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Estado de Minas

Um abismo salarial


postado em 28/07/2019 04:21

Artilheira da Seleção Brasileira, Cristiane critica a diferença de pagamento se comparado com o esporte entre os homens(foto: JEFF PACHOUD/AFP)
Artilheira da Seleção Brasileira, Cristiane critica a diferença de pagamento se comparado com o esporte entre os homens (foto: JEFF PACHOUD/AFP)


Os gritos por igualdade salarial que marcaram o título dos Estados Unidos no Mundial de Futebol Feminino disputado em junho na França têm eco no Brasil. Por aqui, homens também ganham mais do que mulheres. De acordo com informações do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), da Secretaria da Previdência e Trabalho do Ministério da Economia (antigo Ministério do Trabalho), a média dos salários das mulheres é de R$ 2.556,34. No caso dos homens, R$ 5.577,53. Ou seja: os homens ganham 118% a mais. A amostragem é de 10 mil profissionais pesquisados.

“Essa diferença salarial é um absurdo. Pior é que não sei se a gente vai conseguir igualar isso algum dia”, diz Cristiane, atacante da Seleção Brasileira e do São Paulo. “Lá fora, a situação é a mesma. Dificilmente, você encontra uma atleta que ganhe 15 mil euros ou uns R$ 60 mil”, diz a ex-jogadora do PSG, o mesmo time de Neymar.

Questionado sobre o abismo salarial, Marco Aurélio Cunha, coordenador das seleções femininas da CBF, citou jogos recentes do futebol feminino que não tiveram cobrança de ingressos. “São unidades de negócio diferentes. Um é consolidado e lucrativo; o outro está em formação e ainda precisa de investimentos. Eles podem ser iguais financeiramente?”, questiona.

Além dos baixos salários, muitas jogadoras não têm registro profissional. Entre os 52 clubes que disputam o Brasileiro feminino, menos de 10% assinam a carteira, restringindo acesso aos direitos trabalhistas ou a benefícios do INSS no caso de uma contusão grave, por exemplo. Cunha reconhece a falta de profissionalização, mas pondera. “Ainda é uma atividade semiprofissional. Se exigirmos isso (carteira assinada) de todos, não haverá chance de sobrevivência de muitos clubes”, argumenta.

Dados do Caged mostram que as mulheres ganham menos também em outras modalidades esportivas. A diferença, porém, não é gigantesca. Considerando-se uma base de 10 mil salários pesquisados, a média de remuneração é R$ 3.022,68 para homens e de R$ 2.374,32 para mulheres.

Apesar da desproporção no contracheque, esportistas ressaltam desempenho e meritocracia. Isso explica o fato de as estrelas do basquete Hortência e Paula, por exemplo, terem tido premiações e salários bem superiores à maioria dos atletas de sua geração. O mesmo ocorre no atletismo. Fabiana Murer, bicampeã mundial, tinha o maior salário da BMF, maior clube do país, extinto no ano passado.

Atletas de outras modalidades, porém, desconhecem distinção. “No judô, as regras são iguais. Todo mundo tem a mesma pontuação, a mesma premiação e a mesma medalha. Não tem essa diferença. Na nossa modalidade, a gente não vê a discriminação que a gente vê no futebol e outros esportes”, diz a campeã olímpica Rafaela Silva. “É importante essa reviravolta. Foi assim a vida inteira, mas acho que agora está todo mundo brigando para ajudar o futuro e as próximas gerações”.

RELATIVIZANDO Entretanto, Silvana Goellner, pesquisadora sobre gênero, esporte e futebol feminino, alerta que é preciso muito cuidado ao comparar qualquer esporte ao futebol masculino da Primeira Divisão. “Nenhuma outra modalidade esportiva tem estrutura, visibilidade e a questão salarial igual ou ao menos que se aproxime dessa matriz espetacularizada”, pontua a especialista.

Outro ponto levantado por ela é que o futebol feminino no Brasil foi proibido por 40 anos (regularizado na década de 1980), ainda que não justifique a ausência de planejamento estratégico. A falta de oportunidade e de espaço, para Silvana, seria fruto de um ciclo sexista no qual o futebol é de domínio masculino. “Ele é dos homens porque a elas não são dadas oportunidades”, avalia.


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