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Estado de Minas ENTREVISTA/PEDRO TRENGROUSE

"O país paga caro pela ineficiência do futebol"

Para especialista, é uma questão de tempo para que os clubes se modernizem no Brasil


postado em 09/02/2020 04:00 / atualizado em 08/02/2020 20:52

(foto: Gualter Fatia/Getty Images - 6/9/19)
(foto: Gualter Fatia/Getty Images - 6/9/19)


Transformar os clubes brasileiros em empresas tem sido apontado como a melhor saída para a crise financeira que abrange quase todos eles. Para o Cruzeiro não seria diferente, embora o clube tenha ao menos quatro outras opções para conseguir financiar a dívida, que chega próximo a R$ 1 bilhão, segundo os próprios dirigentes. Outras agremiações, como o Atlético-GO e o Botafogo, já estão adiantadas nesse processo, recorrendo a especialistas para ajudá-los. “Associações sem fins lucrativos não têm a menor condição para desenvolver negócios em sua plenitude”, afirma o advogado Pedro Trengrouse, membro da International Association of Gaming Advisors (Iaga) e vice-presidente da Comissão Especial de Direito de Jogos Esportivos, Lotéricos e de Entretenimento do Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), entre outras atribuições.

 

 

Alguns clubes brasileiros com problemas financeiros, como Cruzeiro e, principalmente, o Botafogo, têm visto na transformação em clube-empresa uma saída. Estão no caminho certo?
Sem dúvida. O futebol profissional se transformou num negócio de bilhões e não pode continuar sendo administrado por estruturas criadas para contar tostões. Associações sem fins lucrativos não têm a menor condição para desenvolver negócios em sua plenitude. É só uma questão de tempo para que os clubes se modernizem. É paradoxal, mas o fato é que Botafogo e Cruzeiro, por necessidade, estão na vanguarda de um movimento importante. O país paga muito caro pela ineficiência sistêmica do futebol, que se fosse melhor estruturado geraria muito mais emprego e renda no Brasil.

Como ficam os credores, principalmente de dívidas trabalhistas, com a mudança da natureza jurídica? Não há risco de calote?
Pelo contrário! Risco de calote existe hoje, nesse estado de insolvência que os clubes se encontram e ninguém é responsável por nada. Onde tudo é de todos, nada é de ninguém! O investimento empresarial vem justamente para reverter esse quadro, garantindo o cumprimento das obrigações e estabelecendo a responsabilidade clara dos gestores e dos investidores com as obrigações assumidas.

Alguns clubes podem buscar a mudança só para se livrar das dívidas ou esse é o melhor passo justamente para atravessar momento difícil?
Só há uma forma de se livrar das dívidas: pagando. O que se pode buscar nesse processo de evolução para o clube-empresa é renegociar o passivo dentro de uma nova perspectiva, com injeção de investimento e gestão profissional, para que o fluxo de caixa dos clubes seja capaz de comportar o serviço da dívida.

Quais as exigências da legislação atual? Há novas leis em tramitação no Congresso. Ela é benéfica aos clubes que querem migrar?
A Lei que o deputado Pedro Paulo (DEM-RJ) apresentou e foi aprovada quase por unanimidade na Câmara é um grande avanço. Cria condições favoráveis para clubes se organizarem como empresas e atraírem novos investimentos. É um primeiro passo importante, que pode até mesmo motivar outra lei no futuro com a própria obrigatoriedade dos clubes se transformarem em empresas, como aconteceu num segundo momento em Portugal. Sobre a legislação atual, é importante dizer que ela já permite que clubes se organizem como empresas. A principal questão é que a estrutura atual dos clubes tem muita dificuldade para aceitar que não tem mais condições de administrar o futebol profissional e por isso resiste muito a qualquer mudança. Outro problema é a carga tributária. Por que razão um clube organizado como empresa paga imposto de renda e outro organizado como associação não paga se ambos desenvolvem atividade empresarial?

