro lado, a boa notícia é que as respostas estão bem mais próximas de nossas mãos”, atesta Priscu.
Arca do tesouro nazista
A pesquisa no Lago Vostok tem trazido à tona velhos mitos da Segunda Guerra Mundial. Reza a lenda que, ainda durante os anos 1930, os nazistas construíram uma base secreta justamente na região agora em estudo. Em 1943, um dos almirantes de Hitler teria, segundo essa versão, afirmado: “Estamos orgulhosos de ter construído para nosso líder um forte inacessível do outro lado do mundo (na Antártida)”. A história termina com chave de ouro: após o fim da guerra, os alemães teriam construído uma caverna no local, onde teriam armazenado não só os arquivos secretos de Hitler como seus restos mortais, assim como os de sua companheira, Eva Braun. O propósito, defende o rumor, seria a clonagem do líder.