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Estado de Minas Tóquio 2020

Tóquio 2020: Vibração em outros tons

Sem público externo nas instalações de competições dos Jogos Olímpicos, atletas, jornalistas e comissões técnicas encarnam o papel de torcedores


05/08/2021 04:00 - atualizado 05/08/2021 11:37


Tóquio – A gritaria durante a comemoração foi tanta, que Maria Clara precisou se explicar para um policial: “Minha namorada é campeã olímpica! Foi mal, foi mal”. O barulho naquele edifício do Rio de Janeiro – que enfureceu os vizinhos – era o perfeito contraste com o que se podia ouvir no Parque Marinho de Odaiba, em Tóquio, quando Ana Marcela Cunha cruzou a linha de chegada para conquistar o tão aguardado ouro na maratona aquática. O silêncio das provas sem público, medida adotada por causa da COVID-19, foi interrompido timidamente pelos festejos da nadadora e a equipe que a acompanhava na noite de terça-feira (manhã de quarta no Japão).

Não que a comemoração dos brasileiros na capital japonesa tenha sido desanimada. Pelo contrário. Foi quase um desabafo de uma atleta que, aos 29 anos e após o quarto ciclo olímpico, finalmente conquistou o ouro que faltava na impressionante galeria de 11 medalhas em Campeonatos Mundiais de Esportes Aquáticos.

“Sempre acreditei nos meus sonhos e nos sonhos da minha família, em todas as pessoas que acreditaram em mim. São 13 anos de espera e essa medalha representa muito”, comemorou. Sem público, a mais nova campeã recebeu o apoio de sua equipe e as palmas dos voluntários. E assim tem sido em quase todas as instalações esportivas dos Jogos Olímpicos de Tóquio. A presença de torcedores foi liberada apenas em alguns eventos fora da capital.

DESINTERESSE Havia gente nas arquibancadas do Estádio de Miyagi durante as partidas de futebol, por exemplo. A maioria, crianças convidadas pela organização. Por lá, apenas 10 mil ingressos foram disponibilizados. Mas o interesse foi baixo. Somados, os públicos dos dez jogos chegam a 30 mil pessoas – apenas 60% da capacidade da arena, que conta com 49 mil assentos.



Competidores afinam o ouvido para dicas e apoio


Sem público externo, há presença de outro tipo de torcedor nas instalações: comissões técnicas, dirigentes dos comitês olímpicos nacionais e internacional, jornalistas, assessores, patrocinadores, políticos e atletas. Em cada modalidade, o perfil é distinto.

Na região de Ryogoku, quase um museu a céu aberto numa das áreas mais tradicionais de Tóquio, fica a Kokugikan Arena. Monumentos rememoram Tokugawa Ieyasu, o primeiro xogum do Xogunato Tokugawa, e a Ponte Kototoi, cenário da devastação causada por uma bomba lançada pelos EUA durante a Segunda Guerra (em 1945), dando o tom do simbolismo no templo do sumô. Mas a face mítica da arena foi ressignificada nos combates de boxe.

As conquistas de medalha de Beatriz Ferreira e Abner Teixeira foram embaladas pelo funk da caixa de som levada pelo treinador Leonardo Macedo e as orientações da equipe técnica. “Consigo ouvir. A gente tem essa facilidade por ter uma equipe permanente. Todo mundo trabalhando no dia a dia, então, todo mundo sabe o que o outro tem de fazer. Nada melhor do que quem conhece a gente dar um toque para executar lá. Eu consegui escutar perfeitamente todos eles. É a confiança”, declarou a lutadora.

A cada luta, o espaço – o mais barulhento dentre os visitados pelo Estado de Minas e Portal Superesportes – ganha as características dos países dos lutadores. “Set the tone, Tiger” (algo como “comande a luta, Tigre”), gritavam, das arquibancadas, os apoiadores do estadunidense Johnson “Tiger” Delante, derrotado pelo cubano Roniel Iglesias. Com o resultado, o inglês deu espaço ao castelhano.

Atletas como Simone Biles, estrela mundial, pulavam e gritavam nas arquibancadas do Centro de Ginástica de Ariake. Do outro lado das tribunas, 'jornalistas-torcedores' batiam palmas ritmadas para Rebeca Andrade na conquista da medalha de prata no individual geral da ginástica ao som do funk “Baile de favela”. “Ouvi as palmas. Me deu muita força, é muito importante, porque é bom quando você vê que o público está gostando do que você está fazendo, sabe?”, afirmou a brasileira.

No Estádio Olímpico, umas poucas centenas de pessoas vibraram em momentos marcantes de terça-feira. Como na maior prova dos 400m com barreiras da história – com o bronze de Alison dos Santos e recordes. Ou no ouro do sueco Armand Duplantis no salto com vara, que teve Thiago Braz, que saltou 5,87m, com o bronze. Na Rio'2016, ele contou com o apoio do Engenhão lotado para surpreender o francês Renaud Laviellenie. “A torcida brasileira são outros quinhentos. Se pudesse ter público, seria muito legal, muito mais inspirador, mas acho que a mágica dos Jogos Olímpicos não deixou de acontecer”, disse.


Programa de alto rendimento criado em 2008 transformou competidores em militares com suporte voltado para o esporte(foto: Javier SORIANO/AFP)
Programa de alto rendimento criado em 2008 transformou competidores em militares com suporte voltado para o esporte (foto: Javier SORIANO/AFP)

Continência, mas alto lá...


