Jornal Estado de Minas

Adiós

"Dava prazer ver maradona treinar"

 

“Me alegrava ver Maradona treinar. Era um jogador diferente em campo e fora também. Um cara espontâneo”. Assim o repórter fotográfico Jorge Gontijo, de 70 anos, define o ex-jogador Diego Armando Maradona, que morreu aos 60 anos, na quarta-feira. Depois de 45 anos fazendo cobertura jornalística pelo Estado de Minas, a maioria sobre esportes, Jorge Gontijo se emocionou ao receber a notícia da morte de um dos grandes ídolos do futebol mundial e um dos personagens mais marcantes de sua carreira de repórter. Ele teve acesso ao craque nas Copas de 1986 e, principalmente, na de 1990, das quais guarda excelentes lembranças. “Para mim, dava prazer ver Maradona treinar, tendo o simples contato com a bola ainda que sem adversário, tanto quanto vê-lo jogar. Era um gênio”, afirma Gontijo, com a experiência de quem cobriu cinco Copas do Mundo, algumas com as participações do argentino. Gontijo ajudou, com seus registros, a eternizar a genialidade de Maradona, certamente, uma das personalidades mais assediadas nos últimos 50 anos, e agora compartilha suas lembranças com os leitores.





 

(foto: Jorge Gontijo/Estado de Minas - 08/07/1990)

IMAGENS ETERNIZADAS

“Fui o primeiro fotógrafo a viajar para cobrir uma Copa para um jornal de Minas, em 1986, no México. Lá, tive o prazer de ter contato maior com Maradona. Fiz foto dele carregando a taça e sendo carregado. Não podia trabalhar em campo (nos jogos da Argentina), pois não era a Seleção do meu país, mas consegui um bom material. Dava prazer de ver Maradona treinar, nem precisa vê-lo jogar.”

 

(foto: Jorge Gontijo/Estado de Minas - 08/07/1990)
 

 

O TRUQUE DA LIMUSINE

“Na Copa de 1990, a chefia do jornal nos mandou permanecer na Itália depois que o Brasil foi eliminado nas oitavas de final pela Argentina. Decidimos, eu e (o repórter) Paulo Celso, ir atrás do Maradona, que era o grande astro da época. O problema é que priorizavam os jornalistas argentinos ou italianos. A Seleção Argentina treinava em um condomínio fechado, que hoje é o CT da Roma, em Trigória (Sul da capital italiana). Não tínhamos acesso. Mas, conversando com um funcionário do hotel, ele explicou que era um lugar de gente chique e sugeriu que tentássemos usar uma limusine para entrar lá. Resolvemos arriscar alugando uma. Funcionou, nos deram acesso e quando chegamos estava acabando o treino. Paramos perto do campo e acho que aquele carro enorme chamou a atenção do Maradona, que quando nos viu começou a fazer embaixadinhas. Desci e fiz as fotos com uma lente de médio alcance. Foi pouco, mas suficiente, pois a segurança nos convidou a sair. Foi uma glória.”

 

PAVAROTTI NA TRIBUNA

Na final da Copa da Itália, entre Argentina e Alemanha, mais uma vez não pude cobrir o jogo do campo. Mas na tribuna em que me colocaram estava o (tenor) Luciano Pavarotti. Fiz dois craques, um em campo e outro na torcida.”





 

LIBERTADORES E MUNDIAIS

“Me alegrava ver Maradona treinar. Era um jogador diferente em campo e fora também. Um cara espontâneo. Depois fiz alguns jogos dele pelo Boca, em Copas Libertadores, mas o contato mais próximo foi mesmo em Mundiais.”

 

 

Um craque controverso

 

Como todos de famílias humildes mundo afora, Diego Armando Maradona não nasceu sob holofotes, mas passou mais de dois terços da vida sob eles. E na despedida também foi assim, com a morte, o funeral e o enterro do craque sendo notícia e causando reações em todo o mundo. Fenômeno midiático desde os primeiros chutes na bola, ele atingiu o estrelato ao levar a Argentina ao título mundial em 1986, no México. E se manteve assim depois de pendurar as chuteiras, menos pela carreira como técnico, mais como apresentador de TV, apoiador de políticos controverso, posicionamentos muitas vezes polêmicos e a vida extravagante.

 

O certo é que o ex-jogador sempre soube que era o centro das atenções. Não foram poucos os incidentes. Um dos mais famosos foi em 1994, quando Maradona havia acabado de rescindir contrato com o Newell's Old Boys, da Argentina. Irritado com a presença de jornalistas de plantão na porta da residência, Don Diego resolveu expulsá-los com tiros de espingarda de ar comprimido, conhecida popularmente como espingarda de chumbinho. Acionado na Justiça, o então camisa 10 foi condenado, em 1998, a dois anos e 10 meses de prisão. Os advogados do craque naquela ocasião recorreram e conseguiram transformar a punição em multa.





 

Ainda em 1998, ele teria ameaçado os irmãos Liam e Noel Gallagher em um bar em Buenos Aires. Segundo os músicos, eles estavam em um bar de Buenos Aires depois de um show da banda deles, Oasis, quando Maradona chegou acompanhado de homens e mulheres. Após pedirem para tirar foto com o craque, eles foram informados pelo intérprete que os acompanhava que Dieguito iria “atirar neles” se saíssem com alguma das integrantes do staff maradoniano.

 

Três anos depois, Maradona foi condenado a pagar US$ 15,3 mil a um fotógrafo. No processo, foi acusado de atingi-lo em um das mãos e nas costelas com tiros de espingarda de ar comprimido. Nem mesmo os problemas de saúde, como overdose de cocaína (2000), cirurgia bariátrica (2004) e hepatite (2007) tiraram o ímpeto de Maradona. Em 2013, ficou irritado com perguntas sobre a vida pessoal durante entrevista e passou a xingar os jornalistas, chegando a dar um chute em um deles.

 

Pouco tempo depois, chamou os profissionais da imprensa de filhos da p... por estarem de plantão na porta da casa dele no Dia dos Pais. “Você está aqui trabalhando porque não tem pai”, disse a um dos presentes. “Vão para a p... que os pariu!” Já em 2014, se envolveu em confusão na saída de um teatro em Buenos Aires.





 

NA TEVÊ Na telinha toda a ira contra a imprensa não impediu que Maradona tivesse o próprio programa de TV, La Noche del Diez, em 2005, em uma emissora argentina. Foram 13 episódios nos quais recebeu convidados como Pelé, o jogador de basquete Manu Ginobli, Ronaldo Fenômeno, o pugilista Mike Tyson, o comediante mexicano Roberto Gómez Bolaños (criador do seriado Chaves) e Fidel Castro.

 

As aparições ao lado de líderes políticos, aliás, sempre renderam polêmica. Em 1979, depois de ser campeão do mundo sub-20 com a Argentina, foi recebido pelo general Videla, que comandava a ditadura no país vizinho.  A partir dos anos 1980, se aproximou de ditadores de esquerda a ponto de tatuar o rosto do presidente cubano Fidel Castro na perna direita. Ele também tinha Che Guevara no braço direito. Também teve muito contato como venezuelano Hugo Chávez. No Brasil, apoiou Lula e Dilma Rousseff. Durante a Copa de 2014, se mostrou contrariado com a vaias à presidente, enquanto em 2019 usou redes sociais para comemorar a saída de Lula da prisão. (PG) 

 

 

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