Jornal Estado de Minas

Design de interação vai da diversão à responsabilidade social

Elaine Pereira

A Interface Gráfica do Usuário nos computadores é um dos casos básicos e mais bem sucedidos em termos de design de interação - Foto: AFP PHOTO/MICROSOFT/HO 

O que todo mundo quer quando compra um novo equipamento é que ele seja, primeiro, simples e fácil de usar. E ele só atenderá a sua necessidade se houver um bom trabalho de design de interação por trás. Alguns dos especialistas desta área, vindos de diferentes paíes, estão reunidos em Belo Horizonte até este sábado no Congresso Latino Americano de Design de Interação para trocar experiências e mostrar como evolui um ramo tão essencial num mundo cada vez mais conectado e cheio de gadgets.

Apesar de ser desconhecida da grande maioria dos usuários, o design de interação pode ser aplicado em todos os equipamentos digitais, em equipamentos analógicos e ao próprio ambinte onde você vive. Está tanto em tablets, smartphones e desktops quanto numa porta eletrônica que se abre à sua pisada ou no caixa eletrônico onde você saca o seu salário. "É uma espécie de 'ornitorrinco'. A gente junta partes de várias áreas (comunicação, design industrial e noções de ciência da computação) para fazer com que os dispositivo complexos se tornem mais fáceis de serem utilizados", explica Marcello Cardoso de Campos, professor da área na UNA, Cotemig, Newton Paiva e PUC Minas.

Para chegar ao ponto da simplicidade, o trabalho passa por três passos. A pesquisa, onde ocorrem as entrevistas e questionários com os futuros usuários do produto; a prototipação, parte em que é feito o esboço das interfaces ou a maquete do projeto e por fim, a análise eurística ou teste de usabilidade, onde especialistas e pessoas que vão usar o que foi desenvolvido testam o resultado. As palavras estão corretas? A disposição está legal? As pessoas se adaptaram? A resposta a perguntas como essas vai definir se o produto tem uma boa interação com o usuário ou não.

O campo está em franca expansão. Mas mesmo sendo insipiente a área já possui alguns casos de sucesso que levaram ao bom aproveitamento de serviços e até ajudaram a solucionar questões sociais de grande importância em comunidades marginalizadas ou vítimas de catástrofes naturais.

Especialistas do congresso elencaram alguns casos de sucesso ao EM.com. Elas não tem relação apenas com a comercialização do produto, mas também com a repercussão social que geram.

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O que tem que melhorar
Para o pesquisador e consultor em Metadesign, Open Innovation e Arquitetura Livre Caio Vassao, o design de interação ganha espaço e mostra sua importância à medida que vai mostrando sua dimensão social."É  uma espécie de tomada de consciência que a sociedade e o designer tiveram. As empresas tem que estabelecer esse contato social, mas algumas culturas corporativas radicionais ainda acreditam que há uma questão técnica primeiro. Só quando percebem que o design dá significado é que elas despertam", diz.

Numa reflexão mais aprofundada, ele diz que a própria forma como as pessoas encaram o computador hoje já está defasada, em certo sentido. "As pessoas ainda encaram o computador como uma ferramenta. Mas muitos da nossa área consideram uma camada do ambiente. Quando você interage com ele é como se entrasse em outro quarto", diz.

O expert cita dois produtos cujo design de interação deixa a desejar. Um deles é o livro eletrônico que ainda tenta imitar o livro real. "Ele tem que ser ele. Hoje, a maioria ainda não têm identidade própria e não usam o hipertexto. Está muito no nível da simulação Tem que mudar muito", afirma. Outro gargalo são as TV's inteligentes. "A TV precisa se reinventar e vai enfrentar obstáculos muito grandes, diz.

A opinião do designer Marcello Cardoso de Campos é parecida e acrescenta:"Os homens de negócio ainda estão tentando entender o mercado para saber o que fazer com a Smart TV. Só vai ficar mais claro o que vai acontecer quando eles descobrirem como monetizar".

Na opinião do professor Marcello Cardoso, os caixas eletrônicos são exemplo de um serviço que ainda tem que melhorar. "São muito mal resolvidos porque o foco está muito mais na segurança do que em usar aquilo da melhor maneira. A compreensão das empresas ainda é pequena em termos de eficiência e eles não consideram o prejuízo que vem disso", afirma.

Martin Verzilli, designer de interação e engenheiro de software no iLab América Latina do InSTEDD,  afirma que uma das áreas que ainda tem que evoluir muito é o governo eletrônico. Para ele, muitos serviços poderiam ser menos burocráticos.

Dica
Portanto, se você vai comprar uma nova máquina de lavar, um tablet ou instalar um sistema de ar-condicionado na sua casa, pense que a forma de uso tem que ser facilitada. Compre o que tem a ver com você e suas necessidades e não o que é mais popular. "A propaganda e o marketing pensam no consumidor e não no usuário", esclarece Marcelo Cardoso. Se o produto ou serviço é bonito e barato mas não foi testado várias vezes para se adaptar a você, pode ser não apenas um mau negócio, mas um problema na sua vida.