Jornal Estado de Minas

Empresa de segurança cibernética russa cresceu 177% em 2010

Carolina Vicentin
Esqueça os estereótipos, porque com o russo Eugene Kaspersky eles não têm vez. Kaspersky, que completou 45 anos em outubro passado, é fundador e CEO de uma das principais empresas de segurança digital do mundo, uma companhia que cresceu 177% somente no ano passado, conforme números da fundação Software Top 100. Uma evolução que, segundo o próprio empresário, ocorre graças ao estilo pessoal de administrar o negócio, investindo no diálogo com parceiros e na contratação de engenheiros formados na Rússia.
O próprio dono do laboratório Kaspersky é um deles, apesar de não parecer um russo típico. Ele não usa os tradicionais gorros de seu país, não toma vodca e abandonou gravatas há, pelo menos, 20 anos, depois de passar um período no exército da então União Soviética. “Não gosto dessa indumentária. Estive com os militares por quatro anos, foi o bastante para mim”, justifica — para ele, o estilo lembra muito os uniformes. O jeito bonachão esconde o pulso de um administrador que corre o mundo atrás de seus objetivos, viajando “como o Papai Noel”. “Temos muitas conferências, exibições. Algumas vezes, não tenho tempo de dormir. Mas a vida é assim”, conforma-se o CEO, que calcula permanecer em Moscou apenas três meses por ano.

A paixão de Kaspersky pela tecnologia nasceu quando ele ainda estava no equivalente russo para o ensino médio. Ainda adolescente, frequentava aulas extracurriculares de física e matemática em um programa especial organizado pela Universidade de Moscou. Quando chegou a hora de ingressar em um curso de graduação, o garoto prodígio foi para o Instituto de Criptografia, Telecomunicações e Ciência da Computação, o mesmo órgão que fornecia recursos estratégicos e logísticos para a KGB, a famosa agência de espionagem da União Soviética.

A passagem pelo instituto, inclusive, gerou uma polêmica na vida do hoje empresário de sucesso. Em janeiro de 2008, uma reportagem do jornal britânico The Guardian o descreveu como um ex-agente da KGB. No mês seguinte, a publicação teve de alterar o artigo, o que não impediu que a história se espalhasse pelo mundo. “Minha educação em matemática e criptografia foi na escola da KGB, mas eu nunca estive em um escritório da KGB. Eu era um estudante e logo depois fui para o serviço militar”, conta Kaspersky. “Na verdade, isso não faz muita diferença, porque se tratava da construção de sistemas criptográficos para proteger informações. Os caras da KGB trabalhavam para proteger informações do Estado e eu estava trabalhando para proteger informações militares. Qual é a diferença?”, questiona, apimentando o caso.

Poder assustador
Kaspersky ficou fascinado pelo que se tornaria o mundo do cibercrime em 1989. Naquele ano, seu computador no Ministério da Defesa russo foi contaminado pelo vírus Cascade. Os arquivos maliciosos atacavam algoritmos criptografados e esse poder assustou Kaspersky. “Tudo o que eu sabia sobre vírus de computador antes de ter um deles na minha máquina vinha de artigos de jornais e revistas. Quando o Cascade apareceu, fui ao meu gerente e falei que aquilo era uma coisa bastante perigosa, que a gente precisava pensar em algum tipo de proteção para todos os computadores.”

E foi exatamente o que Eugene fez. Em 1991, ele criou um software que detectava vírus e os removia dos aparelhos. Nos anos seguintes, fundou uma empresa de segurança, a AVP, em parceria com sua ex-mulher. O negócio acabou tendo que mudar de nome, porque “AVP” já era utilizado em produtos norte-americanos. O Kaspersky Lab nasceu oficialmente em 1997 e hoje, 14 anos depois, tem participação de mercado representativa. A estimativa da empresa é de que 7,5% dos antivírus comercializados no mundo tenham a marca Kaspersky, o que deixaria a companhia russa entre as cinco maiores no ramo de segurança, praticamente empatada com a Trend Micro, japonesa que tem perdido clientes nos últimos anos.

“A Trend Micro está indo para baixo, acho que eles cometeram erros graves nos últimos anos. Eles mudaram a fábrica para as Filipinas, onde há bons programadores de software, mas não bons engenheiros como os que temos aqui na Rússia”, analisa o ufanista Kaspersky. Para ficar mais forte na briga, a empresa russa cruzou o Atlântico e passou a fortalecer sua imagem nas Américas. Somente no Brasil, a marca Kaspersky passou a ser conhecida por 47% dos usuários de computador, contra 32% no ano anterior. “Eu espero continuar crescendo, me tornar reconhecido como um dos principais concorrentes da Symantec e da McAfee nos próximos dois ou três anos”, planeja o russo, em referência às duas maiores empresas de segurança digital, que juntas dominam mais da metade do mercado.

O dono do Kaspersky Lab aposta que seu jeito de comandar o negócio será a principal arma na briga contra os gigantes. “Não há um senhor Symantec. Não há um senhor Trend Micro. Até havia um senhor McAfee, mas ele deixou a empresa há muito tempo, quando vendeu sua parte por US$ 100 milhões”, compara. “Eu acredito que, para uma companhia ter sucesso, é preciso haver uma combinação de vários fatores: um time bom de especialistas em tecnologia, foco na educação e a nossa estratégia de ter 100% da empresa baseada na parceria”, define. “A gente mantém nossas portas abertas e pedimos que as pessoas dividam coisas conosco, sempre”, reforça. Que venha a guerra, pois.

De olho nas pistas

Eugene Kaspersky lançou suas cartas também em outros setores. Em novembro passado, a companhia anunciou acordo com a Ferrari para apoio nas temporadas de 2011 e 2012 na Fórmula 1. A empresa russa já havia fechado negócio com a escuderia no início do ano, quando patrocinou a equipe AF Corse para o campeonato e Mans Series. Tudo sem divulgar os valores.