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Estado de Minas

Cobra-coral do Texas ajuda a desvendar como age a dor extrema no organismo


postado em 30/11/2011 08:36 / atualizado em 30/11/2011 09:03


Imagem ampliada esclarece a pesquisa
Imagem ampliada esclarece a pesquisa
Viajar pelos desertos texanos, nos Estados Unidos, pode ser uma aventura bem perigosa. Ali, além dos cáctus e das paisagens dominadas pelas areias escaldantes, vive um animal capaz de derrubar inimigos muito maiores que ele. Trata-se da Micrurus tener, mais conhecida como cobra-coral do Texas. Uma picada do réptil produz uma das dores mais fortes já catalogadas pela medicina. Em um estudo publicado recentemente na revista Nature, cientistas da Universidade da Califórnia em São Francisco (UCSF) conseguiram desvendar o mecanismo único que envolve a imensa dor causada pela coral. A novidade pode ajudar não apenas a entender a ação de sua agressiva toxina como a compreender de que maneira agem no organismo outras formas de dor extrema.

Segundo a pesquisa, a grande chave para causar um desconforto tão grande está em dois componentes: o Alfa-MitTx e o Beta-MitTx. Embora as proteínas já fossem conhecidas por cientistas, eles não sabiam que era a ação combinada das substâncias a causa da dor – isoladamente, elas não produzem esse efeito. “Descobrimos que as duas proteínas devem se combinar para formar um complexo que tem novas propriedades”, conta ao Estado de Minas o pesquisador da UCSF David Julius, que participou do estudo. “Essa combinação, que resulta no Complexo-MitTx, é o que as torna adequadas para interagir com canais de Asic1 e ligá-los”, completa.

Os Asics1, aos quais o especialista se refere, são os chamados ácidos sensoriados do canal iônico. Essas substâncias, quando ativadas, estão relacionadas, entre outras ações, à sensação de dor, estando presentes em várias partes do corpo, mas em especial no cérebro. Normalmente, esses canais só são ativados quando o pH do corpo (seu nível de acidez) está alterado, geralmente em circunstâncias em que o organismo sofre grandes lesões – o que não é o caso da pequena picada da cobra.


No entanto, o composto formado pelas toxinas tem a capacidade de agir mesmo que o pH do corpo esteja normal e atingir regiões do corpo que outras substâncias não afetam, resultando na paralisante dor da picada da cobra coral do Texas. “Por que isso acontece, ainda não sabemos explicar”, admite Julius.

Desdobramentos

Mesmo longe do hábitat do réptil, que chega a medir no máximo 1 metro de comprimento, quem está no Brasil pode se beneficiar pela descoberta dos norte-americanos. Para os especialistas, o conhecimento da atuação do veneno da cobra-coral do Texas vai ajudar a entender outras questões. “Esse trabalho identifica Asic1 como uma peça importante na sensação de dor e deve, eventualmente, fornecer pistas sobre como projetar as drogas que atuam sobre esse canal para suprimir a dor”, opina o norte-americano. Ele espera que, no futuro, medicamentos analgésicos para esse tipo de dor possam ser projetados com base nas novidades publicadas agora.

Yara Cury, pesquisadora do Laboratório Especial de Dor e Sinalização do Instituto Butantã, explica que, ao contrário do que muita gente pensa, os venenos dos animais estão longe de serem vilões na saúde pública. “Existe uma série de usos benéficos para os seres humanos das toxinas animais, inclusive a produção de medicamentos”, afirma a bióloga. “Entendendo o mecanismo de ação desse veneno, podemos, por exemplo, projetar drogas que ajam nesse tipo específico de mecanismo.”

Diferentes animais fornecem toxinas úteis para a ciência. “A compreensão da ativação de substâncias presentes no veneno da cascavel e das anêmonas do mar, por exemplo, contribuiu para o desenvolvimento de analgésicos”, lembra Yara. “Há também uma série de outras aplicações para esse tipo de substância, como em tratamentos de hipertensão ou em questões relacionadas à coagulação sanguínea”, exemplifica a brasileira.

Em outros casos, o benefício não é tão direto. “O veneno da jararaca da Costa Rica é rico em uma enzima bastante parecida com a causadora da artrite em seres humanos”, conta a pesquisadora do Butantã. “Com a ajuda dessa substância, pudemos padronizar um modelo em laboratório e estudar a artrite com mais efetividade”, explica.

 

 


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