Não é só a torcida que segue indignada com a atual situação do Cruzeiro. Dentro de campo, está desclassificado da Libertadores e da Copa do Brasil, em 16º no Brasileiro e apresentando um futebol sofrível, mesmo depois de trocar o comando técnico – Rogério Ceni assumiu o time no lugar de Mano Menezes. Fora das quatro linhas, uma série de acusações contra a diretoria, investigação policial e ações na Justiça – o vice-presidente de futebol Itair Machado chegou a ser afastado de suas funções por decisão liminar, mas foi liberado para reassumir o cargo –, além de troca de acusações entre o presidente do Conselho, Zezé Perrella, e o presidente do clube, Wagner Pires de Sá. Ex-jogadores, que ajudaram a construir a rica galeria de troféus do clube, criticam a atual situação, desde a diretoria até os jogadores, e apontam soluções. Nelinho, Natal, Evaldo e Procópio falam do que está errado e o que é preciso fazer para mudar.
O ex-lateral-direito Nelinho, um dos destaques na conquista da primeira Libertadores, em 1976, fala em tristeza. “Estou muito triste com essa situação e mais ainda porque estamos vendo que o que está acontecendo fora do campo, nos bastidores, é o que mais preocupa.”
Nelinho diz que há um cenário grave e, para piorar, alguns estariam tirando proveito até disso. “As pessoas estão se aproveitando da instituição Cruzeiro, o que é inaceitável, e já passou da hora de tomarem uma providência.”
O que ocorre agora, dentro de campo, segundo ele, pode ser considerado normal. “O grande mal é que nesse momento querem encontrar culpados, e o fazem dentro do time.
Mas Nelinho vê uma situação delicada no que diz respeito ao relacionamento dentro do grupo. “Vemos nas entrevistas que um jogador fala do outro. Isso não pode ocorrer. Quem pode tirar o time dessa situação é o próprio time.
Idade
“Pra mim, a situação está complicada porque o time é formado por jogadores velhos.” A opinião é de Evaldo, ex-atacante, que diz ainda que no futebol atual não há espaço para jogadores de mais idade. “Hoje é correria.
Evaldo concorda com os seus ex-companheiros quando fala sobre a camisa e a instituição Cruzeiro. “Falta respeito com a camisa.” E diz que o técnico Rogério Ceni é o menos culpado dessa situação. “Ele chegou com o carro andando. O Mano sabia o que tinha nas mãos, por isso fazia o que considerava certo para esse elenco. O Ceni terá de se adaptar ao grupo. Não pode chegar e mudar tudo de uma vez.”
Questão de respeito
Natal, ex-ponta direita, fala em falta de respeito.
Ele compara o Cruzeiro de hoje com o do seu tempo. “A gente jogava não era por dinheiro, mas por prazer. O momento é difícil e temos de torcer para que o grupo consiga reerguer o time. É preciso hombridade por parte dos jogadores, é preciso respeito ao clube.
Ele diz ainda que é preciso pensar em soluções caseiras. “Por que não escalam a base? O clube gasta muito para formar jogadores e não usa os que forma. Creio que há três ou quatro em condições de ajudar nesse momento. Foi assim na minha época. Eu, Dirceu, Pedro Paulo, Tostão e Evaldo éramos todos novos. Uma decisão dessa daria motivação ao time. E acho que se algum jogador não estiver satisfeito, que saia.”
Responsabilidade
Ex-zagueiro e treinador, Procópio Cardoso entende que tudo o que o Cruzeiro passa hoje é consequência de uma crise financeira e que quem pode consertar isso são os jogadores. “Eles é que estão dentro de campo. É preciso ter responsabilidade e habilidade para sair da situação atual.”
Para o ex-zagueiro e ex-treinador celeste, “essa situação não pode atingir o elenco. O time tem de ter tranquilidade para ir a campo e pensar. O grupo do Cruzeiro é excelente. Não deve nada a nenhum outro clube. É preciso ter a cabeça no lugar.”
E fala também sobre a situação de Rogério Ceni. “Não sei se ele já passou por um momento assim quando era jogador. Acredito que não, pois o São Paulo sempre foi certinho. Ele terá de aprender a lidar com a situação atual. Ele não pode abrir mão de disciplina, nunca. E tem de ter respeito à tradição e à história do clube. Qualquer um pode sofrer com problemas financeiros e, nesse instante, é fundamental saber administrar esse problema.”