João Vítor Marques e Kelen Cristina

A cena foi vista inicialmente com Alison dos Santos, medalha de bronze nos 400m com barreiras. Depois, foi repetida por Ana Marcela Cunha, campeã na maratona aquática. A continência prestada por atletas brasileiros no pódio voltou a ser assunto e muitas pessoas se perguntam o motivo do gesto.

Houve quem achasse se tratar de posicionamento político, favorável ao presidente Jair Bolsonaro. Mas não é, necessariamente, uma atitude política. A ex-nadadora Joanna Maranhão falou sobre o assunto nas redes sociais.

"Ó, minha gente, se tem uma coisa que Ana não faz, é se posicionar politicamente. Ela é atleta da Marinha, e eles pedem que atletas que fazem parte do programa (criado pelo PT) façam esse aceno pra mostrar que são apoiados pelas forças", escreveu Joanna, em seu Twitter, após a imagem de Ana Marcela prestando continência viralizar.

O projeto ao qual a ex-nadadora se refere é o Programa Atletas de Alto Rendimento (PAAR), criado na gestão do governo Lula, em 2008, pelo Ministério da Defesa em parceria com o (extinto) Ministério do Esporte. Ele destina recursos à preparação de competidores de alto rendimento.

Em Tóquio O PAAR vai além da preparação para os Jogos Militares. Ele se tornou essencial para o apoio a atletas em outras competições do calendário, como Mundiais e, principalmente, Olimpíadas.

Dos 302 brasileiros classificados para os Jogos Olímpicos do Japão, 91 fazem parte das Forças Armadas. Desses, já conquistaram medalha (além de Alison dos Santos e Ana Marcela) Kahena Kunze (ouro na vela), Daniel Cargnin (bronze no judô), Fernando Scheffer (bronze na natação), e os boxeadores Abner Teixeira (bronze), Beatriz Ferreira e Hebert Conceição.

O apoio do projeto, especialmente durante o período da pandemia de COVID-19, também foi destacado por Joanna Maranhão. Muitos atletas viram seus contratos serem encerrados – bronze no salto com vara, Thiago Braz perdeu o vínculo com o clube paulista Pinheiros e até agradeceu ao jogador Neymar pelo apoio, já que ele é agenciado pela empresa do atacante da Seleção Brasileira.

"A maioria dos clubes (Pinheiros, Minas e tal) ou diminuiu ou cortou salário durante a pandemia", lembrou Joanna. "Foi o programa com soldo mensal de R$ 4.500 (acho que é isso, na minha época era R$ 2.500) que sustentou essa galera. Sendo assim, nada mais normal", completou.

ASSISTÊNCIA Além do soldo, os atletas têm direito a assistência médica, acompanhamento nutricional e de fisioterapeuta, além de estruturas esportivas em organizações militares.

"Essa política pública, criada em 2008, é de fundamental importância pros atletas de rendimento do Brasil. Eu, o Luciano Corrêa (ex-judoca e marido dela) e mais uma galera fomos da primeira turma que se formou em 2009. A gente ficou três semanas na Urca fazendo estágio, aprendendo o básico e nos formamos como terceiro sargento do Exército. Isso é uma política pública que já acontece em outros países: Rússia, França...", escreveu a ex-nadadora.

Medalhistas 
em Tóquio que integram o programa

» Abner Teixeira (bronze no boxe)
» Kahena Kunze (ouro na vela)
» Alison dos Santos (bronze no atletismo)
» Daniel Cargnin (bronze no judô)
» Fernando Scheffer (bronze na natação)
» Beatriz Ferreira (medalha indefinida no boxe)
» Hebert Conceição (medalha indefinida 
no boxe)
» Ana Marcela Cunha (ouro na maratona aquática)


Fique de olho
Despertador olímpico #17: noite do Brasil tem Isaquias, vôlei e atletismo

Está quase acabando! Restam apenas quatro dias de Jogos Olímpicos. E o Brasil tem chance de aumentar o número de medalhas entre a noite de hoje e a manhã desta sexta. O vôlei feminino e o atletismo podem garantir pódios para o país. No C1 da canoagem, Isaquias Queiroz tenta assegurar vaga na final. É considerado favorito ao ouro.

Melhor do dia
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Vôlei feminino (semifinais), amanhã, 1h e 9h
Basquete feminino (semifinais), amanhã, 1h40 e 8h
Boxe (semifinais e final), amanhã, 2h
Handebol feminino (semifinais), em data e horário indefinidos

Brasil em disputa
Canoagem: Isaquias Queiroz e Jacky Godmann, hoje, 22h
Pentatlo moderno: Ieda Guimarães, amanhã, 2h30
Vôlei feminino: Brasil x Coreia do Sul, amanhã, 9h
Saltos ornamentais: Kawan Pereira e Isaac Souza, amanhã, 3h
Atletismo: Érica Sena (final da marcha atlética de 20km), amanhã, 4h30
Revezamento 4x100m feminino (final), amanhã, 10h30
Revezamento 4x100m masculino (final), amanhã, 10h50
Hipismo (salto por equipes), amanhã, 7h

Minas em ação
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As mineiras do vôlei feminino entram em quadra para o duelo semifinal contra a Coreia do Sul, às 9h de amanhã. Camila Brait é de Frutal, enquanto Carol e Gabi são da capital Belo Horizonte



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