 

O Brasil tem um problema no ecossistema. Entre os principais mercados do mundo, o Brasil é o único em que clubes ainda não se organizaram em ligas%u2019

Pedro Trengrouse

 

 

Até que tudo esteja bem claro, corremos risco de haver guerra de liminares? O Botafogo, por exemplo, foi impedido de seguir o processo devido a decisão judicial...
Um dos princípios da nossa Constituição é a inafastabilidade do controle jurisdicional. Sempre haverá riscos de entendimentos divergentes no Poder Judiciário. Por exemplo, o processo de privatização de várias estatais passou por isso. A Lei que o deputado Pedro Paulo construiu na Câmara sem dúvida traz mais segurança jurídica, mas é inevitável que alguns assuntos acabem mesmo sendo resolvidos na Justiça. Essa decisão liminar sobre a questão do Botafogo não afeta em nada o plano do clube, que já se pronunciou através de nota oficial e deixou tudo esclarecido.

Há quem diga que virar empresa é ruim para os clubes, porque como entidades desportivas sem fins lucrativos eles pagam bem menos impostos. Qual seu posicionamento sobre o assunto?
Essa isenção de Imposto de Renda para clubes, que exercem atividade eminentemente empresarial, tem reflexos em toda base de contribuintes e a sociedade precisa decidir se quer continuar pagando a mais para que clubes não paguem nada. Aliás, é bom que se diga: clubes de países como Inglaterra, França, Espanha, Itália, Portugal, Alemanha e EUA pagam Imposto de Renda. Por que tem isenção no Brasil?

Algumas experiências malsucedidas fazem crescer a desconfiança sobre a entrada de empresários em clubes. Foi o caso do Figueirense. Isso atrapalha, mesmo não sendo um caso específico de clube-empresa?
O Brasil tem um problema no ecossistema. Entre os principais mercados do mundo, o Brasil é o único em que clubes ainda não se organizaram em ligas. Isso tem reflexos profundos em todo arranjo produtivo do futebol brasileiro. Basta comparar o que era a Inglaterra antes e depois da Premier League; a Itália, antes e depois da Serie A; a Espanha antes e depois de La Liga; a França antes e depois da League 1. Não adianta simplesmente ser empresa se o negócio como um todo não melhorar. O caso do Figueirense é emblemático porque o conceito estava certo, mas a execução foi um desastre. O motivo é simples: o investidor não investiu e o clube não tinha garantias para executar.

Em Minas, temos um clube-empresa este ano na Primeira Divisão Estadual, o Coimbra. Em São Paulo, o Red Bull finalmente conseguiu sucesso ao se associar ao Bragantino. Há outros exemplos bem-sucedidos no Brasil? É a tendência?
Ainda é cedo para avaliar os resultados desses clubes, mas só o fato de terem se estruturado como empresas nas condições mais adversas já demonstra a força dessa tendência, que deve se acentuar com a vigência de uma lei mais favorável como a que já foi aprovada na Câmara. Sem investimento empresarial fica muito difícil sobreviver, que dirá competir. Tanto internamente quando em competições internacionais. O Brasil só não se ressente mais porque tem a maior economia da América do Sul e os clubes dos demais países do continente também estão muito distantes da realidade dos principais mercados do mundo.

Muitos enxergam a transformação em clube-empresa em única saída para acabar com a politicagem e más práticas administrativas nos clubes brasileiros. Mas também há maus empresários. O que fazer para evitar administrações catastróficas respaldadas pela nova natureza jurídica?
É simples: numa empresa, o patrimônio dos sócios responde pelas falhas da gestão. Esse é o maior incentivo para eficiência. Se o gestor de uma empresa não vai bem, demite-se. Se o presidente de um clube não vai bem, é preciso esperar anos para trocar. Clubes associativos “falidos” continuam a existir feito zumbis e empresas correm risco de falir de verdade. E se falir, outro investidor que compre o que tiver interesse na massa falida e toque adiante. Há incentivo maior para mais responsabilidade na gestão.

Não existe o risco de que, com a chegada de investidores estrangeiros, os clubes vejam suas tradições diluídas no ambiente corporativo? E que jogadores sejam tirados no meio de disputas para atender interesses dos controladores em outros países?
Na Europa, clubes centenários já tiveram vários donos e continuam fiéis às suas tradições, porque seria diferente no Brasil? Quanto aos jogadores, deve ocorrer exatamente o contrário. Hoje, boa parte dos clubes não tem condições financeiras para manter seus craques jogando por mais tempo no país. Com investimento empresarial e gestão mais eficiente, clubes brasileiros não venderão mais seus jogadores a preço de banana.

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